Sociedade

Vagabundos sociais não passam
de vassalos dos bandidos sociais

DANIEL LIMA - 14/06/2016

Entre as muitas marcas do léxico deste jornalista estão “bandidos sociais” e “vagabundos sociais”. Tenho utilizado mais a primeira expressão do que a segunda por conta das circunstâncias. Ou melhor dizendo: por conta da realidade que nos assalta. Há quem imagine que sejam a mesma coisa, da mesma tipologia sociológica, mas não são. Vou tentar explicar didaticamente o que está por trás de bandidos sociais e de vagabundos sociais para que os leitores possam identificá-los sem maiores esforços.

Juro que até começar a dedilhar essas letras não havia pensado em associar e também dissociar “bandidos sociais” de “vagabundos sociais”, embora, convenhamos, as expressões sejam em muitos pontos resultado do mesmo parto de sucateamento da ética e da moralidade públicas. Por conta disso, alguns covardes pretendem calar este jornalista ao contarem inclusive com o suporte de gente que nem sempre entende de liberdade de expressão.

Diria sem medo de errar que é barbada termos bandidos sociais rodeados de vagabundos sociais. Uma coisa imunda chama a outra e vira aquele lamaçal.

Tipologias diferentes

Há três tipologias básicas de bandidos sociais. Vou tentar explicá-las com brevidade.

a) Há bandidos sociais que não escondem que o são e fazem questão que todos os agrupamentos de seus interesses saibam, porque assim eles levam uma senhora vantagem em todo tipo de relacionamento, sobretudo econômico. Haverá sempre do outro lado do balcão quem já esteja predisposto a tomar na cabeça. Bandidos sociais explícitos são um adversário indigesto a interlocutores que lutam apenas para reduzir o tamanho do prejuízo quando enfrentamentos se tornam inevitáveis.

b) Há bandidos sociais bem dissimulados agem com a naturalidade de quem participa de relações republicanas. Eles têm uma linguagem apropriadamente diplomática, embora não deixem de exalar nos olhos uma frieza que manda recados amedrontadores a quem ousa contrariar suas vontades. Esses bandidos sociais são os mais contundentes da praça. Constroem diálogos importantes com gente da sociedade desorganizada. Transmitem a imagem pública de que são mais competentes que espertos.

c) Há bandidos sociais que se traem e causam estragos à classe dos assemelhados porque exageram na dose. São espécies de travestis que, por se excederem em suposta feminilidade, entregam a rapadura da falsidade. Os bandidos sociais que propagam aos quatro ventos generosidades filantrópicas, por exemplo, são legítimos seguidores do pressuposto da pilantragem internacional de parecer o que não são e ser o que não parecem.

Tipologia única

Quanto aos vagabundos sociais, seria exagero distingui-lo em algumas categorias. Eles são sempre os mesmos, deliberadamente vagabundos sociais. Atuam normalmente nas proximidades dos bandidos sociais, a quem recorrem direta ou indiretamente para se tornarem importantes como coadjuvantes.

Vagabundos sociais não têm competência e vocação à ribalta, embora não lhes faltem ambições e tentativas de dar o golpe do baú.

Os vagabundos sociais fazem jus à expressão porque renegam a própria possibilidade de galgar a escada de mobilidade malandra em forma de bandidos sociais. Ante o risco de dar um salto em falso para atingir um novo patamar de embuste social, preferem mesmo continuar no papel que exercem. Eles saem em defesa dos bandidos sociais como caçadores de leopardos na selva. São tão vassalos que fazem questão de comunicar aos bandidos sociais que agiram para protegê-los dos insensatos que ousam lhes atacar.

A identificação dos vagabundos sociais não é tarefa para investigadores premiados. Basta observar o quanto se omitem em situações que exigem exposição de pensamento. Geralmente ficam na moita e se agrupam sob um código de desonra inabalável: não viram nada, não sabem de nada, não querem se meter em encrenca; coisas assim.

A sociedade é um território que os vagabundos sociais manipulam com o politicamente correto em público. Parecem inabalavelmente intocáveis. Passam-se, até, em vários casos, como independentes. Nem poderia ser diferentes. A revelação de seus instintos os colocaria em desgraça porque, aqueles que lhe são cópias bem acabadas, se sentiriam traídos pela incompetência de representação de uma farsa comportamental que requer certo talento e absolutamente nada de caráter.

Mais vagabundos

Sem dúvidas há muito mais vagabundos sociais que bandidos sociais. A hierarquia informal assim o estabelece. A meritocracia, no pior sentido do verbete, é a consagração dos mais competentes também na arte de transformar a sociedade num mero detalhe dos objetivos traçados. Bandidos sociais e vagabundos sociais sabem os limites que os separam. Os vagabundos sociais querem mesmo é sobreviver na zona cinzenta de relacionamentos pautados pelo cinismo do tomaládacá. Os bandidos sociais não abrem mão das prerrogativas de determinar a manutenção de leis não escritas, porque ganharam vida própria nos escaninhos dos podres poderes públicos e privados da Província.

Vagabundos sociais e bandidos sociais imaginam, por exemplo, que todo jornalista é vaca de presépio ou acovardam diante de estocadas maliciosamente orquestradas em instâncias ao alcance principalmente dos milionários.



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