São Bernardo dá mesmo adeus ao projeto de transformar os antigos galpões da Vera Cruz num verdadeiro complexo cinematográfico e passa a ser espécie de Bernowood, ou seja, uma caricatura de Hollywood. O contrato que cede o espaço à Cash Entertainment, assinado no mês passado, confirma a tendência de alugar os estúdios a terceiros. A iniciativa não é nova, pois já havia ocorrido com os filmes Carandiru e Garotas do ABC recentemente, o que deixa a Vera Cruz a anos-luz do projeto de ressuscitar o que já foi conhecido como a autêntica Hollywood brasileira.
O principal articulador da vinda do filme norte-americano The Genesis Code, o ex-secretário municipal Ademir Silvestre, exagera no otimismo de que a Vera Cruz pode estar fazendo o caminho de volta à consagração dos anos 50 a partir deste longa-metragem, que tem na linha de frente ganhadores de Oscar como o ator Andy Garcia e o diretor Hugh Hudson. O que soa perverso, entretanto, é que não foram os amplos (e abandonados) galpões o principal chamariz da empreitada, mas os baixíssimos custos no Brasil. "Uma produção do porte de The Genesis Code, orçado em US$ 22 milhões, custaria o triplo nos Estados Unidos" -- rende-se Cesar Bargo Perez, do departamento de marketing da Cash, sobre o desvalorizado real.
Transformação mundial
Não é um fenômeno só brasileiro. Belos cenários, mão-de-obra-barata e custos mais baixos de alimentação, hospedagem e finalização técnica têm transformado países como Índia, Romênia, Austrália e África do Sul em pólos alternativos de locação para produtores de Hollywood. Um dos Oscars desta temporada, Cold Mountain, não foi rodado nas montanhas da Carolina do Norte, onde a história do filme se passa, mas na Romênia. A produção anuncia que economizou US$ 30 milhões ao fazer as locações em território romeno, que saltou de sete longas-metragens em 2001 para 16 no ano passado, informa a Centruli National al Cinematografiei. A antiga cidade indiana de Bombaim, hoje Mumbai, está sendo chamada de Bollywwod. Mais de 800 filmes são rodados ali todo ano, o dobro de Hollywood.
Por isso, alugar a Vera Cruz não significa exatamente uma mudança de destinação ocupacional dos galpões, que podem ser requisitados de volta em casos como hospedar desabrigados de enchentes, segundo anunciou Ademir Silvestre a respeito da flexibilidade do contrato. A locação renderá R$ 200 mil por mês durante dois anos à Prefeitura de William Dib, proprietária do espaço. Dos US$ 22 milhões orçados para o filme, prevê-se que US$ 14 milhões serão revertidos para o Grande ABC, já que uma das exigências foi contratar serviços e mão-de-obra regional de retaguarda. A Prefeitura preparou um cadastro com 500 fornecedores e calcula que 600 pessoas estarão envolvidas diretamente ou indiretamente na produção. A Cash Entertainment, empresa de Maurício Andriani que representa no Brasil a produtora americana Scorpion, é sediada em São Bernardo, por isso os impostos em torno desse e de outros prometidos oito empreendimentos serão recolhidos na cidade, dentro do modelo bernowoodiano que a Prefeitura formatou. A Scorpion fica em Los Angeles.
Montadora de sonhos?
Como se vê, os históricos estúdios que alavancaram o cinema nacional, sediando 18 longas-metragens entre 1949 e 1954, estão longe da cidade cenográfica idealizada há sete anos em aliança com o governo do Estado de São Paulo para resgatar a Vera Cruz do abandono. Dos R$ 17,7 milhões inicialmente previstos, o Estado pôs R$ 5 milhões a conta-gotas, a Volkswagen mais R$ 500 mil e foi só. Mal saiu do papel o esqueleto do centro cultural e foi para o arquivo morto o projeto inspirado nos estúdios Babelsberg, da Alemanha, pelo qual os dois galpões de 44 mil metros quadrados da Vera Cruz e a área externa sediariam sets de filmagem, laboratório de montagem e efeitos especiais, produções da estatal TV cultura e uma escola-oficina para formar profissionais e montar cenários, no que uma reportagem de capa de LM chamou de Montadora de Sonhos.
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17/02/2026 MANDACHUVAS E MARIONETES