Sociedade

Só para homens
de alma grande

VERA GUAZZELLI - 05/03/2004

Fernando Pessoa afirma em sua obra Mensagem que tudo vale a pena se a alma não é pequena. O esportista Wigand Rodrigues dos Santos não é desses fãs incondicionais das palavras transformadas em versos, mas uma das mais famosas frases do poeta português ajuda a entender a essência desse ex-comunista. Ou melhor, de um subversivo confesso -- como se diria há 50 anos -- que abraçou um ideal, sobreviveu às agruras da própria crença e bateu em retirada estratégica sem deixar de acreditar que a conquista da liberdade ainda é o principal desafio da raça humana.


O velho sonho de mudar o mundo levou Wigand Rodrigues dos Santos ao fanatismo extremo. O homem que aos 20 anos sequer entendia o conceito de classe social mergulhou de corpo e alma nas teorias socialistas e se colocou a  serviço de uma causa que acreditava ser justa, humana e igualitária. Karl Marx era o ídolo e sua obra máxima, o Capital, sua bíblia guardada com carinho na estante de casa. Só que as  imprevisíveis reações do homem diante do poder e do dinheiro colocaram em xeque as  convicções daquele jovem cuja alma acomodou-se, mas continua tão grande quanto há 50 anos.


"Hoje sou capaz de entender que alcancei um nível muito alto de fanatismo" -- resigna-se Wigand, 76 anos completados recentemente e experiência suficiente para fazer autocrítica sem utilizar frases feitas criadas para justificar o que nem sempre tem justificativa. Muito antes de o presidente Lula e o sindicalismo romperem as barreiras do Grande ABC, ele já estava nas portas das fábricas do Rio de Janeiro, onde nasceu, tentando organizar um operariado que já na década de 50, nos primórdios da industrialização do País, começava a viver as nem sempre amistosas relações entre capital e trabalho.


Aula de história


O currículo de Wigand Rodrigues dos Santos vale uma aula de história, apesar de o personagem sempre se colocar na condição de ilustre anônimo. Foram quase uma década de clandestinidade, oito prisões políticas, sessões de tortura e uma fuga espetacular, digna de filmes estilo Missão Impossível. O então prisioneiro era conduzido à Justiça para mais um interrogatório e estava à bordo de uma barca que fazia a travessia Rio-Niterói quando driblou a escolta policial e atirou-se ao mar, movido apenas pelo instinto de sobrevivência, o fôlego apurado de um nadador exímio nascido e criado nas praias do Rio de Janeiro e, claro, o próprio destino.


"Cheguei muito perto da morte" -- suspira, ao recordar a aventura marítima que virou manchete dos jornais e alçou o jovem idealista aos minutos de fama que, dizem, está reservado a todo ser humano. Só que, ao contrário de muitos ativistas políticos e líderes comunitários que usaram a militância como trampolim para a vida pública, Wigand decidiu abandonar tudo e retomar a rotina de trabalhador. Ele era funcionário da CSN (Companhia Siderúrgica Nacional), quando um amigo espanhol o convenceu a desligar-se da produção para engrossar as fileiras do Partido Comunista. O emprego havia sido conseguido por intermédio do pai, um militar de carreira.


A decisão de deixar a militância colocou Wigand diante de um dilema comum enfrentado pelos que costumam acreditar demais em alguém ou algo. Será que valeu a pena? "Valeu, sem dúvida. Mas não passaria por tudo novamente. Você vive o tempo todo no fio da navalha, é  muito sofrimento, além de algumas decepções" -- responde sem titubear. A última observação está endereçada ao líder russo Joseph Stalin e aos crimes políticos cometidos pelo grande símbolo mundial do comunismo em nome da causa.


Longe do Partidão


Wigand Rodrigues dos Santos mudou-se para Santo André no começo dos anos 60 e mora até hoje na esquina da Rua dos Operários, no Bairro Santa Terezinha, no conjunto conhecido como Casas Populares. Ali construiu família, criou o casal de filhos e passou pelo que considera o maior susto de sua vida. Depois de 20 anos longe do Partido Comunista, teve de enfrentar a truculência da ditadura militar. Numa madrugada de 1975 foi arrancado de casa por agentes do DOI Codi -- órgão máximo de repressão do governo -- sob alegação de ligações com a movimentação  política clandestina pós-golpe de 1964.


"É claro que não adiantou negar. Wladimir Herzog e Manoel Fiel Filho tinham acabado de ser assassinados e nesse dia senti mais medo de morrer do que quando pulei da barca" -- lembra ao mencionar o jornalista e o metalúrgico transformados em mártires da repressão. O destino, no entanto, mais uma vez estendeu-lhe a mão. Como trabalhava no Departamento de Esportes da Prefeitura de Santo André, contou com a providencial influência de um superior que era amigo de Erasmo Dias, o linha-dura e temido coronel do Exército, para safar-se do sufoco. Wigand soube mais tarde que a ordem para soltá-lo partiu do próprio Erasmo Dias.


De volta à vida comum e com a democracia em curso, o ex-militante passou a cultuar a paixão pelas massas de forma menos conturbada, mas igualmente apaixonante. Agora era quase tudo pelo futebol. Entre as inúmeras peripécias esportivas, embrenhou-se em campanha pelo restabelecimento da lei do acesso e do descenso no futebol. A causa era bem mais palpável e tinha endereço fixo: o Santo André, time  que carrega no coração e invariavelmente no bolso da camisa, de onde saca com orgulho a carteirinha de sócio-vitalício.


Álbum de paixões


Diferente dos velhos tempos, o álbum de fotos revela quase todos os atos da paixão que não precisa mais ficar reclusa dentro da alma. A imagem da assembléia de fundação do clube de futebol, datada de setembro de 1967, o nome estampado na galeria dos presidentes da agremiação e a campanha de venda de sucata para arrecadar fundos fazem parte de uma história na qual também existe política, mas é bem menos perigosa. "Imagine, vender material velho para pagar o time. Foi um ato de rebeldia que rendeu bem mais barulho do que dinheiro" - lembra bem humorado. O Santo André disputa a primeira divisão do Campeonato Paulista e a Copa do Brasil. Wigand Rodrigues dos Santos também presidiu durante 14 anos o Ouro Verde, um clube do bairro onde mora.


Poder e dinheiro


O esporte e em particular o futebol foram a alternativa encontrada por Wigand Rodrigues dos Santos para manter-se junto ao povo, à gente simples que busca apenas uma vida melhor.  Ele bem que tentou se eleger deputado estadual e vereador, mas não conseguiu. Talvez não esteja predestinado a ganhar dinheiro com a vida pública como tantos outros que militaram no mesmo Partido Comunista e chegaram ao topo.


Era voluntário quando esteve a serviço do partido e somente há dois meses decidiu entrar na Justiça com pedido de indenização por ter sido perseguido político. Para subsidiar o processo, teve de resgatar um prontuário que acreditava fazer parte do passado, mas estava intacto no Departamento Federal de Segurança Pública. Entre os documentos, muitos dos depoimentos sobre a incitação à greve e outras atividades consideradas subversivas à época. "Ainda não vi o ouro de Moscou" -- faz uma brincadeira com a própria vida.


A recordação, no entanto,  emociona e leva o falante Wigand a um breve silêncio, um flash back dolorido. Naquela papelada está a prova de que ele faz parte da história e de que a história é o retrato fiel da ação dos homens. Nesse momento, a pergunta surge instantânea: o poder e o dinheiro modificam os ideais e o pensamento? "Conheci homens idealistas a toda prova e os agradeço por terem me  tirado do analfabetismo político. Mas tenho visto muita gente que se transforma irremediavelmente quando alcança o poder. Creio que falta pouco para que eu tenha uma resposta conclusiva e não muito feliz para essa pergunta" -- cutuca, sem terminar. 


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