Uma sugestão ao Ministério Público do Consumidor da Província do Grande ABC – e também de outras praças: investigue com rigor absoluto todos os distratos de compras de imóveis. Sem correr o menor risco de errar, porque se trata de uma barbada, garanto que Milton Bigucci, chefão do Clube dos Especuladores Imobiliários e dono do conglomerado MBigucci, vai estar enroscadíssimo. Ele é useiro e vezeiro na travessura de enrolar a clientela. Mas não está sozinho. Outras companhias produtoras e vendedoras de imóveis também vão aparecer com as calças do incômodo arriadas de vergonha.
Faço o adendo justamente para que não digam que estou a perseguir Milton Bigucci. Não que ele não mereça um cão perdigueiro a seguir seus passos. Afinal, como dirigente de uma entidade de classe, mesmo que uma entidade de classe mequetrefe e manipuladora, Bigucci é porta-voz oficial de uma atividade que, como todas as demais, tem os bons e os maus representantes. Milton Bigucci, claro, está na turma da contravenção. A frequência com que é colhido em delitos está aí para provar.
A confirmação do título que o Ministério Público do Consumidor de São Bernardo deu ainda recentemente à MBigucci como campeã em abuso contra a clientela se referiu apenas a uma das modalidades nas quais compradores levaram pedaladas do dirigente do Clube dos Especuladores. Foram casos de comissionamentos que ferem fundo as relações comerciais.
Casos se multiplicam
A proposta de nova e profunda investigação agora se refere – embora não descarte a anterior – à devolução de valores de distratos a que são levados compradores impossibilitados de ratificar a compra de imóveis na fase final de financiamento por causa de contratempos principalmente financeiros neste longo período de ressaca econômica que, no mínimo, vai até meados do ano que vem.
Balancetes das grandes companhias fechadas do mercado imobiliário, registrados no noticiário econômico, dão conta de que rompimentos de contratos viraram febre no País. Nas companhias de capital fechado, como a MBigucci e seus tentáculos, a situação não é diferente. Há informações seguras de fontes insuspeitas de que a maré não está para peixe. Aos encalhes estrondosos que fazem da Província do Grande ABC cordilheiras de imóveis à espera de donos, saltam números gigantescos de distratos.
Sei que o Ministério Público Estadual está numa miséria em termos de infraestrutura material e de recursos humanos de lascar, para alegria dos malfeitores. Entretanto, um esforço concentrado com determinado grupo de especialistas faria um estrago e tanto nos balancetes de companhias que flertam o tempo todo com a ladroeira interpretativa de contratos. A constituição dessa força-tarefa é sempre possível quando se coloca no horizonte próximo uma modelagem investigatória pedagógica. Está aí o Petrolão para confirmar a sentença.
Primeira viagem
Esperar que os compradores arrependidos procurem seus direitos -- como o fez o morador de São Caetano que botou para quebrar na Justiça a malandragem técnica da MBigucci -- é acreditar ingenuamente que no jogo do mercado imobiliário os dois lados do balcão são profissionais e, portanto, estão em igualdade de condições para competir por valores monetários dignos de livre-negociação. O comprador que não é investidor mas pretenso morador não passa de principiante a ser abatido por predadores.
Provavelmente a massa de marinheiros de primeira viagem não terá uma nova experiência de compra na vida. Do outro lado estão especialistas na matéria que, além de craques na arte de vender, também seguem, em empresas sem lastro ético, a tática de alta rentabilidade a qualquer custo.
O caso judicial vencido em segunda instância por um comprador de imóvel da MBigucci, divulgado na semana passada pelo Diário do Grande ABC e também por esta revista digital, chama a atenção num ponto específico, além do escândalo do drible da vaca propriamente dito: por que será que o recorrente mantém identidade oculta? Várias ilações podem frequentar o banco de alternativas, por isso não considero seguro esmiuçá-las.
Amedrontamento não seria lógico porque, por mais que o estilo de Milton Bigucci não seja necessariamente compatível com determinadas regras do mercado imobiliário, o autor da ação é de conhecimento da empresa que, do outro lado do balcão, passou a perna ao lhe devolver quantia muito aquém da reconhecida pela Justiça.
Mão providencial
É mais que provável, é certíssimo, que, com uma mãozinha do Ministério Público do Consumidor, todos os compradores de imóveis com distratos já consumados vão assumir nome e sobrenome sem o menor receio numa ação consorciada de reparação dos valores penalizados à revelia da Justiça.
Está na hora de acabar com a farra do boi dos mercadores imobiliários, inclusive para proteger empresários do setor que podem exibir selo de responsabilidade social no relacionamento com a clientela.
Aliás, por falar em selo de responsabilidade social, quem sabe os empresários sérios do setor não tomem uma frase por ideia genial e se consorciem para se diferenciarem dos malfeitos do presidente do Clube dos Especuladores, conferindo aos seus negócios a devida idoneidade? O respaldo do Ministério Público do Consumidor na chancela de compromisso com a clientela seria providencial. Quem se habilita a liderar um movimento de moralização das negociações no mercado imobiliário?
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17/02/2026 MANDACHUVAS E MARIONETES