Faça chuva ou faça sol, lá está ele, esperto, ativo, educado, pronto para mais uma arrancada em direção ao ganha-pão planejado para o dia. Seu corpo forte de cinquentão flutua cuidadosamente entre os veículos. Tem fôlego suficiente para dar conta do potencial de demanda precária que se apresenta rigorosamente cronometrada. O ritual repetido exaustivamente ao longo do dia já virou reflexo condicionado. É provável até que ele saiba quantas passadas tem a dar toda vez que o verde substitui o vermelho que, por sua vez, tomou o lugar do amarelo. Calcular o tempo da operação é decisivo para que não se veja o prejuízo do produto à venda ganhar velocidade e desaparecer no horizonte.
Ainda não tive a curiosidade — que barbaridade para um jornalista, não é verdade? — de perguntar-lhe de onde veio, onde esteve no passado recente, no passado mais remoto. Mas, prometo, não vou perder a próxima oportunidade se o farol não atrapalhar. Pode ser amanhã, porque faz parte do caminho da roça diário dirigir meu Corsa pela Avenida Pereira Barreto para transpor a distância que separa minha casa em São Bernardo da redação em Santo André.
São perto de 20 minutos de trajeto. Sempre o mesmo confortável e rápido trajeto. Também nesse ponto estou desprezando a diversidade cotidiana que deve marcar a vida de quem tem obrigação de informar. Na medida do possível vou quebrar a rotina dessa logística tecnicamente produtiva, mas intelectualmente castradora. Vou me enfiar por algumas ruas e avenidas diferentes. Já pensei nisso, para dizer a verdade, depois de ler um artigo interessante. O problema é que tenho medo do que pode vir. Segurança, como se sabe, é uma grande preocupação de quem, embora não tenha lá essas riquezas materiais, já sofreu tentativa de sequestro e ameaça de virar presa da bandidagem encarcerada.
Movimentando-se entre os veículos encontro diariamente esse nosso personagem de carne e osso cuja gênese ocupacional é a mesma dos adolescentes-placa — os jovens que, silentes, inertes, metem-se entre postes de luz e placas de madeira como suporte de propaganda de ofertas de imóveis. A função desse cinquentão é mais arriscada, mas provavelmente muito menos monótona. Certamente não há nada mais destrutivo para a inquietude juvenil do que viver literalmente pressionado entre o concreto e a madeira, escondido entre ofertas de casas e apartamentos tão complicados de vender num País onde o capitalismo é apenas força de expressão, porque os financiamentos para dar vida aos pequenos negócios são tão caros quanto restritivos.
Driblar os veículos que se movem quando o farol vermelho cede lugar ao verde e, ao mesmo tempo, retirar da haste do retrovisor externo a oferta de guloseimas que o motorista e eventualmente os acompanhantes desprezaram — ou efetuar a cobrança muitas vezes com troco da compra fechada — é muito mais emocionante para quem quer ver o dia se esgotar na esperança de que o amanhã lhe seja eventualmente diferente.
O discreto vendedor de balas que vejo todos os dias na rotatória da Avenida Pereira Barreto com a Avenida Higienópolis, no território de Santo André, é um homem provavelmente saído de alguma fábrica que se escafedeu, faliu ou enxugou a mão-de-obra no Grande ABC. Me dei conta da gravidade socioeconômica dessa mão-de-obra excessivamente disponível no mapa regional quando ouvi, em conversa informal, um dirigente da Finep, organismo federal que financia investimentos de cunho tecnológico. Ele veio do Rio de Janeiro para participar há três semanas da abertura de um seminário promovido pela Agência de Desenvolvimento Econômico. Durante o coquetel, se mostrou desapontado com o que observou ao passar por Diadema. Viu homens fortes, egressos de fábricas, desconfiava ele, vendendo balas nos faróis. Quando lhe contei do rombo do PIB industrial no Grande ABC no governo Fernando Henrique Cardoso, ele franziu a testa e se declarou favorável à busca de alternativas econômicas para a região.
Como se observa, o vendedor de guloseimas da Avenida Pereira Barreto faz parte de uma categoria que se multiplica como coelhos. Que se cuide, portanto, porque o mercado das esquinas de maior tráfego de veículos está cada vez mais dinâmico e versátil. Descobriu-se que já não basta ter produtos para sensibilizar os motoristas. E muito menos munir-se de baldes, pano úmido e um olhar suplicante por uma rapidinha limpeza no pára-brisas, segmento prevalecentemente de jovens que também prolifera. Há nova modalidade na praça — nas esquinas, para ficar mais apropriado.
Da mesma forma que empreendimentos vitoriosos ou que a todo custo pretendem fugir da mortalidade buscam inventividade para enfrentar a escassez de consumo, os donos das esquinas mergulham em táticas de sobrevivência. É preciso criar referenciais novos, acreditam eles, sem que jamais tenham tido acesso a qualquer literatura de especialistas em administração. E mesmo que recorressem, ficariam órfãos porque o mercado editorial só enxerga o mundo formal, especialmente das grandes corporações mantidas em muitos casos com dinheiro fácil de fundos de pensão nem sempre conduzidos com os pés e a cabeça atuariais, isto é, de reposição dos investimentos em forma de pagamento de aposentadorias dignas.
O instinto de sobrevivência dos informais das esquinas barulhentas da vida fala mais alto. Agora os pontos mais nobres costumam ficar recheados também de meninos malabaristas. Parecem aprendizes saídos de cursos intensivos comandados por algum artista circense provavelmente desempregado, porque, como se sabe, a maré não está nem para peixe nem para manipuladores — exceto os metafóricos, especializados em atender à demanda de governos e entidades malversadores éticos.
Os meninos pretensamente malabaristas vestem-se a caráter. Pintam os rostos, usam roupas largas, revelam-se sempre alegres. Ziguezagueiam entre os veículos quando o farol fecha. De vez em quando são colhidos no contrapé quando o farol já fechou porque não têm a experiência do cinquentão da Pereira Barreto e de tantas outras esquinas povoadas de ex-trabalhadores metalúrgicos. São mais ágeis, é verdade, e isso lhes garante sobreviver em movimentos menos metódicos entre aceleradores indomáveis e rodas traiçoeiras de quem não tem tempo a perder nas esquinas da vida.
Os meninos artistas dos semáforos mais concorridos arriscam, portanto, passadas menos previsíveis que o cinquentão da Pereira Barreto. Lançam-se com mais entusiasmo em direção aos motoristas. Mas o que mais os diferencia do cinquentão da Pereira Barreto e de tantos outros pontos é o semblante. Eles não transmitem a sensação de que a recompensa financeira pela rápida exibição circense é questão de vida ou morte para forrar o estômago próprio e de familiares. Parecem esses meninos prestidigitadores muito mais que pedintes heterodoxos. Eles podem ser confundidos pelos incautos como mensageiros despretensiosos da arte circense que se esvai com o desaparecimento contínuo das grandes companhias.
O espetáculo que apresentam seria monótono se o farol não se abrisse em pouco tempo, porque eles repetem a mesmice de lançar pequenas bolas coloridas de borracha de uma mão à outra. Alguns têm mais habilidades e atiram até cinco bolinhas sequenciais, em arcos sincrônicos, sem deixar que o asfalto seja o limite do erro. Outros são mais modestos. Preferem arremessar apenas três. Temem o vexame do saltitar das bolas no asfalto e de terem de mergulhar em busca de objetos erráticos. Expostos diariamente nos mesmos lugares, aperfeiçoam a arte de piruetas coloridas em troca de trocados. Sim, eles vendem uma arte tosca, quase primária, é verdade. Mas uma arte que provavelmente os retira da traquinagem sempre à espreita, em forma de sedução ao mercado mais rentável e irrecuperável das drogas.
Do jeito que vai indo nossa economia, de primeira, segunda, terceira e agora também de quarta classe, vou sugerir ao cinquentão da Pereira Barreto, aos lavadores de pára-brisas e aos meninos-artistas que cuidem do futuro que parece já estar consolidado no presente: criem suas entidades de classe, briguem pelos direitos legais de ocupação dos metros quadrados, exijam segurança para manter seus negócios, peçam do Estado bônus de insalubridade para os dias de chuva, de frio ou de muito calor. Sim, cobrem do Estado pela incompetência de não ser capaz de organizar-se como indutor da mobilidade social. E aproveitem também para cobrar da sociedade, principalmente das representações de classe que só representam a si mesmas, um mínimo de responsabilidade coletiva para mudar essa tragédia mais que anunciada.
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12/02/2026 REDES SOCIAIS BEM AO GOSTO DOS PODEROSOS