Economia

Arca de Noé

DANIEL LIMA - 02/01/2005

Os APLs (Arranjos Produtos Locais) estão chegando tardiamente ao Grande ABC, mas nem por isso devem ser desqualificados. Passado o vendaval da globalização apressada e descuidada, principalmente durante o governo Fernando Henrique Cardoso, quando pequenas e médias indústrias familiares foram enxotadas do mapa regional, o que sobrou corre em busca de competitividade. Juntam-se em grupos de APLs que a Agência de Desenvolvimento Econômico resolveu implantar, com apoio do Sebrae. Setores de autopeças, plásticos e ferramentaria saíram do araquiri do isolamento e resolveram conjugar o verbo cooperar.


O futuro vai provar, como o passado cansou de ensinar, que os empreendimentos sob o guarda-chuva dos APLs vão se distinguir no cenário do que restou de pequenos e médios negócios industriais na região. O instinto de sobrevivência que move os industriais metidos nesse invólucro de modernidade é o que de fato os move na incansável disputa por discretíssimo lugar a um sol sempre radiante que contempla na maioria dos casos os grandes empreendimentos.


A novidade que pintou no Grande ABC, extensão de projetos muito mais antigos, espontâneos e culturalmente amadurecidos espalhados pelo Brasil, há de colocar outras pequenas e médias indústrias definitivamente na sarjeta da economia. Sim, porque quem não tiver bala na agulha do cooperativismo para integrar-se mesmo que subordinadamente à mundialização dos negócios não resistirá mesmo ao sufoco da competitividade.


Provavelmente esses retardatários que não conseguirão pegar o bonde da história serão os últimos dos moicanos de um passado glorioso do território regional em que brotavam indústrias em cada quarteirão. Tempos de mercado fechado, é verdade, tempos de substituição enlouquecida de importações, é fato, tempos de inflação escamoteadora de ineficiências, sem dúvida, tempos de um capitalismo romântico, mas tempos imemoriais de mobilidade social que virou pó.


O maior perigo que se corre quando florescerem resultados dos APLs do Grande ABC é que triunfalistas eternamente de plantão poderão substituir o sucesso do pedaço seletivo pelo fracasso inequívoco da maioria. O grupo de empresas que tem tudo para se dar bem na conjuntura macroeconômica de produtividade em constante assédio não pode ser proclamado irresponsavelmente como a marca do sucesso do novo Grande ABC industrial. Melhor dizendo: as empresas cooperadas até podem ser simbolizadas como extratos de compartilhamento de eficiência que faltou durante décadas; entretanto não podem exprimir, sem ressalvas, o quadro regional do setor industrial recentemente abalroado por governos ingênuos quando não irresponsáveis.


A tendência de o Grande ABC reunir universo cada vez mais compacto de empresas industriais é inescapável. O próprio sucesso dos APLs levará a isso, como se não bastasse o aperto dos negócios que cortam custos em frenética medição de forças de competidores dos diferentes pedaços do planeta. Haverá um número cada vez mais seletivo de empreendimentos cujas linhas de produção tecnologicamente atualizadas e cada vez menos empregadoras de mão-de-obra abastecerão grandes companhias internacionais.


Por isso, a disputa pelos nacos setoriais dos Arranjos Produtivos Locais é luta encardida cujos retardatários provavelmente não terão uma segunda oportunidade. Aliás, os próprios titulares das vagas disponibilizadas pela Agência de Desenvolvimento Econômica sabem que não ingressaram necessariamente no primeiro ano de uma carreira concorridíssima. Estão apenas participando de vestibulares, cujo afunilamento é espermatozóidico.


Não fosse o Brasil despreparado para cuidar dos pequenos negócios, a operação emergência lançada no Grande ABC em forma de APLs teria sido aplicada com pelo menos duas décadas de antecedência. Isso mesmo, 20 anos. Mais precisamente antes da providencial mas destrutiva chegada de Fernando Collor à Presidência da República, quando iniciamos o escancaramento à internacionalização dos negócios, e, principalmente, no governo FHC, quando a combinação de privilégios ao sistema financeiro, moeda artificialmente valorizada e abertura indiscriminada do mercado automotivo, com evidente dicomotia de tratamento às montadoras e autopeças, colocaram o Grande ABC à nocaute.


Antes que os vendedores de ilusão se coloquem a serviço de otimismo desenfreado, convém realçar o desencaixe temporal que, particularmente no Grande ABC, colocou na faixa de reforma estrutural do setor industrial um modelo de planejamento setorial que o capitalismo do Primeiro Mundo aplicou com sapiência.
Há poucos sobreviventes com capacidade de se introduzirem no mundo da competitividade sistêmica que os APLs estimulam. São poucos espécimes resgatáveis por uma Arca de Noé tardia, mas nem por isso inútil.


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