Sociedade

De marinheiro a
editor de sucesso

WALTER VENTURINI - 05/06/2004

Alugar livros clássicos e infantis a R$ 1,00 e incentivar a leitura de adultos e crianças carentes é uma das inovações que o empresário José Xavier Cortez decidiu implantar na livraria que montou na favela Sacadura Cabral, em Santo André. No comando de uma das principais editoras brasileiras na área de Ciências Humanas e Pedagogia, a Cortez, esse nordestino que começou a viver a realidade de seu país ao participar da revolta dos marinheiros, em 1964, descobriu no universo infinito da leitura a ponte entre o querer e o poder.


Foram muitas as maneiras de José Cortez lutar pelas causas sociais.  Nascido em um sítio em Currais Novos, no Rio Grande do Norte. Desde os cinco anos de idade passou a ajudar a família, quando guiava um boi manso que puxava a capinadeira manejada pelo pai. José Cortez freqüentou a escola somente dois anos na infância e depois ajudou o pai na lavoura, trabalhou num armazém e vendeu frutas na rua. Aos 17 anos, foi para Recife, onde cursou a Escola de Aprendizes de Marinheiros de Pernambuco.


Conseguiu entrar para a Marinha do Brasil e chegou a ser cabo maquinista. No Rio de Janeiro, o jovem marujo era embarcado, isto é, morava no próprio navio, assim como milhares de outros companheiros de arma. Nesse período, aproveitou para completar o Ensino Fundamental e para fazer cursos técnicos na Marinha. Testemunha de um Brasil que se transformava em meio ás desigualdades, José Cortez participou do levante dos marinheiros, em março de 1964.


Gosto pela leitura


Passados 20 anos, o ex-marujo novamente se reengajou na luta contra as desigualdades e quer levar o gosto pela leitura para os três mil moradores da favela Sacadura Cabral. “O livro é um produto pensado para todas as classes. Naturalmente, os menos favorecidos são os que menos se beneficiam desse produto. Mas são os que mais necessitam do livro“ – afirma José Cortez, que pelos livros encontrou a possibilidade de construir sua agitada e produtiva vida.


A Editora e Livraria Cortez montou em Santo André sua primeira filial, em uma loja da Unidade de Negócios, que faz parte do Projeto Santo André Mais Igual que reurbanizou a Sacadura Cabral e integrou vários projetos sociais da Prefeitura. “Fiquei interessado quando soube que a Prefeitura queria uma livraria no projeto. Normalmente, os governantes têm outras preocupações. Só vi esse tipo de interesse nos países desenvolvidos, onde as comunidades se reúnem para montar livrarias em suas cidades porque entendem que são tão importantes quanto escolas ou uma farmácias” – conta José Cortez, que há 39 anos deixou o Rio de Janeiro para refazer a vida em São Paulo, depois de ser desligado da Marinha por sua atividade política. Chegou a responder a um inquérito policial militar pela militância de esquerda.


A atividade política continuou a surgir na vida de José Cortez que revela que teve até a oportunidade de entrar para a luta armada contra o regime militar mas acabou por navegar para uma rota mais pacífica.


Recomeçou como lavador de carros num estacionamento. Dois anos depois, conseguiu um novo emprego na Editora Atlas e passou a cursar Economia na PUC. Para poder pagar a faculdade, passou a vender livros para os colegas de classe e depois para outras turmas. No período da censura e da repressão, o ex-marinheiro conseguiu para alguns colegas e professores literatura marxista e livros banidos pelo regime.


José Cortez passou a ser conhecido pela habilidade em conseguir publicações que não estavam disponíveis no mercado. Em 1968, montou a livraria, inicialmente no interior da PUC, para depois estruturar a empresa, também como editora, na Rua Bartira, ao lado da universidade. Com mais de 700 títulos no catálogo, a Editora e Livraria Cortez publica média de 80 livros por ano, em sua maioria nas áreas de Educação, Pedagogia, Filosofia e principalmente Serviço Social, para a qual disponibiliza inclusive edições em espanhol.


Reconhecimento internacional


Hoje, a empresa conta com 70 funcionários e é referência editorial na área Ciências Humanas. A empresa é atualmente conhecida no mercado editorial brasileiro e também no exterior. Tem várias co-edições com órgãos internacionais como a Unesco (Organização das Nações Unidas para a Educação, Ciência e Cultura) e a Unicef (Fundo das Nações Unidas para a Infância). 


Para a instalação da loja em Santo André, um investimento de R$ 80 mil, José Cortez fez questão de contratar um morador da favela, que antes de iniciar o trabalho passou por um treinamento na matriz, no bairro das Perdizes, na Capital. Para aproximar a comunidade da favela da livraria, principalmente as crianças já foram realizadas oficinas de cantigas de rodas e contação de histórias. Outra iniciativa é o Programa de Incentivo à Leitura, de locação livros clássicos e infantis ao preço de R$ 1,00. Após 10 locações, o leitor ganha um bônus de R$ 10,00 para abater na compra de um livro.


Mas a filial não está unicamente voltada para a comunidade da favela. “Quando visitamos a favela, vimos a Fundação do outro lado da avenida. Por isso decidimos trabalhar o lado social mas também o foco nos alunos e professores” – afirma José Cortez, que aposta em um retorno na loja a médio prazo, na medida em que a livraria passe a ser conhecida e freqüentada por alunos e professores da Fundação.


Para o segundo semestre, os planos são trazer para Santo André a Oficina Lendo Melhor, para eliminar as dificuldades de leitura. Outro projeto a ser implantado é o Cordel do Cortez, evento que reúne poetas e repentistas para divulgar a literatura de cordel, a cargo do professor Gilmar de Carvalho, da Universidade Federal do Ceará. Também será dado um curso de técnicas de impressão em xilogravura, utilizada nesse tipo de publicação. “É uma forma de promover o artista nacional” – explica o editor.


Títulos infantis


Além do projeto da filial da livraria em Santo André, no qual investiu R$ 80 mil, a empresa também lançou outro projeto ambicioso em 2004. Em março, começou com a linha de literatura infantil, lançando 19 títulos simultaneamente. Cortez aposta em uma literatura infantil polêmica, que discute temas como o preconceito e o consumismo e detalha conceitos de inclusão social. “Acredito que 2004 será mais promissor para a nós em virtude da literatura infantil. As áreas acadêmica e técnica têm crescido muito pouco. Hoje existem cerca de 3,5 milhões de alunos nos cursos superiores. A área que produz livro para esse segmento cresce entre 2% e 3% em 10 anos’ – calcula José Cortez de olho no sempre crescente público infantil e na credibilidade que sua editora tem junto aos professores.


O empresário é membro da diretoria da Câmara Brasileira do Livro e sonha com a ampliação do público leitor no Brasil, limitado, entre outros fatores, pela baixa renda que desestimula qualquer interesse pela leitura.


A Editora e Livraria Cortez vende em média 15 mil livros por mês. “O que nos prejudica é a cópia xerográfica de livros, um tipo de pirataria. Outro problema é a desatualização das bibliotecas infantis --  diz Cortez, que vê nesse quadro o cenário perfeito para a falta de estímulo à leitura. ”Tem gente que nunca leu um livro, nem mesmo freqüentando a universidade. Isso significa desvantagem. Por isso é que a Europa e os Estados Unidos estão melhor do que nós” – argumenta José Cortez, que na rota para passar de marinheiro a editor de sucesso teve de aportar em muitos livros.


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