Uma das notícias mais alarmantes sobre os estragos causados pelo uso de drogas está fora das manchetes policiais e bem mais próxima do que se imagina das mesas de escritório e do chão de fábrica. O consumo de entorpecentes e álcool em ambiente de trabalho já atinge entre 10% e 14% dos trabalhadores na ativa e custa anualmente ao Brasil 7,9% do Produto Interno Bruto em tratamentos médicos e perda de produtividade.
Os números, retirados do fundo de um baú quase sempre utilizado para rechear estatísticas criminais, desnudam a outra face de uma epidemia que há tempos extrapolou as fronteiras do submundo para colocar mais um desafio ao papel de responsabilidade social que cabe às empresas.
O número de alcoólatras e viciados em cocaína ou outras drogas ilícitas aumentou 45% desde 1999 e a maioria se encontra nas linhas de produção ou nos postos de comando das empresas.
Os estudos apontam que 80% dos dependentes químicos batem ponto normalmente de segunda a sexta-feira em seus postos de trabalho. Levam, portanto, uma vida profissional aparentemente normal. Mas esse batalhão é responsável pela média de 26 faltas não justificadas ao ano -- três vezes mais licenças médicas que outros funcionários atingidos por doenças, provoca entre 15% e 30% dos acidentes de trabalho e ainda faz aumentar os custos com serviços médicos e benefícios em até 300%.
Diagnóstico assustador
Esse diagnóstico assustador foi obtido por meio de informações de órgãos oficiais como Cebrid (Centro Brasileiro de Informações Sobre Drogas Psicotrópicas), Secretaria Nacional Antidrogas e pesquisas em empresas. Foi exposto sem refresco durante o seminário Aspectos Trabalhistas e Sociais Sobre Uso de Drogas e Álcool No Ambiente de Trabalho, promovido pela Mission em São Paulo. O encontro mostrou a vulnerabilidade das empresas diante de assunto normalmente tratado sob o ângulo da tragédia pessoal ou familiar e chamou a atenção para dois aspectos.
O primeiro, mais analítico, refere-se ao estresse que a maioria das atividades profissionais provoca atualmente sobre o indivíduo e a ilusão de que o aditivo químico ajuda a dar conta da sobrecarga. O outro é predominantemente mercadológico, porque elege o trabalhador que recebe salário todo mês -- e teoricamente tem poder aquisitivo comprovado -- como alvo de segmentos legais e ilegais que faturam montanhas de dinheiro com o vício.
“Já foi o tempo em que caminhoneiros, garçons e trabalhadores da noite eram mais suscetíveis à dependência. O risco está generalizado e as empresas precisam adotar posturas para prevenir e detectar o uso de drogas” — alerta a advogada Deise Neves Botelho Rezende, especializada em direito do trabalho e estudiosa do assunto. Ela garante que é possível aplicar testes antidrogas no processo seletivo e no quadro de colaboradores sem ferir a lei.
A Constituição brasileira prevê a testagem de profissionais como policiais, pilotos de avião, médicos e motoristas de ônibus, mas não faz menção a atividades sem relação direta com segurança pública ou de pessoas. Mesmo assim, a advogada explica que se forem utilizados procedimentos que descaracterizam a invasão de privacidade, os programas de detecção e prevenção têm poucas possibilidades de sofrer questionamentos judiciais.
“Para isso, é necessário adotar a transparência como condutora de todo processo configurado para tornar o local de trabalho livre das drogas” — esclarece Deise Botelho, ao lembrar que qualquer atitude nesse sentido deve constar por escrito dos contratos de trabalho, dos regulamentos internos da empresa, dos códigos de ética e conduta e até da convenção coletiva.
Cuidados necessários
A empresa também precisa garantir a confiabilidade na manipulação do material coletado e o sigilo dos resultados e do encaminhamento dos casos positivos para tratamento, sempre que houver programas de reabilitação. Se o empregador aplica os testes durante a admissão, tem de obrigatoriamente informar aos candidatos sobre a política interna e solicitar que assinem autorização antes de submetê-los às análises clínicas.
A maioria das empresas que implantou programas antidrogas envolve todos os níveis hierárquicos e utiliza o método do sorteio para fazer a testagem. Comportamentos como prostração, pouca eficiência, dificuldade de concentração e descuido na apresentação pessoal estão geralmente associados ao uso de entorpecentes. Mas não podem ser utilizados como ferramentas de escolha, já que induzem ao pré-julgamento. Afinal, se alguém chorou a noite toda por causa de uma briga de namorados ou mesmo pela perda de um ente querido, certamente passará o dia seguinte com o olho vermelho.
João e Alfredo
A história hipotética de João e do doutor Alfredo ilustra a importância do tratamento igualitário para conferir credibilidade aos programas antidrogas. João chega atrasado para trabalhar na segunda-feira. Está com o rosto inchado e vermelho, sinal claro de que o final de semana foi farto em farra e bebida. Pressionado pelo Departamento de Recursos Humanos, assume a bebedeira e é mandato de volta para casa porque não tem condições de operar a máquina e fica à espera de uma decisão da empresa.
O doutor Alfredo também chega atrasado, mas alega problemas pessoais. De óculos escuros e péssimo humor, mal cumprimenta a secretária antes de trancar-se na sala e pedir para não ser incomodado. Enquanto todos pensam que está trabalhando, também se recupera do final de semana regado a muita farra. Protegido pela suposta imunidade do cargo, não será reprimido pelo RH e ainda pode tomar alguma decisão que comprometa a empresa.
O exemplo didático lembra a máxima de que a corda sempre arrebenta do lado mais fraco e leva a uma pergunta imediata: o que fazer com o dependente químico trabalhador, seja ele o João ou o doutor Alfredo? Estudiosos defendem que as empresas devem auxiliar no tratamento e possibilitar oportunidade de regeneração independente do grau de hierarquia. Esse procedimento fortalece as relações empresa-funcionário e custa menos do que fazer a substituição pura e simples. “É mais barato tratar, ajudar na recuperação e manter o funcionário na empresa do que trocá-lo por outro” -- defende a advogada Deise Botelho.
Perdas emblemáticas
A psicóloga e diretora técnica do Centro de Tratamento Bezerra de Menezes em São Bernardo, Maria Heloisa Bernardo, reforça as afirmações. A área de vendas é citada como exemplo emblemático das perdas provocadas pela rotatividade estimulada não só pelos casos de dependência química. Estatísticas apontam que profissional recém-contratado para o setor só começa a produzir efetivamente após seis meses de trabalho. Antes desse período fica muito difícil formar uma carteira de clientes e incorporar a cultura da empresa.
O Bezerra de Menezes já auxiliou empresas como Companhia Siderúrgica Nacional, General Motors, Sabesp, Solvay do Brasil, Petrobras e Semasa (Serviço Municipal de Saneamento Ambiental de Santo André), entre outras, a implantar programas de prevenção. Em todos os casos, nenhum nível de qualificação profissional mostrou-se imune ao uso de entorpecentes. “Por isso, as ações de prevenção, reabilitação e acompanhamento têm de envolver desde o mais alto cargo até o chão da fábrica” — recomenda Maria Heloisa Bernardo ao lembrar o crescimento dos casos de multidependência do álcool associado a outras drogas.
O centro de tratamento de São Bernardo não quantificou esse crescimento, mas as ocorrências refletem o que os estudos constatam nas ruas. A alta no consumo de drogas ilícitas no Brasil foi uma das conclusões do relatório Drogas Ilícitas Tendência Global 2003 do Unodc (Escritório das Nações Unidas contra as Drogas). O estudo detectou que o consumo mundial de entorpecentes ilícitos cresceu de 4,2% para 4,7% nos últimos dois anos, impulsionado principalmente pela maconha, cocaína e anfetaminas como ecstasy.
Vice-campeão em consumo
Dentro desse cenário, o Brasil ocupa o segundo lugar no consumo de maconha na América do Sul, com 5,8% da população acima de 15 anos. O País é também o nono consumidor de cocaína com quase um milhão de usuários, ou 0,8% da população na mesma faixa etária. A média global é de 0,33%.
A preocupação corporativa com o dependente químico também está diretamente ligada ao estágio de responsabilidade alcançado pelas empresas e ao peso que cada uma atribui ao capital humano. De qualquer forma, o apoio traz resultados positivos comprovados. As corporações brasileiras que adotam programas de detecção e prevenção conseguiram reduzir o uso de drogas ilícitas em 70%, diminuir os atrasos em 29% e derrubar os acidentes de trabalho em 35%. Também foi constatada queda no consumo de cigarro e álcool em 25%, em média.
A subsidiária brasileira da Esso utiliza a testagem antidrogas na admissão e aleatoriamente nos 1,6 mil funcionários, incluindo diretoria e presidência. Nos últimos 11 anos foram examinados 6.284 empregados e detectados 47 casos positivos para drogas, 31 dos quais no processo seletivo. A CPTM (Companhia Paulista de Trens Metropolitanos) tem o mesmo procedimento e desde 1995 identificou 212 dependentes entre os 6,3 mil colaboradores. Desse total, 176 foram encaminhados para tratamento, com taxas de recuperação de 49% para mulheres e 44% para os homens.
Embraer preocupada
Embraer é outra corporação que testa os 10,5 mil funcionários. Dos 4.214 que já se submeteram à análise, 42 foram positivos para álcool, maconha e cocaína e 38 estão em tratamento. A Embraer oferece internação clínica especializada, apoio psiquiátrico e grupos de auto-ajuda.
A Volkswagen do Brasil não utiliza exame antidrogas admissional ou aleatório, mas mantém programa de apoio a dependentes químicos há 31 anos e o índice de recuperação chega a 60%. “O funcionário procura ajuda porque o programa adquiriu credibilidade durante todo esse tempo” -- justifica o gerente executivo de serviços corporativos de Recursos Humanos, Murilo Alves Moreira. Estatísticas mais recentes da montadora contabilizam 2,3 mil palestras preventivas e 36.318 dependentes, familiares e empregados envolvidos desde 1996.
A Volkswagen do Brasil tem 20 mil funcionários, 179 dos quais em tratamento. A maioria é dependente de álcool, droga que ainda predomina no ambiente da montadora.
Jovens na mira
Mesmo assim, a mudança do perfil do dependente é perceptível por meio do aumento de casos relacionados às outras drogas, principalmente na faixa etária mais jovem. Entre os vários motivos dessa mudança estaria a disseminação do tráfico que facilita o acesso aos entorpecentes ilícitos. O mesmo relatório da ONU que detectou o aumento do consumo de drogas no País chama a atenção para o poder econômico da cocaína, considerada uma droga rentável do ponto de vista mercadológico.
O estudo destaca que o preço do entorpecente pode sofrer variação de mais de 1.000% desde a produção até a venda no varejo. Esse lucro astronômico seria um dos principais estímulos para a busca de novos consumidores.
O Semasa, em Santo André, também detecta mudança no perfil do viciado, principalmente entre os mais jovens. O Programa de Combate à Dependência Química acaba de completar 10 anos e auxiliou na recuperação de 79 funcionários, a maioria ainda dependente de álcool. Laércio R. , de 53 anos e alcoólatra desde os 14, está sem beber há cinco anos graças à ajuda da autarquia municipal.
Histórias semelhantes
Sua história é parecida com a dos 22 companheiros que estão em tratamento. Ele buscou ajuda quando chegou a situação-limite e demorou bastante para assimilar que era, na verdade, um doente. “Agora tenho convicção de que não posso colocar um gole sequer de bebida na boca, sob pena de perder tudo que consegui. Conto com minha boa vontade para me proteger” -- ensina Laércio, que trabalha como auxiliar de topografia e cadastro desde 1992.
O Semana não obriga o funcionário a aderir ao programa. Mas somente os que aceitam se submeter a internação ou tratamento ambulatorial podem frequentar os grupos de apoio em reuniões semanais com duração de duas horas. A autarquia também realiza anualmente a Semana de Prevenção e Combate à Dependência Química. “Não são todos que aceitam ajuda, mesmo assim nosso índice de recuperação está em torno de 70%” -- estima a assistente social e coordenadora do programa, Leontina da Conceição Moia. O Semasa tem 1,3 mil funcionários, 90% estatutários e 70% trabalhando na área operacional.
“Dificilmente o viciado procura ajuda espontaneamente. Por isso o apoio corporativo permite agir antes que o problema se agrave” — reforça a psicóloga Silvia Rezende Azevedo, outra participante do seminário promovido pela Mission. A gravidade citada pela profissional pode facilmente deixar os domínios físicos da empresa para arranhar a imagem institucional ou até a marca do produto.
Tráfico corporativo
No final de 2003, um caminhão da Empresa Brasileira de Correios e Telégrafos que deveria transportar cartas e encomendas foi flagrado com pacotes de cocaína. O carregamento fazia parte de esquema de tráfico alimentado por funcionários da própria empresa que estavam a serviço do crime organizado. Certamente, a quadrilha optou por utilizar o transporte dos correios porque apostou que a credibilidade da marca dificilmente levantaria suspeitas.
A utilização de drogas no expediente de trabalho tem ainda relação direta com fraudes corporativas. O advogado Ibraim Lisboa conclui que pelo menos 15% dos atos ilícitos praticados por funcionários têm origem no uso de drogas. O percentual envolve desde pequenos roubos até revelação de segredos industriais ou grandes desfalques e abrange universo de mil empresas nacionais de grande porte que perdem entre 6% e 7% do faturamento anual com fraudes, aponta ele.
Há ainda outro dado alarmante: 44% dos usuários de drogas vendem ou já venderam drogas no ambiente de trabalho. É uma revelação que remete à segurança corporativa porque coloca em xeque modelos tradicionais de vigilância e controle. “A verdadeira segurança exige hoje bem mais que equipamentos e homens treinados e se faz com poder de observação e perspicácia”.
Que tal aproveitar uma festa de confraternização para analisar o comportamento social dos funcionários? “É preciso ficar mais atento àqueles que vendem rifas o tempo todo ou são constantemente abordados por cobradores” -- dá algumas pistas Ibraim Lisboa.
“O fato de a empresa apoiar o funcionário não significa que ele está livre dos códigos disciplinares. Não deve haver privilégios” -- lembra a gerente de desenvolvimento de Recursos Humanos do Semasa, Telma Xavier da Silveira.
“O segredo é sempre impor limites” -- reforça o diretor da Premeditest, Ernesto Cisneros Schaeffer, executivo mexicano que utilizou a experiência pessoal para fundar uma das primeiras empresas da América Latina especializadas na detecção de drogas no ambiente de trabalho. Ex-diretor de multinacional, Ernesto Cisneros fez uso de álcool e cocaína durante 15 anos para chegar ao que acreditava ser seu pico de produtividade. Só se livrou do vício -- e garante estar há 10 anos longe das drogas -- depois que recebeu apoio do chefe, e por extensão da empresa, para tratar-se em clínica especializada.
Testes mexicanos
A Premeditest realiza cerca de 150 mil testes antidrogas anualmente no México e quer trazer para o Brasil a metodologia que inclui, além da testagem, palestras educativas e programas de reabilitação. A empresa atende a corporações como Coca-Cola, Unilever, Esso, Shell e Pepsico e desenvolveu o certificado FDWP -- sigla em inglês para local de trabalho livre de drogas --, espécie de ISO que atesta a ausência do vício e já é exigido em algumas transações comerciais com os Estados Unidos. Para garantir e renovar a certificação, as empresas devem, entre outros procedimentos, realizar testes por amostragem todas as segundas-feiras.
Os testes podem ser manipulados e operados por funcionários da própria empresa, são identificados por códigos e fornecem resultados quase imediatos. Ernesto Cisneros garante que as empresas mexicanas atendidas pela Premeditest aumentaram em 8% a produtividade e em 30% as vendas, após a adoção dos programas de detecção e prevenção ao uso de drogas.
Mistura letal
O aumento progressivo do consumo de drogas ilícitas em todo o mundo está associado a fatores que extrapolam a necessidade humana de recorrer a aditivos químicos para dar conta da vida. Os 200 milhões de usuários mundiais detectados no último estudo da Organização das Nações Unidas são coadjuvantes de uma história predominantemente patrocinada pela exclusão social e pela sedução do lucro fácil.
São ingredientes socioeconômicos que acionam o gatilho fatal das já gravíssimas consequências patológicas do uso de entorpecentes e contribuem para inflacionar números pouco animadores. Nos últimos 10 anos o consumo de anfetaminas entre estudantes no Brasil cresceu 150%, o de maconha, 325%, e o de cocaína 700%.
Esses jovens com passaporte carimbado para clínicas de recuperação, rede pública de saúde e principalmente estatísticas da criminalidade subsidiam o relatório elaborado pelo escritório das Nações Unidas contra Drogas e Crimes para o Brasil e Cone Sul e protagonizam uma história cada vez mais apavorante. O estudo da ONU foi concluído em agosto de 2003 e constatou que o tráfico de drogas é responsável por grande parte dos 30 mil homicídios praticados anualmente no Brasil. Para cada um desses assassinatos, outras 20 a 40 pessoas são feridas ou hospitalizadas.
O crime organizado também emprega mais de 20 mil entregadores de entorpecentes, os chamados aviãozinhos. A maioria são crianças e adolescentes entre 10 e 16 anos, gente que legalmente não tem idade para trabalhar e mesmo que conseguisse o primeiro emprego dificilmente ganharia no mercado formal entre US$ 300 e US$ 500 mensais, média de rendimento no negócio do crime. A taxa de desemprego na Região Metropolitana de São Paulo atingiu 19,9% em 2003 e chegou a 20,3% no Grande ABC. Situação facilmente decodificada pela gigantesca fila de 19,5 mil desempregados que se inscreveram para 600 vagas abertas em janeiro último pela Prefeitura de Mauá para uma frente de trabalho com salário de miseráveis R$ 240.
O consumo de drogas no Brasil foi ainda analisado pela ONU sob ângulo que ajuda a entender a lógica geoeconômica do crime organizado. O Brasil é citado como uma das principais rotas de passagem para a cocaína traficada dos países andinos, além de fornecedor de grande parte dos produtos químicos utilizados na industrialização da droga.
Há também a constatação de que o mercado interno está ativo e em expansão, o que desperta a veia mercadológica do tráfico. Ainda segundo o relatório da ONU, o grama de cocaína no atacado custa entre US$ 4 e US$ 6. Já o traficante que faz entrega em domicílio no Rio de Janeiro ou em São Paulo chega a cobrar até US$ 20. É uma das atividades mais lucrativas do mundo. A ONU estima que o negócio das drogas movimenta US$ 400 bilhões anualmente no mundo, 80% do PIB brasileiro.
Pais ajudam
A afirmação endossada pela maioria dos especialistas de que o álcool é a porta de entrada para drogas mais pesadas ajuda a desvendar mais uma faceta do complicado universo da dependência química. O Brasil tem mais de cinco milhões de dependentes de álcool, número que levou a Organização Mundial da Saúde a considerar o consumo de bebidas alcoólicas o principal fator de redução da expectativa de vida do brasileiro. A explicação é factível. Sob efeito do álcool, os usuários estão mais suscetíveis a cometer atos de violência, envolver-se em acidentes de trânsito e experimentar outras drogas. Tudo isso sem levar em conta doenças decorrentes do excesso de ingestão da bebida.
Uma das questões mais agravantes desse cenário também está relacionada à juventude. Adolescentes de hoje encontram todas as portas abertas para o álcool, já que tanto a legislação quanto a família costumam contribuir com permissividade duplamente maléfica. Qualquer adolescente consegue comprar bebida alcoólica impunemente, apesar das restrições legais de venda aos menores de idade. Há ainda o agravante de que o primeiro contato com o álcool geralmente ocorre no convívio familiar, em ambientes onde nem sempre os pais têm condições de explicar -- e principalmente de dar exemplos positivos aos filhos -- sobre os malefícios do consumo indiscriminado.
O psiquiatra Ronaldo Laranjeira, da Abead (Associação Brasileira de Estudos do Álcool e outras Drogas), afirma que quanto mais cedo o contato com álcool, maiores as possibilidades de dependência. Isso porque o adulto demora em média cinco anos para se tornar um viciado, enquanto dois anos são suficientes para que a criança ou adolescente apresente sintomas de dependência.
A constatação científica cai como bomba se confrontada com estudos do Cebrid (Centro Brasileiro de Informações Sobre Drogas Psicotrópicas). O Cebrid detectou que apenas 0,9% dos estudantes de escolas públicas das 10 principais Capitais brasileiras encontram dificuldade para adquirir bebidas e que 34% dos alunos entre 10 e 18 anos bebeu pela primeira vez na própria residência. Detalhe: a bebida foi oferecida pelos pais.
Recentemente a Unifesp (Universidade Federal de São Paulo) elegeu Paulínia, na Região Metropolitana de Campinas, como sede de projeto piloto sobre alcoolismo na juventude.
O estudo, além de ter reproduzido no microcosmo local os dados que o Cebrid já havia constatado em nível nacional, foi além ao pesquisar a relação entre a bebida e as ocorrências no pronto-socorro da cidade. Dos 126 munícipes socorridos no PS local durante os finais de semana do mês da pesquisa e que se envolveram em acidentes de trânsito, quedas ou brigas, surpreendentes 100% estavam alcoolizados.
Pelo menos 31 mil brasileiros morrem anualmente no trânsito e desse total entre 50% e 70% são vítimas do consumo excessivo de bebidas.
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17/02/2026 MANDACHUVAS E MARIONETES