A Lava Jato vai continuar a atazanar a vida de muita gente na região -- como de resto no Brasil. Muitos mandachuvas e mandachuvinhas estão assustados com os desdobramentos da operação que tem o quartel general em Curitiba e um dos focos de corrupção a Província do Grande ABC. Quem acreditava que o limite das investigações – e, enfim, de saída do sufoco – seria dezembro vai dar com os burros nágua. Em dezembro estarão encerradas as macrooperações, segundo a cronologia dos federais. Depois de dezembro virão as microoperações. Por microoperações devem ser entendidas muitas das rebarbas que hoje não são suficientemente prioritárias porque o mundo de Brasília requer toda a preferência.
A Lava Jato, que divide a historiografia criminal entre o passado de pusilanimidade geral e o presente de muita investigação e punição, vai dar muitos filhotes mesmo. Eles vão se espalhar pelo País durante muito tempo. Palavras textuais de um dos condutores da operação, o procurador-geral da República, Carlos Fernando dos Santos Lima, em entrevista à revista Época desta semana. Quem não liga o nome ao mensageiro deveria dar uma espiada no Google. O homem da federal tem um rosto gélido de quem parece não se abalar com nada.
A prisão do empresário Ronan Maria Pinto, dono do Diário do Grande ABC, até agora a notícia mais impactante da Lava Jato no território regional, deverá ser superada em tempos futuros e não necessariamente por conta de eventual delação premiada. Há gente graúda da política regional que estaria na alça de mira da Lava Jato.
Genealogia do crime
Sobre Ronan Maria Pinto o que pesa é a suspeita de que conheça profundamente a genealogia do sistema de corrupção implantado pelo Partido dos Trabalhadores a partir do laboratório montado em Santo André durante a Administração Celso Daniel. Os federais têm convicção de que Ronan é o mapa da mina que os conduziria de vez ao ex-presidente Lula da Silva. Mas há controvérsias: Ronan possivelmente não teria bala suficiente para alimentar os federais com informações que já não tenham sido sacramentadas.
Possivelmente o que os procuradores e a Policia Federal querem oferecer ao juiz Sérgio Moro é uma vasta documentação com provas de que existiriam digitais principalmente do então candidato presidencial Lula da Silva e também do depois ministro- chefe da Casa Civil, José Dirceu, no esquema de propina para abastecer os cofres petistas na corrida presidencial de 2002. Estou certo de que se Ronan Maria Pinto decidir ir à delação premiada a cúpula petista acusaria um impacto fortíssimo.
Aqueles que imaginam que uma derivação da prisão de Ronan Maria Pinto daria suporte a novas investigações sobre o assassinato do prefeito de Santo André ainda não entenderam a lógica dos acontecimentos – a lógica de que uma coisa é uma coisa, outra coisa é outra coisa. Ou seja: o esquema aplicado na Petrobras foi inspirado na metodologia de Santo André. O assassinato de Celso Daniel, como comprovou em três investigações a Policia Civil de São Paulo, foi um contratempo do imponderável sem qualquer ramificação no Paço de Santo André.
Meritocracia ideológica
Os estúpidos, os ingênuos e os mal-informados precisam entender que Celso Daniel não foi chamado à coordenação do planejamento da candidatura presidencial de Lula da Silva no final de 2001 apenas porque era um gerenciador público muito acima da média nacional -- provavelmente o petista de maior riqueza intelectual que tenha estado no comando de um Município importante como Santo André. Celso Daniel, como tenho dito e redito, dera largas provas à cúpula petista de que, além de pensador e gerenciador de primeira linha, compreendia perfeitamente os meios que justificavam os fins da companhia política da qual fazia parte.
A expectativa é de que, mais que filhotes específicos da Lava Jato na região, os quais serão muito bem-vindos porque vão recolher muitos bandidos sociais frequentadores assíduos do colunismo social, a Província do Grande ABC venha a ser contemplada com o efeito profilático daquela operação.
Temos escândalos a serem apurados fora das quatro linhas da Operação Lava Jato mas que revelam com precisão o nível de desprezo de agentes públicos e privados aos pressupostos legais. O escândalo do Semasa, que está no Judiciário de Santo André, é clamoroso absurdo. Os corrompedores privados estão fora da lista dos corrompedores públicos. Não existe corrompidos quando os dois lados do balcão pretendem a mesma coisa -- ludibriar as regras do jogo. Aliás, com outras palavras, o juiz Sérgio Moro se expressou assim sobre a Operação Lava Jato, que não distinguiu empreiteiras e executivos da Petrobras, entre outros personagens sinistros.
Escândalos sem apuração
Se a Província do Grande ABC for tomada pelo espírito regenerador da Lava Jato, além de filhotes naturais da mobilização que tem na ponta final o juiz Sérgio Moro contaremos também com muitos agregados. Há pelo menos uma dezena de casos criminais à espera de ações vigorosas das autoridades legais estabelecidas na região.
É claro que nenhum dos casos tem a relevância e a estridência midiática da Operação Lava Jato. Entretanto, investigá-los para valer e levá-los aos tribunais seriam medidas providenciais porque inibiriam o plantio aparentemente sem restrições de novos crimes. Há um sentimento de impunidade no trato do dinheiro público que ajuda a explicar o grau de roubalheira que a República de Curitiba está a desvendar. Os municípios são incubadoras de práticas delitivas que geralmente os políticos disseminam a outras esferas de poder.
O Mensalão e o Petrolão, que, segundo os especialistas, são frutos da mesma semente, foram inspirados em Santo André. A Operação Lava Jato está certa de que Ronan Maria Pinto poderá contribuir fortemente para identificar os precursores do processo. Por isso o empresário está preso há quase 30 dias, enquanto Silvinho Pereira Land Rover, detido no mesmo dia, está em liberdade.
Tudo indica, segundo informações, que Ronan Maria Pinto estaria decidido a prestar informações valiosas aos federais. A declaração do procurador Carlos Fernando de Lima é preocupante ara quem sonharia com delação premiada. Já estão em execução medidas mais restritivas para atenuar o infortúnio carcerário dos acusados, porque são poucas as informações relevantes que restariam para o esquadrinhamento das investigações.
Ronan Maria Pinto é considerado peça aparentemente valiosa no xadrez investigatório. Ele poderia dispor de provas contundentes sobre a participação de gente graduadíssima do PT no núcleo inspirador do Mensalão-Petrolão.
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17/02/2026 MANDACHUVAS E MARIONETES