Sociedade

Falta Operação Bisturi para acabar
com a farra da Churrascaria Fuabc

DANIEL LIMA - 23/09/2015

Chegou a vez de Santo André nomear o presidente da Fundação do ABC. A churrascaria Fuabc tem tudo de uma lavanderia. É um prato cheio para a Polícia Federal. Em nível municipal e também regional não existe possibilidade de instâncias legais esmiuçarem as contas, os procedimentos, os arranjos e tudo o mais que caracteriza a única regionalidade que deu certo na Província do Grande ABC. E só deu certo porque é altamente compensatória aos representantes de Santo André, São Bernardo e São Caetano.

 

Afirma o prefeito Carlos Grana que vai colocar um técnico à frente daquela churrascaria. Há tanta flexibilidade aplicada ao conceito de técnico que o melhor é esperar. Maurício Xangola Mindrisz presidiu durante dois anos a churrascaria. Era um técnico porque engenheiro de formação ou um assessor político para assuntos eleitorais e outros mais do prefeito de São Bernardo, Luiz Marinho, e, mais especificamente, da primeira dama Nilza de Oliveira, amiga chegadíssima da então ministra do Planejamento, Miriam Belchior? É claro que Xangola era tudo, menos um gestor no sentido econômico do termo.

 

Organograma surrado

 

Possivelmente faça parte do marketing político-administrativo de Carlos Grana dar uma enfeitada no pavão para tentar transmitir a falsa ideia de que a Churrascaria Fuabc seja algo sério no surrado organograma de regionalidade desta Província. Sabe-se que nomes não faltam na lista de pretendentes. Sabe-se também que apenas um dos eventuais candidatos ao cargo, ainda nos tempos em que estava próximo a Carlos Grana, recusou a proposta, ou não lhe deu a menor importância. Trata-se do então secretário de Mobilidade Urbana e agora candidato do PSDB ao Paço Municipal, Paulinho Serra. Bem informado, bobo que não é, Paulinho Serra teria saltado de banda quando lhe propuseram um cargo que tem muitos bônus mas pode também, quem sabe, numa reviravolta, provocar muitos danos.

 

Há nesta revista digital 52 artigos sobre a Fundação do ABC, nos quais a instituição aparece como protagonista, não como figurante, na maioria das vezes. O texto mais recente sobre essa caixa-preta do setor de saúde de Santo André, São Bernardo e São Caetano foi publicado em fevereiro deste ano. O título talvez seja autoexplicativo: “Fundação do ABC lubrifica suspeita de que poderia ser uma Petrobras”. Um dos parágrafos mais agressivos, no sentido de transparência, não deixa dúvida quanto ao tom do trabalho jornalístico: “Que tal provocar um jogo de transparência daquela montanha de dinheiro? Tudo é muito obscuro naquele conglomerado de prestação de serviços. O modelo de gestão, a área operacional, os setores administrativos, as instâncias de suposto controle, tudo enfim mantem-se blindado à curiosidade pública. Talvez seus responsáveis entendam que há um segredo da Coca Cola a ser preservado. Talvez haja mesmo segredos cabeludos”.

 

Guarda-chuva ecumênico

 

Entre procurar numa cabeça sempre disposta a novas configurações explicativas, seguindo uma linha de coerência, e sequestrar algumas frases daquele artigo, fico nesta edição com a segunda alternativa. Estou com certa preguiça de repetir com outras palavras tudo o que penso sobre a Fundação do ABC. Escrevi em fevereiro deste ano: “A Fundação do ABC é um guarda-chuva imenso ecumenicamente construído pela regionalidade transversa para acomodar interesses em conflito ou em coalizão. Seria, por assim dizer, importante ramal a acordos político-partidários municipais e intermunicipais envolvendo mandachuvas e mandachuvinhas da vez nas prefeituras de Santo André, São Bernardo e São Caetano. É claro que tais acordos são costurados por baixo dos panos”.

 

Lembrei também que o então presidente Maurício Xangola Mindrisz fugiu da raia e não respondeu à Entrevista Indesejada que CapitalSocial lhe enviou. Xangola é frequentador contumaz de bastidores políticos, administrativos e outros mais de interesse do PT, especificamente do PT de São Bernardo, do PT de Luiz Marinho. Suas andanças agora se estendem a obras do programa Minha Casa, Minha Vida na região. Xangola não sabe quase nada de construção civil, mas tem amigos milionários que entendem o suficiente.

 

Maurício Xangola Mindrisz foi questionado em 2013 por CapitalSocial. Foi-lhe preparada uma Entrevista Indesejada, da qual fugiu silenciosamente. Fugir de Entrevista Indesejada praticamente todos fugiram. São perguntas que os jornalistas não costumam fazer porque mexem com algumas vacas sagradas da região. Há temas praticamente intocáveis, porque potencialmente constrangedores.

 

Na verdade, o único personagem da região que respondeu à Entrevista Indesejada para valer foi este jornalista, submetido aos leitores após transferir a marca LivreMercado a um empresário que deu com os burros nágua por imaginar que fazer revista é algo tão simples quanto recuperar impostos.

 

Na oportunidade da Entrevista Indesejada com Xangola perguntei por que a Fundação do ABC promoveu socorro financeiro à Faculdade de Medicina do ABC fora dos padrões de legalidade. Também quis saber a razão de o Conselho Curador da Fundação do ABC ser avaliado como encenação de legalidade, de legitimidade e de democracia resolutiva. Outra pergunta que fiz a Xangola referia-se ao fato de que a Central de Convênios ser uma caixa-preta dentro da caixa-preta da instituição. Também o coloquei contra a parede da transparência ao lhe perguntar sobre as razões de não chamar para o Conselho Curador gente sem ligações políticas e financeiramente independentes para acompanhar as contas da instituição?

 

Conteúdo condensado

 

A Churrascaria Fuabc ganha essa marca pela primeira vez neste espaço porque, confesso, não resisto a resumir meu pensamento crítico ao adotar rótulos que condensem o conteúdo. Churrascaria se deve ao fato de a Fundação do ABC ter um regime presidencial determinado pelo rodízio dos representantes dos três municípios que lhe dão sustentação econômica e financeira.

 

Depois de Xangola de São Bernardo e do obscuro representante de São Caetano, chegou a vez de Santo André. Não sou contra churrascaria. De vez em quanto até dou uma passadinha num dos endereços da região. Mas quando a churrascaria serve um produto recheadíssimo de inconformidades e todo mundo aplaude, só pode mesmo existir caroço nesse angu. Por isso, técnico autêntico ou técnico disfarçado, pouco importa. A essência continuará a mesma. Nossa Petrobras está à espera de uma Operação Bisturi. Ou seria uma Operação Rodízio? 



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