A linha da vida do ilustrador Luiz Carlos Fernandes já estava traçada quando, aos 11 anos, começou a entregar jornais em Avaré, Interior do Estado, onde nasceu. Fotos, histórias em quadrinhos e principalmente as caricaturas chamavam sua atenção. Logo depois, já como jornaleiro, o adolescente teve mais tempo para arriscar os primeiros rabiscos. “Fazia caricatura do pessoal na praça” -- conta o hoje ilustrador conhecido internacionalmente e colecionador de prêmios em salões de humor no Brasil e Exterior.
Fernandes trabalha e mora no Grande ABC e se destaca cada vez mais pelo traço fino dos desenhos harmônicos e precisos. Há 23 anos diante da prancheta e com lápis na mão atuando como profissional, Fernandes conquistou seu mais recente prêmio em março no 15º Salão Carioca de Humor. A caricatura da escritora Rachel de Queiroz rendeu-lhe o Prêmio Catálogo. No júri, feras da ilustração e da caricatura, como Jaguar, Chico Caruso, Nani e Caulos.
Foi a primeira vez que Fernandes participou do salão, que teve mais de 3,2 mil trabalhos inscritos e apenas 60 selecionados. Essa parece ser uma rotina do ilustrador, que trabalha no Diário do Grande ABC.
Interesse por mostra
Foi somente em 2001 que despertou no artista o interesse em participar de uma mostra, o Salão de Humor de Piracicaba, considerado o terceiro maior evento do gênero no mundo. Fernandes faturou o primeiro lugar com a caricatura do escritor argentino Jorge Luiz Borges. De lá para cá, foram outros 15 prêmios. Aos 44 anos, Fernandes é conhecido desde os salões gaúchos até o de Teresina, no Piauí, passando pelas mostras de Ribeirão Preto, no Interior de São Paulo, Foz do Iguaçu, no Paraná, e Montes Claros e Caratinga, em Minas Gerais.
No Exterior, começou a se arriscar somente no ano passado, ao ser selecionado para o Porto Cartoon World Festival, em Portugal. Este ano já enviou trabalhos para salões na Itália, Turquia, França e Rússia, além de participar novamente da mostra da cidade do Porto. “Não mando trabalho só para participar. É para concorrer mesmo. Por isso procuro fazer bons desenhos” -- enfatiza. A notoriedade obtida nos salões já garantiu ao ilustrador sua primeira mostra individual, realizada em março último na Galeria de Humor do Centro Universitário Univates, em Lageado, Rio Grande do Sul.
Faz-tudo
A decolagem do ilustrador foi na pequena Avaré, onde conseguiu publicar seu primeiro trabalho na edição de aniversário da cidade do jornal local. Experiência com papel e tinta o jovem artista adquiriu ao trabalhar em seguida em uma gráfica, onde era o faz-tudo, responsável pela criação de embalagens, fotografia e fotolitos.
O talento artístico é ainda maior ao se levar em conta que Fernandes é daltônico, o que o impede de diferenciar algumas cores como verde e marrom, ou azul e rosa. Para superar a deficiência que poderia comprometer a carreira, o ilustrador recorre a lápis de cor numerados e à ajuda da família e amigos. Mas mesmo assim, às vezes é surpreendido, como quando ilustrou o rosto do ex-presidente Fernando Henrique Cardoso com a cor verde.
Em outra situação memorável, Fernandes comprou um capacete para andar com sua Vespa. Ao chegar em casa, a mulher o alertou que o acessório não era azul, mas cor de rosa.
Em 1981 Fernandes aterrissou na Capital com uma bolsa de estudos na Escola Panamericana de Arte. “Para poder dar conta das despesas do estudo, fui morar com uma tia em Diadema, onde comecei a fazer os primeiros trabalhos profissionais no Jornal do Planalto” -- conta.
Em 1983 começou no Diário do Grande ABC e, três anos depois, foi trabalhar com o artista plástico Elifas Andreatto, no jornal Retratos do Brasil, que teve vida mais curta que o Plano Cruzado, tema preferido de Fernandes para as charges na época. O ilustrador percorreu ainda as redações do Diadema Jornal e da revista Transporte Moderno, até retornar ao Diário do Grande ABC em 1989.
“Na caricatura, o importante é pegar o espírito de quem está sendo desenhado. Não é só desenhar” -- explica ao falar do processo criativo, que no seu caso pode demorar de 10 minutos a cinco horas para rascunhar um trabalho e outra meia hora para a finalização.
Essa é a rotina diária do ilustrador, que para fazer charges sobre o cotidiano dá uma olhada no jornal, escolhe o assunto e leva as idéias para o editor. “A charge dá uma lapidada no assunto. Sintetiza o que está acontecendo” -- conceitua Fernandes, que acrescenta à receita a indispensável dose de humor, matéria-prima farta no cotidiano da política.
Irritação natural
A ironia muitas vezes não agrada aos que figuram nas charges. Alguns chegam a ficar irritados, como o ex-prefeito de São Bernardo Maurício Soares. Outros, como o prefeito de São Caetano, Luiz Tortorello, ficam envaidecidos com suas expressões desenhadas pelos chargistas, mesmo que sejam críticas. O deputado federal Delfim Netto (PP-SP), há quatro décadas sob os holofotes da política, é um verdadeiro fã das charges que ele próprio inspira e mantém uma coleção em seu escritório.
Mas há os caricaturáveis e os que são ingratos para serem desenhados. Fernandes coloca no time dos bons de traço o próprio Tortorello e a apresentadora Marília Gabriela. “Ela tem tudo exagerado, como o nariz e o rosto” -- avalia ilustrador, para quem as pessoas idosas são mais fáceis de desenhar como o pintor Pablo Picasso, a atriz Derci Gonçalves, a escritora Rachel de Queiroz e o escritor Jorge Luiz Borges.
Ossos-duros à inspiração
Mas existe também a categoria dos não caricaturáveis, como o ex-presidente dos Estados Unidos Gerald Ford, considerado figura de feições pouco expressivas para o lápis dos caricaturistas. “No Brasil, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva e o ex-presidente Fernando Henrique Cardoso são um pouco chatos para se desenhar. Já o governador de São Paulo, Geraldo Alckmin, e o ex-vice-presidente Marco Maciel são muito bons com suas feições angulosas e marcantes. Mas tudo depende do dia em que você está inspirado” -- explica Fernandes. Inspiração não é frescura e existe mesmo, garante.
Fernandes se considera um privilegiado por trabalhar com o que lhe dá prazer. Ilustrações e caricaturas mais sofisticadas requerem maior dose de inspiração. O ilustrador mantém como hobby uma atividade dos tempos de criança, em Avaré: a modelagem de bonecos. “É um passatempo, mas já fiz capas de livros infantis e outdoors de campanhas publicitárias” -- conta o artista. Entre seus projetos está um livro de caricaturas. A primeira idéia foi abandonada por uma coincidência. Tratava-se de uma série de desenhos de artistas famosos, projeto abandonado quando a mesma proposta se tornou um livro do caricaturista Loredano, em 2001.
Uma mesma idéia compartilhada por duas pessoas ao mesmo tempo e em lugares diferentes é comum. Em 2002, por exemplo, Fernandes enviou uma caricatura da atriz Fernanda Montenegro montada como um mosaico, com milhares de fragmentos de fotos de feições de outras pessoas. Logo depois, um fotógrafo fez trabalho semelhante. “Pode ser que ele tenha visto minha caricatura no salão ou simplesmente tenha tido a mesma idéia. O que tenho certeza é que quando a idéia vem muito fácil na cabeça, é grande a possibilidade de alguém já ter feito a mesma coisa” -- afirma o ilustrador.
A idéia do livro com caricaturas não morreu definitivamente e Fernandes alimenta a esperança de reunir desenhos de escritores famosos. Os trabalhos premiados de Rachel de Queiroz e Borges já fazem parte do novo projeto.
Europeus, os preferidos
Os desenhos europeus estão entre os preferidos do artista. “Gosto dos trabalhos dos italianos e franceses, que são mais delicados”. Ao lado de Ricardo Girotto, ele ilustrou mais de 60 livros, inclusive o Castelo Rá Tim Bum, que ganhou em 1997 o Prêmio HQ Mix de Melhor Livro Ilustrado. O ilustrador aposta na combinação de ousadia e qualidade. De um lado, não abre mão do desenho bem finalizado e muitas vezes faz 10 rascunhos para chegar ao que quer. Em todos os trabalhos procura sempre equilibrar os traços, numa composição cuidadosamente geométrica. “Tem que ter harmonia, como em uma música” -- dá a receita.
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17/02/2026 MANDACHUVAS E MARIONETES