Economia

Metamorfose econômica (28)

DANIEL LIMA - 30/07/2009

No contrapé do empobrecimento da classe média com carteira assinada que recebia pelo menos 20 salários mínimos por mês nos oito anos do governo Fernando Henrique Cardoso, o Grande ABC viu avolumar-se descomunalmente o grupo de empregos de até cinco salários mínimos.

Foi naquela edição de LivreMercado (morta e enterrada recentemente pelo novo comando editorial, como se sabe) de junho de 2006, com dados oficiais do Ministério do Trabalho e do Emprego, que expus as vísceras do mercado de trabalho na região.

Mais que isso, comparei a situação com outras áreas do Estado e também com o quadro nacional. Tudo para que não existisse dúvida alguma sobre o estrebuchamento regional. Só vendedores de ilusões e delinquentes éticos negaram ou ainda negam as mudanças. Invariavelmente o fazem porque interesses particulares sufocam a responsabilidade social.

O acréscimo de 59% do pelotão de trabalhadores de baixos vencimentos mensais (a faixa de cinco salários mínimos) no Grande ABC durante janeiro de 1995 a dezembro de 2002 contrastou com a média de 37% registrada no G-3 (Campinas, Sorocaba e São José dos Campos) e suplantou também o conjunto de números de São Paulo, Guarulhos e Osasco (46%). Se o confronto for entre o Grande ABC e o G-13 (os sete municípios da região, São Paulo, Guarulhos, Osasco, São José dos Campos, Sorocaba e Campinas), a derrota é ainda mais fragorosa: a massa de trabalhadores de até cinco salários mínimos cresceu apenas 12,3% no período pesquisado.

São Caetano lidera

A proletarização salarial na Região Metropolitana de São Paulo, de 39 municípios, não ultrapassou 17,6%, ou seja, foi menos de um terço da média do desgaste registrado no Grande ABC. O Estado de São Paulo contabilizou 27,6%. Já a média nacional, mesmo elevada, de 43%, ficou aquém da numerologia do Grande ABC.

Em termos relativos, o Município da região que mais teve remexida a estrutura de emprego formal foi São Caetano. A guerra fiscal no setor de serviços, iniciada discretamente pelo então prefeito Antonio Dallanese e vigorosamente reforçada pelo sucessor Luiz Tortorello, motivou a apresentação do maior saldo de empregos (157,2%) de até cinco salários mínimos nos oito anos de Fernando Henrique Cardoso no G-13.

Os números artificializados de São Caetano inflaram os dados gerais do Grande ABC. Entretanto, por terem peso absoluto de baixo impacto, não descaracterizaram a realidade regional. E a realidade mostrava que, em contraponto às volumosas perdas de empregos industriais sempre mais bem remunerados, o Grande ABC viu explodir o setor terciário até então acanhado. Com isso, a incidência de salários mais modestos predominou.

De 229.550 empregos de até cinco salários mínimo registrados em 1994 o Grande ABC saltou para 364.706 em 2002. A diferença de 135.156 compensou com folga em números absolutos os 20.977 empregos de mais de 20 salários mínimos destruídos no mesmo período.

Apenas os simplistas poderiam filtrar desses números armamento matemático ou semântico de negação das fundas mudanças ocorridas. A proletarização dos vencimentos e as demais faixas salariais tornam qualquer raciocínio em contrário apenas intervenções triunfalistas anedóticas.

Proletarização salarial

Se até cinco salários mínimos o saldo de empregos formais no Grande ABC acumulava naquele período 133.156 trabalhadores, a contabilidade se modifica quando se somam empregos de mais de cinco salários mínimos destruídos: em 1994 o Grande ABC contava com 276.514 postos na larga faixa que vai de 5,1 a mais de 20 salários mínimos, contra 187.896 registrados em 2002. Uma queda de 32%, ou a perda de 88.514 postos de trabalho.

A contagem geral reduziria o saldo de empregos formais no conjunto de faixas salariais a 46.642 carteiras assinadas. Como o setor industrial perdeu 81.200 trabalhadores no período, o resultado final se deve às demais atividades (comércio, serviços, agropecuária, construção civil, entre outras) que, comprovadamente, contam com política de remuneração menos generosa. Daí a proletarização.

Quando aquele estudo que dirigi pessoalmente extrapolava os números de empregos formais acima de cinco salários mínimos, incluindo os de mais de 20 salários mínimos, constatava-se que o Grande ABC mantinha a liderança absoluta de perdas. Houve quebra de 32%, quase o triplo (11,1%) da média de São Paulo, Osasco e Guarulhos, mais que o triplo (9,8%) das perdas conjuntas de Sorocaba, Campinas e São José dos Campos e mais que o dobro (13,7%) do G-13. Sugiro a repetição da leitura desse parágrafo para que se fixe na memória o significado dos números apresentados. Costumo repetir a leitura de frases que considero fundamentais. Mais quer isso: sublinho-as com a indefectível esferográfica de tinta preta.

Quem mais perdeu estoque de empregos na faixa de 5,1 salários mínimos em diante só poderia ser quem mais perdeu força industrial no período fernandohenriquista: Ribeirão Pires atingiu 60%. Diadema também sofreu duramente os eleitos da proletarização salarial, com queda de 42,6%. Quem menos acusou golpes no Grande ABC foi São Caetano, com perda de 16,3%. Rio Grande da Serra não deve ser considerada porque caminhou na contramão dos demais municípios, com avanço de 144%. Tudo se deve ao pequeno universo de trabalhadores com carteira assinada combinado com a guerra fiscal no setor de serviços, de que lançou mão para capturar uma empresa de plano de saúde sediada em Santo André.

Precisa desenhar?

Quando se estende o confronto de queda de empregos com carteira assinada de mais de cinco salários mínimos, a situação se torna mais critica e localizadamente comprometedora para o Grande ABC: os paulistas, em média, e sempre nos oito anos de FHC, perderam apenas 1% desse estoque de assalariados, contra 13% da Região Metropolitana de São Paulo e 12,3% da média brasileira.

Alguém ainda tem dúvidas do desastre provocado pelas políticas econômicas de Fernando Henrique Cardoso no Grande ABC?

Entenderam por que se, num dia desses, o Legislativo de Santo André, que cometeu a loucura de me conceder o Título de Cidadão Honorário, resolver incluir Fernando Henrique Cardoso na lista, não teria dúvida em queimar em praça pública a prova material daquela homenagem?

No próximo capítulo escrevo sobre o comportamento do emprego industrial no Grande ABC durante o período FHC. Preparem-se para entender ou rememorar o quanto sofremos. Uma conta que continuamos a pagar, porque nenhuma cidadela fica impune à invasão dos bárbaros.



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