Economia

Safari urbano

DANIEL LIMA - 12/01/2005

A impaciência me levou a optar pelo pior caminho para chegar ao Guarujá na noite de sexta-feira, mas serviu para confirmar o que a criminalidade local há muito me intrigava. Costumo descer ao Guarujá pelo menos uma vez por mês. Talvez menos. Em outros tempos, fui mais assíduo. A carga de trabalho é cada vez maior e a indolência do Litoral é adversária para quem procura fazer do tempo aliado. O Guarujá é convite à vagabundagem.


Geralmente não erro o tempo de deslocamento. São 70 quilômetros da garagem de minha casa no Jardim do Mar, em São Bernardo, ao apartamento na Enseada. Sem excesso de velocidade, o tempo percorrido geralmente é de uma hora. Sexta-feira não seria diferente.


Quando cheguei ao ponto referencial da Piaçaguera em que contorno a alça de viaduto de acesso ao túnel que desemboca nas proximidades da Avenida D. Pedro, na Enseada, havia se passado 50 minutos de viagem. Ao meu lado, uma de minhas filhas, Dannyela. Outros dois, Dino e Lara, nos aguardavam. Minto: Lara resolveu acompanhar o show de Ivete Sangalo na Phoenix, casa de espetáculos que reúne jovens e adolescentes nestes tempos de férias escolares.


Não acreditei no que via à frente, logo depois de contornar o viaduto da Piaçaguera. O trânsito estava parado. Imaginei o pior dos mundos. Um farol nas proximidades do túnel industrializa congestionamentos por absoluta falta de gerenciamento do tempo. Fecha-se ao fluxo mais intenso dos turistas em proporção semelhante ao sinal verde do trânsito interno e menos denso das bordas da Enseada, especificamente da Vila Zilda.


Resolvi mudar de trajeto. Dei meia-volta no entroncamento em frente ao cemitério, retomei à alça do viaduto e saí de novo na Piaçaguera, agora em direção ao centro do Guarujá. Por ali, acreditava que desvencilharia naquele farol da Vila Zilda. Dancei bonito, porque o acesso ao centro estava igualmente congestionado. Uma terceira opção se abria: a rua que corta a Vila Zilda e sai exatamente no farol que privilegia seus moradores. Pensei com meus botões: vou chegar na frente dos motoristas atolados no congestionamento de quem contornou o viaduto da Piaçaguera e também daqueles que optaram pelo centro.


Não sei exatamente quantos metros percorri naquela rua principal de Vila Zilda. Talvez sejam uns dois quilômetros. O que vi naquele fim de noite é o retrato acabado do Brasil que está longe da orla praiana. Aquele corredor polonês consumiu uma hora de trajeto.
Havia muitos veículos à frente de meu Peugeot. Tornamo-nos objetos de curiosidade de gente de todas as idades que, da calçada, das sacadas de casas na maioria sem reboco, da frente de botecos enfileirados, de pontos de ônibus, acompanhavam o movimento de veículo com avidez. Senti-me num safari.


O contingente de jovens, principalmente meninas, impressionava. Todos acompanhavam o corso dos impacientes que resolveram trocar a rotina de trajeto mais ortodoxo. A impressão de que os pobres são especialistas em produzir meninas em vez de rapazes já se manifestara antes, em outros tempos, longe dali, na praia. Mas vendo aquela multidão de jovens, não tive dúvidas.


Os migrantes devem ter alguma fórmula de gerar meninas. Mas, pensando bem, não é apenas isso. As estatísticas estão aí para tipificar que a maioria de jovens do sexo masculino de 15 a 24 anos domina a lista de homicídios. Os rapazes não têm tempo de virar homens porque o tráfico de drogas os retira das escolas e substitui a escassez de empregos mal-remunerados.


Estava relativamente tranquilo até o momento em que um adolescente recomendou de forma zombeteira que minha filha fechasse o vidro dianteiro do veículo. Um recado que pode ser traduzido na linguagem da criminalidade como algo assim: “Feche o vidro senão serei obrigado a te assaltar”. Mais adiante, voltei o rosto rapidamente em reflexo condicionado à passagem de um outro adolescente, que atravessou a rua bem próximo de mim. Do outro lado da calçada, encontrou um amigo e não resistiu a levantar o troféu de intimidação que planejara: “O tio ficou com medo, o tio ficou com medo”.


E fiquei mesmo. Até porque, meu Peugeozinho ganhou certa visibilidade depois que à minha frente aquele utilitário da Mitsubishi novinha e lotada de turistas arrancou na contramão quando o motorista viu um jovem na calçada apontar em direção aos acompanhantes e fazer o sinal típico de que pretendia ganhar de presente um aparelho celular usado inadvertidamente na passarela dos excluídos.


Aquele trajeto na Vila Zilda foram momentos tensos de quem mergulhou de cabeça num mundo à parte, longe de luzes feéricas de uma Guarujá de incluídos sociais de todos os cantos do País. O Guarujá de classe média em busca de alguns momentos de recomposição de energia esconde uma caudalosa massa de deserdados. É a roleta-russa de um País que insiste em patinar.


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