O empresário Milton Bigucci, milionário que comanda o conglomerado MBigucci, deve estar preocupado, preocupadíssimo, mas segue impune como pessoa jurídica e eventualmente como pessoa física. Está no Estadão de hoje, em manchete de página interna: “Mafia do ISS: pela 1ª vez, empresa é cobrada”. A empresa em questão não é a MBigucci, anunciada há mais de três anos pelo Ministério Público Estadual e pela Controladoria-Geral da Prefeitura de São Paulo como integrante da Máfia do ISS.
A decisão envolve a Trisul, punida pela Justiça que determinou a devolução de dinheiro com multa para a Prefeitura.
Apesar do passado de irregularidades da MBigucci, campeã regional de abusos contra a clientela, segundo o Ministério Público de Consumidor de São Bernardo, os braços da Justiça ainda não a incomodam integralmente. Nem na Capital e muito menos nesta região de três milhões de habitantes que pouco sabem sobre o que se passa nos escaninhos dos podres poderes públicos e privados.
Fosse uma operação semelhante à Lava Jato, o destino do empresário seria outro. E a liberdade de expressão não correria mais riscos de ser solapada com o suporte de um Judiciário pouco atento ao contexto das denúncias deste jornalista que desmascara a conduta nada republicana do ex-presidente do Clube dos Construtores e Incorporadores do Grande ABC, entidade da qual Milton Bigucci foi diplomaticamente convidado a abandonar depois de um quarto de século de mandonismo improdutivo.
A resposta do promotor
O promotor criminal Roberto Bodini, que atua diretamente no caso da Máfia do ISS, respondeu à consulta deste jornalista sobre a demora das investigações. Já são mais de três anos da denúncia de roubalheiras. Reproduzo integralmente a manifestação do promotor do Gedec (Grupo Especial de Delitos Econômicos) para posterior interpretação. Vejam o que ele escreveu:
As investigações sobre os empreendimentos constantes na lista apreendida no computador do auditor fiscal (ex) Luís Alexandre Cardoso de Magalhães estão a cargo da Polícia Civil (4ª DPPC). Pelo que tenho conhecimento, mais de 200 (duzentos) inquéritos foram instaurados. Com o Gedec permaneceram as investigações em relação às empresas que resolveram colaborar e assumir o pagamento de propina. Por fim, explicito que o Gedec se trata de um grupo de atuação especial, não havendo, ao contrário de outras operações em curso no nosso país, estrutura capaz de suportar mais de 500 investigações sobre toda a gama de corrupção que assolou a Secretaria de Finanças da Prefeitura de São Paulo. Infelizmente... Grato.
Bandidos sociais à solta
A breve manifestação do promotor criminal me permite a seguinte conclusão: os bandidos sociais que integram a Máfia do ISS provavelmente jamais conhecerão os rigores das leis e estarão muito distantes de desfechos que abateram criminosos na Operação Lava Jato simplesmente porque falta sobretudo ao Ministério Público Estadual – o que não é novidade, porque seus próprios representantes já revelaram os problemas – infraestrutura de recursos humanos e também materiais para uma atuação mais incisiva e consagradora.
Quem eventualmente tenha dúvida sobre os limites funcionais do Ministério Público do Estado de São Paulo no combate aos crimes de colarinho branco, entre tantos, deveria ler alguns trechos da entrevista de Eloisa Arruda, há 31 anos promotora e procuradora da Justiça. Ela foi candidata ao comando do MP no Estado de São Paulo nas últimas eleições. Também foi secretária da Justiça e da Defesa da Cidadania no governo Geraldo Alckmin.
Em entrevista ao site Consultor Jurídico, a representante do MP de São Paulo disse textualmente: “Embora tenha havido a inauguração de algumas sedes no Interior do Estado, ainda estamos longe – muito longe mesmo – de um padrão que possa ser considerado razoável, do ponto de vista administrativo, para servir bem a população, destinatária primeira de nossos serviços. Persistem problemas estruturais de crescimento administrativo e de pessoal. O Ministério Público ainda não conta com pessoal de apoio necessário à consecução de suas frentes de trabalho, e suas estruturas não estão aparelhadas da forma adequada. Há urgência na profissionalização de sua gestão” – afirmou.
Gianpaolo Smanio, concorrente ao comando do MP escolhido pelo governador Geraldo Alckmin, também vocalizou, em entrevista ao Consultor Jurídico, a situação funcional dessa instância de poder indispensável ao processamento da Justiça no sentido mais amplo da expressão. Vejam o que ele disse antes das eleições ao MP: “A estrutura existente hoje dá conta do trabalho, mas em todas as promotorias há sobrecarga. É preciso criar condições de melhorias estruturais e física para que essas demandas possam ser atendidas de maneira eficiente. (...) Pode ocorrer de faltar computador e outros materiais, por isso insisto numa gestão mais profissional para conseguir atender essa demanda toda com rapidez. (...) Precisamos racionalizar os gastos e utilizar nosso orçamento conforme as possibilidades. Hoje temos uma conquista importante: a participação no fundo de emolumentos, que nos permitirá fazer investimentos de modernização já em 2016. Então é possível promover melhorias dentro da atual previsão orçamentária. (...) Precisamos de uma legislação que possa combater melhor a impunidade, sobretudo em crimes mais graves, de colarinho branco. Precisamos de uma ação de perdimento de bens, de extinção de domínio, para aqueles que enriqueceram ilicitamente percam tudo que ganharam com condutas ilícitas. Precisamos também criminalizar o enriquecimento ilícito e debater o instituto da prescrição. Pouquíssimos países adotam hoje a prescrição retroativa, como o Brasil”—afirmou o titular do Ministério Público no Estado de São Paulo.
Experiência dolorosa
Por conta de todas as dificuldades operacionais do Ministério Público Paulista, minha experiência como jornalista é desastrosa numa relação que deveria ser de cooperação contínua. Há uma série de análises-denúncias que encaminhei ao MP da região e os resultados são sofríveis. Escândalos envolvendo Milton Bigucci e outros agentes econômicos, além de gestores públicos, não avançaram nas investigações do MP, e quanto o conseguiram os resultados afrontaram o bom senso e as provas – como é o caso do Marco Zero da Vergonha, empreendimento imobiliário construído pela MBigucci em terreno subtraído do patrimônio da população de São Bernardo durante um leilão público fraudulento, comprovado inclusive por especialistas do ramo.
Na medida em que essa peça importantíssima do tabuleiro de Justiça funciona com as adversidades expostas por seus próprios representantes, um jornalista que não abre mão de informar com responsabilidade social fica exposto, como tenho ficado, à sanha autoritária e opressiva de um milionário cuja ficha corrida em matéria de ética e moralidade como condutor de um conglomerado empresarial está distante dos padrões mínimos que a Operação Lava Jato, por exemplo, tem desenhado de forma extraordinariamente pedagógica.
Máfias regionais
A Máfia do ISS não está restrita à Capital do Estado. Onde o mercado imobiliário tem alguma importância – e na Província do Grande ABC tem bastante – há mais que vestígios, há provas fartas à comprovação de irregularidades.
Como, aliás, ficou mais que evidente no escândalo do Semasa, cujo desfecho se tornou uma piada de mau gosto porque, vejam o absurdo, os corruptos do outro lado do balcão, os empresários gulosos como aqueles que atuam na Capital, escaparam à denúncia do Ministério Público. Escaparam mesmo, apesar de um dos denunciantes, Calixto Antônio Júnior, ter declarado publicamente que Milton Bigucci, entre outros, atuaram diretamente na construção daquela teia de maracutaias.
Fossemos uma sociedade civil de verdade, os vários escândalos apontados neste espaço teriam sido motivos suficientes para uma mobilização institucional em busca do fortalecimento operacional do Ministério Público Estadual na região. Mas quem disse que existe massa crítica de entidades sociais, econômicas, públicas e sindicais interessadas em acabar com a farra do boi em que se transformou essa Província esquecida nos arredores da Capital? Precisamos há muito tempo de uma Lava Jato, mas por enquanto o que temos mesmo é uma imensa omissão coletiva, que custa caro ao conjunto da sociedade e também a quem ousa contrapor com a única ferramenta de cidadania de que dispõe – a liberdade de expressão sob a mira de Milton Bigucci e de tantos outros contraventores sociais.
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17/02/2026 MANDACHUVAS E MARIONETES