Economia

Pequenos negócios refletem
declínio da classe média

DANIEL LIMA - 08/08/2003

As adversidades dos micro e pequenos negócios vão muito além do que costumeiramente pretende mostrar a Pesquisa de Conjuntura realizada pelo Sebrae (Serviço Brasileiro de Apoio à Micro e Pequena Empresa) e anunciada mensalmente pelo coordenador Marco Aurélio Bedê. Especificamente com relação ao Grande ABC, há série de impropriedades que, divulgadas acriticamente, pretendem transformar os micros e pequenos negócios em oásis de relativa prosperidade frente ao restante do Estado, quando se sabe que a realidade está em outra fronteira de cores muito menos alegres.


Rastreamento do quadro dos pequenos negócios de comércio, serviços e indústria do Estado de São Paulo produzido pelo próprio Sebrae e anunciado ontem por vários jornais choca-se com os estudos da mesma instituição divulgados hoje.


Anteontem, o presidente da entidade, Alencar Burti, reuniu a Imprensa para afirmar que o setor vive o pior momento desde o Plano Real, em 1994. Em termos de faturamento real, por exemplo, essas empresas amargaram perda de 52,6% só nos últimos cinco anos. No mesmo período — ainda segundo Alencar Burti — o número de pessoas empregadas caiu 10% e os gastos totais com salários (descontada a inflação) recuaram 31,7%.


Enfático, Alencar Burti foi incisivo na interpretação dos números, atirando na lata de lixo qualquer preocupação comum de lideranças empresariais de tentar dourar a pílula: “O faturamento da micro e pequena empresa representa a classe média brasileira e essa pesquisa mostra o achatamento da classe média e uma perda substancial de seu poder aquisitivo”.


Foi mais longe o presidente do Sebrae-SP em matéria publicada pelo Estadão de ontem. Para ele, a micro e pequena empresa merece a mesma atenção da sociedade e do governo que projetos como Fome Zero. “Representamos 98% do total de empresas brasileiras. Somos regra, não somos exceção”.


Já nos jornais de hoje, o pesquisador Marco Aurélio Bedê, novamente como a cada 30 dias, divulga dados sem levar em conta, persistentemente, o deflacionamento de valores. Pela Pecompe, como é conhecida a pesquisa anunciada por Bedê, na comparação com junho do ano passado houve estagnação do faturamento médio das micro e pequenas empresas de comércio, serviços e indústria, com crescimento positivo de mísero 0,4%.


Pura bobagem numérica. Ao desconsiderar a inflação do período, o estudo bate de frente com a coletiva à Imprensa do presidente Alencar Burti no dia anterior. Como se sabe, Burti não cometeria o desatino de congelar os valores dos últimos cinco anos no confronto com os números atuais. A insistência de Marco Aurélio Bedê em desprezar a inflação é um equívoco que só lubrifica a máquina de ilusionismo midiático.


Protagonista das páginas amarelas da revista Livre Mercado de junho de 2002, Marco Aurélio Bedê foi questionado sobre o fim da inviolabilidade inflacionária dos dados. Sua resposta: “Estamos estudando essa possibilidade. A Pecompe é uma pesquisa de conjuntura muito jovem. Completou quatro anos, ou três anos no caso do Grande ABC. É preciso conhecer melhor o comportamento ao longo do tempo nos vários níveis em que se dispõe de informações antes de definirmos os critérios de deflação e de dessazonalização. Por exemplo: é preciso definir antes qual o melhor indicador para deflacionar a série, se será um único índice de preço a ser utilizado ou se cada subssérie (indústria, comércio e serviços) será deflacionada por índice específico. O ideal para definir critérios de deflação e dessazonalização é aguardar quatro ou cinco anos regulares de observação antes de optar definitivamente por um critério ou outro” –afirmou o pesquisador.


Marco Aurélio Bedê é um profissional sério, mas já não pode mais dar informações à Imprensa sem acrescentar o vetor inflacionário. As notícias que saltam da pesquisa que coordena são combustível para malversadores acrescentarem mais camadas de enganação explícita.


Também é importante que a Pecompe passe a apresentar os resultados mensais e históricos por atividade econômica, já que entre comércio, serviços e indústria as nuances de comportamento econômico são extremamente versáteis.


Acrescente-se a isso a imperiosidade de esclarecer dois outros fatos estatísticos. Primeiro, as empresas informais não constam dos trabalhos e, portanto, alçam as análises para o campo da formalidade, o que significa minimizar a realidade. Segundo, a Pecompe do Grande ABC foi iniciada em janeiro de 1999, um ano após o trabalho geral. Disse Bedê na entrevista sobre o assunto, um ano atrás: “Os resultados do Grande ABC têm sido melhores que a média do Estado porque, por coincidência, iniciamos a série da região no período de mudança do regime cambial. Lembramos que a mudança no câmbio tem favorecido muito empresas exportadoras e regiões onde estão localizadas. Entretanto, é provável que o período de maior dificuldade e de maior desestímulo às exportações, vivido entre 1997 e 1998 por força do câmbio sobrevalorizado, tenha prejudicado bastante as empresas da região. Ou seja, a Pecompe do Grande ABC pode ter sido iniciada no momento em que a região estava no fundo do poço, daí talvez a razão porque a recuperação de 1999/2000/2001 aparece de forma mais forte na série da Pecompe do Grande ABC” — afirmou em junho do ano passado.


Na abertura daquela entrevista, feita por este jornalista, usamos metáfora para separar a participação temporal do Grande ABC da do restante do Estado na pesquisa do Sebrae. “A diferença fundamental está na inclusão de empreendimentos da região na Pecompe a partir da desvalorização do Real, em 1999, enquanto as demais regiões paulistas começaram a ser analisadas no ano anterior, de forte desaceleração econômica. Algo como calcular o consumo de combustível de uma motocicleta que passa por um marco de 20 quilômetros e outra que inicia a disputa a partir daí. É evidente que o segundo veículo, ao atingir 100 quilômetros, terá apresentado melhor performance” — escrevi naquela oportunidade.


Para concluir, uma sugestão a Marco Aurélio Bedê: apresse, por gentileza, a reconfiguração desse importante trabalho. Detalhe-o mais por atividade econômica e por região e aí não só teremos diagnóstico que nos livrará dos triunfalistas de plantão como, também, o próprio Sebrae, instituição que tanto respeitamos, não se apresentará à Imprensa em dias diferentes com conclusões diferentes. Para deleite de meias-verdades.


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