Economia

Executivo sindical

DANIEL LIMA - 01/02/2005

Ganha um doce, um doce de batata doce, o leitor que, depois de ler o que se segue entre aspas e, diante das alternativas que ofereço de identificar o autor, acerte na mosca.


Vamos, então, à declaração:


“Debates como o Rodoanel, melhorias no Porto de Santos, Ferroanel, estão todos em nossas preocupações, bem como o debate que nós temos empreendido e que esperamos concluir agora durante este ano: uma política para o setor automotivo em que tenhamos um plano de longo prazo, tendo como primeira meta produzir dois milhões de veículos para o mercado interno já no ano de 2006. Isso significa dar para a indústria automobilística, que significa 11% do PIB, um plano de longo prazo. Na região já negociamos a vinda de novos produtos da indústria automotiva.
Este ano, começa a ser produzido aqui o Fox Europa. Estamos em negociação com a Ford. Se formos bem sucedidos, este ano virá um novo produto para São Bernardo. Com certeza isso atrairá novas indústrias para a região, como fornecedores, empresas do setor de serviços. Isso é riqueza”.


Declaração reproduzida, agora vamos ao teste de autoria:


a) Presidente de uma das montadoras de veículos de São Bernardo.
b) Prefeito de São Bernardo, William Dib.
c) Porta-voz do prefeito de São Bernardo.
d) Nenhuma das alternativas.


Acertou em cheio quem optou pela alternativa “d”. Não é fácil, não é fácil, passar por esse teste, considerando-se o histórico regional. Mais difícil ainda se fossem exigidos do leitor o nome, sobrenome, cargo e antecedentes corporativos do responsável pela declaração que, entre outras, está numa entrevista publicada na edição de domingo deste Diário.


Vamos acabar com o suspense: trata-se de José Lopes Feijóo, um espanhol de sangue quentíssimo que comanda o Sindicato dos Metalúrgicos do ABC, que abrange São Bernardo e Diadema. Antes disso, presidiu a CUT (Central Única dos Trabalhadores). Ex-operário da Ford, Feijóo é um dos exemplos emblemáticos das transformações por que passou o sindicalismo no Grande ABC. Ele fala como executivo de montadora ou de grande sistemista do setor automobilístico. Está de olho na produção de riqueza, na harmonia entre capital e trabalho, na geração de emprego, no equilíbrio socioeconômico. Que maravilha!


Fosse o Grande ABC marquetologicamente competente para provar ao mundo que aqui se respiram relações capitalistas mais modernas, mais contemporâneas, ao contrário de outras regiões do Estado, como o Vale do Paraíba, por exemplo, a declaração de Feijóo constaria de campanha publicitária de reconstrução da imagem regional.


Qual nada. Não fosse o resgate que faço da entrevista deste Diário, provavelmente o depoimento teria passado em branco. E sabem por quê? Porque a simples admissão de que o sindicalismo regional realmente mudou ao longo dos anos, embora ainda conserve algumas bobagens, exige das autoridades públicas e da comunidade como um todo mais que lamúrias sobre o passado de exageros, mas o compromisso de ajuntamentos para formatar o futuro. Trabalhar pela institucionalidade do Grande ABC é tarefa ainda para poucos e loucos.


Estamos perdendo uma grande oportunidade de promover debates locais que atualizem os meios de comunicação e seus consumidores de informações sobre a nova realidade do sindicalismo no Grande ABC. É possível que correremos alguns riscos de passar carão, mas valeria a pena investir no assunto porque ainda há quem imagine e destile que somos a terra de conflitos eternos.


Desde FHC com sua avalanche destrutiva do parque industrial da região o sindicalismo entrou em parafuso. E do parafuso saiu menos beligerante, mais compreensivo. A vitória de Lula da Silva, origem do chamado Novo Sindicalismo, ajustou ainda mais as peças porque se descobriu na prática que teorias fundamentadas em socialismo ingênuo não resistem à realidade.


Seria ótimo se os sindicalistas da região, especialmente Feijóo e seus companheiros de jornada, deixassem de lado a bobagem de sustentarem o demagogismo de redução da carga horária para gerar mais empregos. Isso não cola num mundo globalizado. Nossa competitividade internacional no setor automotivo ainda se estrutura na moeda desvalorizada e no baixo custo da mão-de-obra. Basta um solavanco de valorização descabida do real, como já se percebe, que vamos para o ralo.


Sem contar que a modalidade de menos trabalho e mais emprego depende enormemente de subsídios governamentais e, como se sabe, o Brasil não aceitaria, até porque não dispõe de recursos, tamanho privilégio setorial.


Precisamos gerar mais empregos com produção crescente. Aliás, é o que Feijóo tão bem expôs como executivo sindical do setor metalúrgico. Executivo sindical do setor metalúrgico? Não é que essa nomenclatura está mais próxima da realidade de nossos dias?


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