Qualquer debate que se coloque à mesa sobre a criação de universidade pública federal ou estadual no Grande ABC precisa de pelo menos dois requisitos básicos para não flutuar no espaço da idealização pura e simples, que, como se sabe, comporta as mais ricas ponderações mas não garante o almoço e muito menos o jantar. Primeiro, que se comprove a disponibilidade prática de recursos orçamentários. Segundo, que se apresente projeto curricular e pedagógico que contemple a realidade socioeconômica da região e que esteja conectado com a política educacional aplicada pelo Estado ou pela União.
Estas são, portanto, condições inquestionáveis para sustentar qualquer formulação teórica. A importância econômica e social de centros universitários públicos à pesquisa e desenvolvimento tecnológico é tão evidente que, embora tenha mesmo de ser ressaltada, não pode se transformar em carro-chefe de pregação pró-universidade.
O Grande ABC, território sem representatividade política mesmo agora com o presidente da República egresso de São Bernardo, chegou tarde na disputa por nacos orçamentários em defesa de uma universidade pública federal. Da mesma forma no caso do universo das universidades públicas estaduais. Simplesmente porque o governo está quebrado. Gasta cada vez menos com atividades-fim para alimentar principalmente a burocracia engajadíssima em defesa de seus direitos.
Isso quer dizer que devemos entregar os pontos e esquecer o Ensino Superior gratuito? Não é bem assim, embora, como mostramos ainda outro dia neste espaço, apenas 3,4% do total de vagas de universidades públicas do Brasil sejam ocupadas pelos 20% mais pobres.
De fato, temos decisões a tomar para que os critérios de prioridades do Grande ABC não sejam subvertidos. Que se instale o debate das universidades públicas no campo de diagnóstico macronacional associado às necessidades regionais. Qualquer proposta que se faça ou que se alardeie sem transferir para o campo da materialidade os sonhos acalentados pelo inconformismo não passará de jogo de cena. É algo como pretender produzir um jornal diário com base no potencial de consumo da população e desprezar os meios de financiamento. Que qualquer comunidade merece um veículo de comunicação forte e independente, todos sabem. Mas daí à consecução, a diferença é enorme.
Ou seja: não faltam razões para o preenchimento de espaços laudatórios em defesa de universidade pública federal no Grande ABC. Tudo, entretanto, não passa de carta de intenções. Como mostramos em artigo anterior, o dinheiro é cada vez mais curto e o sucateamento cada vez mais pronunciado na rede federal de educação. Isso posto, a validade de argumentos baseados nos efeitos sociais, econômicos e culturais de municípios que ganharam a corrida pelo sediamento de unidades públicas de ensino universitário tem o mesmo sentido de, ao assistir ao videotape de um jogo em que o time do coração é derrotado, acreditar que o placar vai ser diferente.
Para que se compreenda a analogia entre esse assunto e outro, sobre o qual recentemente escrevemos, e também para que se mostre que em casa de ferreiro o espeto não é de pau, defendemos, como se sabe, a constituição de um fundo de recursos financeiros para o desenvolvimento de ações públicas de infra-estrutura econômica e social nas regiões metropolitanos.
Com que dinheiro? Simples: com uma reforma na distribuição do ICMS, reservando-se parte específica e de acordo com cada uma das áreas beneficiadas para aplicação segundo as prioridades aprovadas por um conjunto de representantes desses mesmos municípios. Ou seja: a fonte de financiamento estaria assegurada porque não acrescentaria alíquotas ao que já se conta hoje.
A grande diferença é que parte dos recursos já arrecadados seria investida segundo o viés metropolitano, que, como se sabe, são áreas dolorosamente discriminadas na correlação de recursos gerados e recursos aplicados. No caso da tão desejada universidade pública do Grande ABC, federal ou estadual, não há mecanismo financiador à vista, sob pena de desfalcar outras atividades.
O que tem a fazer o deputado federal Luizinho Carlos da Silva e o deputado estadual Vanderlei Siraque, a quem enviamos cópias do Capital Social Online de 21 de novembro, é apresentar muito mais que justificativas em defesa da universidade pública do Grande ABC, cavalo de batalha que resolveram colocar na raia de uma regionalidade interrompida. Tanto Siraque quanto Luizinho precisam fundamentar pedagogicamente a proposta e indicar sem mandraquismos de onde viriam os recursos de manutenção. Se forem suficientemente convincentes, acreditem: vão contar com o apoio de muita gente importante da região.
Para começo de conversa, e para que não se façam tratados que impressionem incautos, quanto custaria uma universidade pública no Grande ABC que comportasse, digamos, 10 mil estudantes? Qual seria, afinal, o orçamento para garantir estudo gratuito para 10 mil jovens, a maioria dos quais, como se sabe, ocupante do padrão social dos mais ricos? Quem pagaria essa conta se a conta das universidades públicas já estourou há muito tempo? É isso, basicamente isso, que deve servir como ponto de partida para qualquer intervenção. E é isso, basicamente isso, que tem faltado aos defensores da proposta, alguns sinceramente, outros oportunisticamente.
Negar a importância de uma instituição pública de ensino superior gratuita no Grande ABC seria estupidez, mesmo com as frondosas imperfeições que o sistema acalenta e consolida em parceria com o conservadorismo dos governantes de plantão e o corporativismo dos beneficiados. Entretanto, além de subverter a lógica de prioridades de uma terra arrasada que carece de planejamento e aportes financeiros para recuperar-se economicamente, o reducionismo com que os deputados em questão têm-se dedicado ao tema ultrapassa o limite do descuido ou da imprecisão para penetrar no redemoinho do oportunismo corporativo e eleitoral.
A defesa do Ensino Superior público no Grande ABC ganha a forma dos discursos voluntariosos que caracterizam, por exemplo, a recuperação do salário mínimo, alçando os valores à estratosfera. Como não existe mágica em economia — e tudo gira em torno de recursos orçamentários que decorrem do comportamento do PIB –, os desvarios não combinam com as enormes dificuldades de caixas públicos vorazes na arrecadação de impostos mas extraordinariamente perdulários em gastos.
Como se vê, precisamos pautar questões mais factíveis para mudar o quadro regional. Estamos cansados de engabelação. Nossa prioridade é um Plano Marshall para a recuperação da economia do Grande ABC destruída pelo governo Fernando Henrique Cardoso.
A definição de prioridades garante que já temos estudantes demais portadores de diplomas universitários, mas desempregados ou subempregados. Se a economia regional continuar patinando, nossos melhores quadros universitários e empresariais manterão a rota da deserção. Estaremos, portanto e inevitavelmente, com a universidade pública gratuita, fornecendo mão-de-obra para os nossos concorrentes em competitividade econômica.
Total de 1125 matérias | Página 1
12/02/2026 REDES SOCIAIS BEM AO GOSTO DOS PODEROSOS