Ele mata a fome de casais, famílias e mesmo de boêmios que circulam pelas noites do Grande ABC. Há 34 anos prepara sanduíches respeitáveis e petiscos inesquecíveis, enquanto testemunha as histórias de Santo André e região. Paulo Henrique Sales, mais conhecido por Paulão, acompanha há mais de 40 anos as transformações da cidade atrás de seu balcão. Foi diante da chapa quente que conheceu prefeitos, empresários e notívagos em geral que sempre aportam em seu bar-lanchonete para uma boa conversa.
A jornada de trabalho de Paulo Sales começa às 18h e termina entre 2h e 4h do dia seguinte. Como trabalha com alimentos frescos, muitas vezes pula da cama às 8h para ir à feira escolher pessoalmente os ingredientes de seus supersanduíches, as estrelas principais do bar Paulo Lanches, na Rua das Monções. O capricho nos pratos é o segredo da longevidade do negócio. “Tem que fazer o lanche com amor, do jeito que era feita a comida do Interior” -- conta o comerciante, que nasceu na paulistana Vila Carioca, divisa com São Caetano, e mudou-se com a família para Andradas, sul de Minas Gerias. Mas nem mesmo nos rincões mineiros a comida é tão tradicional quanto o tutu que sua mãe, dona Umbelina, preparava. “Outro dia fui para lá e me serviram um torresmo de saquinho, daqueles vendidos em supermercado” -- afirma Paulo Sales, entre indignado e saudoso.
Foi nas idas e vindas da vida que a família Sales se transferiu de mala e cuia em 1961 para Santo André, Município do coração de Paulão. “A cidade era linda, mas mudou muito. Vi quando o supermercado Jumbo chegou e acabou com as mercearias e empórios” -- lembra o comerciante. A Santo André anterior à era dos shopping centers se reunia nos armazéns, como no que Paulo Sales começou a trabalhar aos 11 anos, no início da década de 60, na esquina das ruas Figueiras e Monções, onde hoje é a Panificadora Plaza. O estabelecimento era do tio, Adolfo Magalhães, que passou posteriormente para Hilário Bosisio, um dos mais conhecidos cartolas do Esporte Clube Santo André.
Cardeais do clube
Como não poderia deixar de ser, a mercearia onde Paulo Sales trabalhava era o local de reunião dos cardeais do clube, que chegou a ter a sede na parte de cima do sobrado onde funcionava o armazém. Entre secos e molhados, o garoto presenciava as assembléias que reuniam personagens como Nelson Mazzucatto, Anderson Giovanetti e Jairo Livolis, atual presidente do Santo André, além do folclórico Zé Repique, torcedor tradicional do clube. Queda de técnicos, mudanças na escalação da equipe, táticas e esquemas de jogo eram discutidos no local.
A participação na vida do clube não acontecia só nas conversas. Paulo Sales costumava ir aos jogos não para assistir, mas para gerenciar a lanchonete do estádio e preparar cachorros-quentes aos famintos torcedores. Além de futebol, Paulão teve contato com o samba por meio de uma flanela, na porta da Isan (Indústria Sul Americana de Metais), atual Eluma, onde dos 14 aos 15 anos engraxou sapatos dos operários. “O samba eu tirava no pano, enquanto lustrava os sapatos” -- lembra. Em 1970, a cartolagem do Santo André passou a matar a sede provocada pelos acirrados debates no bar que o pai de Paulo abriu um quarteirão acima, na Rua das Monções.
Lanches atraentes
Se já era conhecido pelos diretores e torcedores do clube, o bar passou a ganhar outros clientes a partir do momento em que o comerciante decidiu servir lanches. Paulo Sales resolveu fazer dos sanduíches o grande diferencial para ampliar seu público. A idéia surgiu a partir de um X-salada servido para o pessoal que jogava sinuca na hora do almoço. Para fazer as vezes de uma refeição, Paulo caprichou na receita, servida até hoje no estabelecimento. Juntou um substancial hambúrguer de 150 gramas, pão fresco, queijo prato em doses generosas, alface e azeitona verde, num total de aproximadamente 620 gramas de um lanche para ninguém botar defeito.
Outro diferencial que passou a chamar a atenção dos clientes foram os petiscos, distribuídos em vistosas travessas espalhadas por cima do balcão, no melhor estilo das tapas, o tradicional tira-gosto dos bares espanhóis. Quem vê, pensa que Paulo Sales simplesmente copiou o estilo dos botecos madrilenhos, mas tudo não passou de outra estratégia comercial. “Se vendesse coxinha e pastel, ninguém comeria meus lanches, o carro-chefe do negócio. Por isso decidi servir as biribas, que eram mais leves” -- conta. Os petiscos reúnem frios, queijos, tomates secos, azeitonas e picles, agregados em pequenos bocados espetados em palitos.
Transformações da cidade
Enquanto fazia lanches e biribas, Paulo Sales assistia às transformações da cidade. “No Bairro Jardim era proibido construir edifícios. Hoje sobe um prédio atrás do outro” -- conta o comerciante, que morre de saudades de alguns restaurantes que frequentava nos bons tempos. “Nunca vou me esquecer do camarão à paulista servido na Cantina Paris, na Avenida Dom Pedro II” -- recorda Paulão, que além dos amantes do futebol passou também a atrair outros esportistas para seus quitutes. Para isso, contou com a ajuda do amigo José Carlos Brunoro, jogador e técnico do então famoso vôlei da Pirelli e da seleção brasileira.
Astros como William e Douglas passaram a saborear os avantajados pratos do Paulo Lanches para compensar as calorias perdidas em treinos e jogos disputados até o último ponto. Mesmo a jovem geração de atletas marca presença no bar atualmente, como Sandro Dias, o Mineirinho, campeão mundial de skate, que desliza para as mesas do bar entre um torneio e outro.
Políticos da cidade
Entre os adeptos dos lanches e biribas também estão políticos como o ex-deputado federal Duílio Pisaneschi, os vereadores Carlos Ferreira, Fernando Gomes e Márcio Pereira e os ex-prefeitos Newton Brandão e Celso Daniel, que mesmo de madrugada voltava para casa sozinho. “Sempre pensava: como o Celso, com a importância que tinha, corria esse tipo de risco?” -- lembra o comerciante, que toca o negócio com cinco funcionários de confiança. Até mesmo artistas frequentam o bar, levados pelo empresário Sérgio De Nadai, que eventualmente faz papel de produtor teatral e carrega o elenco para conhecer os lanches de Paulo Sales.
Os sanduíches já foram tema de reportagens de jornais e revistas da região e da Capital por causa do tamanho família. Um americano dá para quatro pessoas, pois é servido em uma baguete de 32 centímetros com cerca de 350 gramas de presunto cozido, igual quantia de queijo prato, alface americana, tomate, azeitonas chilenas e três ovos fritos, tudo ao preço de R$ 25. Outra atração é o filé mignon com queijo, vendido a R$ 31. “Em cada lanche uso um pedaço de filé entre 300 e 400 gramas que não peso, mas sinto na mão se é suficiente, além de igual quantia de queijo” -- dá a receita Paulo Sales, que enfatiza o uso de manteiga ao fazer os lanches na chapa.
Preparo próprio
O comerciante faz questão de preparar os sanduíches e chega a ficar melindrado se alguém pede rapidez. “Explico que leva um pouco de tempo porque não abro mão de fazer com carinho e qualidade aquilo que ele vai comer” -- ressalta Paulão, que não se preocupa com os preços dos lanches. “Se popularizar, não consigo pagar os funcionários” -- explica.
Os sanduíches artesanais e os petiscos vistosos estão por trás da longevidade do negócio de Paulo Sales. Com mais de 30 anos de funcionamento, o estabelecimento é exemplo de conquista de público fiel. Há oito anos as mesas de sinuca deixaram o local para aumentar a área de consumação e também abrir espaço à frequência de famílias e casais. O ar de boteco e a boa comida fazem a combinação que garante o público cativo. “No Bairro Jardim, abre bar e restaurante a toda hora. A grande maioria funciona por dois ou três anos e fecha. Para ser diferente, tem que fazer as coisas com amor” -- garante o comerciante.
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17/02/2026 MANDACHUVAS E MARIONETES