Sociedade

Cadê a UFABC no Ranking
QS World? Está fora, claro!

DANIEL LIMA - 06/09/2016

Quando bati os olhos no noticiário de hoje da Folha de S. Paulo, mais especificamente na manchete “USP, Unicamp e UFRJ sobem em ranking internacional”, a primeira providência cautelar que tomei foi conhecer os critérios adotados. Quando a Folha informou, lá pelas tantas, que o ranking da QS World leva em consideração seis critérios, entre os quais “reputação do empregador”, não tive dúvidas: a UFABC (Universidade Federal do Grande ABC) não está na lista. E se estivesse, estaria entre as últimas colocadas. Simplesmente porque, por incrível que possa parecer aos menos informados, a UFABC não tem vocação econômica alguma.

A Universidade Federal do Grande ABC forma acadêmicos, provavelmente a caminho de carreiras brilhantes para o gosto elitista tupiniquim, mas no que nos interessa de fato, de suporte ao desenvolvimento econômico, que se refletiria em última instância na mobilidade social, isso nem pensar.

A ideologia pesa, e pesa muito. Nossos acadêmicos, conforme denunciam os mais brilhantes consultores educacionais, estão com a cabeça no século passado. Ainda recentemente assinaram um documento em defesa de Dilma Rousseff e da retomada da política econômica expansionista, inflacionária e desvirtuadora que nos levou ao caos atual.

Bolan esclarecedor 

Em cinco de janeiro de 2011 entrevistei o especialista Valmor Bolan a respeito da UFABC. Vale a pena reproduzir uma das indagações e a resposta do professor: 

 A Universidade Federal do Grande ABC, instalada em Santo André há mais de quatro anos, continua sendo, de fato, "no" Grande ABC, por conta do divórcio com as demandas de desenvolvimento regional. O senhor chegou a rotular a UFABC de barriga de aluguel. Há saída para esse distanciamento ou se trata de um vespeiro político-educacional do qual todos fogem para manter interesses intocáveis?   

Valmor Bolan -- Trata-se de líderes educacionais que têm mentalidade focada em modelo único de universidade. A única universidade possível, segundo eles, é a Humboldiana, gestada na Europa na segunda metade do Século XIX. É a Instituição de Ensino Superior (IES) que tem a tradicional tríplice função: Ensino, Pesquisa e Extensão. Outro tipo de IES, para eles, não é desejável ou então é de segunda categoria ou ainda semi-universitária. Uma IES que tenha por missão precípua repassar conhecimentos científicos e tecnológicos existentes (e não inclua produção de novos conhecimentos) não é bem-vinda. Aliás, é a mentalidade que domina as políticas do Ministério da Educação em termos de Ensino Superior. Instituição de Ensino Superior que inclua expressões como "atender ao mercado" (que não significa outra coisa que ouvir a sociedade produtiva em suas demandas de mão-de-obra), que favoreça a empregabilidade do aluno, a sua inserção regional e que tais, é vista como deslocada no e do mundo acadêmico. Entendem que sua missão é universal, não regional e que estão a serviço do universo e não da comunidade restrita. Tanto que quando contestávamos a falta de diálogo dos planejadores da UFABC com a comunidade regional, nos respondiam que o modelo que iria ser implantado era quase perfeito, pois tinha sido construído com a audiência de especialistas internacionais e de grandes universidades brasileiras, como a Unicamp. Não passávamos de estorvos e plebeus educacionais. Em suma, o distanciamento desses acadêmicos terminará somente quando mudar essa mentalidade elitista de universidade que, a bem da verdade, começa a mudar também em alguns setores de universidades públicas. 

Universidade manquitola 

O QS (Quacquarelli Symonds) é um dos principais rankings de universidades do mundo. É baseado na análise dos níveis de pesquisa, ensino, empregabilidade e internacionalização. A publicação leva em conta seis critérios na avaliação: reputação acadêmica, relação entre corpo docente e estudante, citações por docente, estudantes internacionais e docentes internacionais, além de reputação do empregador.

Ora, bolas: se num dos critérios do ranking, cujo peso relativo não encontro no texto da Folha, a UFABC é simplesmente manquitola, porque assim o quis a elite acadêmica que a concebeu em confronto direto com os sonhos do então presidente Lula da Silva, o que esperar do resultado final?

Cabe aqui mais um parêntese histórico. Vejam o que escrevi na edição de 13 de fevereiro de 2007 (portanto, há quase 10 anos), como testemunho do quanto a UFABC estava e continua divorciada dos pressupostos necessários à recuperação da região. Puxo apenas os primeiros parágrafos, sob o título “Principado da UFABC ataca Lula e sufoca regionalidade”: 

 Duas péssimas notícias para quem imaginou que a UFABC (Universidade Federal do Grande ABC) se transformaria em agente regional indutor de desenvolvimento econômico sustentado: um dos mais importantes legados do governo Lula da Silva para a região que o consagrou como líder sindical virou espécie de principado, dominado pelo poder tão concentrado quanto exclusivista de uma elite acadêmica que ofende o governo federal e, sem cerimônia, trata a pontapés a comunidade regional. Para que não fique dúvida sobre a impetuosidade do reitor Luiz Bevilacqua na grosseira quebra de hierarquia, é emblemática a breve entrevista que concedeu ao Diário do Grande ABC, edição de 2 de janeiro último. O substituto de Hermano Tavares, exonerado em dezembro do ano passado em consequência de desastrada entrevista à LivreMercado, foi desrespeitoso e muito mais agressivo do que o antecessor, cujo pecado capital foi ter descartado a UFABC como instrumento de regionalidade. Em resumo, Hermano Tavares colidiu frontalmente com os discursos do presidente Lula da Silva, que quer as universidades inseridas em polos de desenvolvimento regional. Perguntado sobre a data em que se daria a eleição que o retiraria da condição de reitor pró-tempore, sujeito a substituição a qualquer momento, por eleição efetiva, a resposta do novo reitor, Luiz Bevilacqua, foi provocativa: “Entre maio e junho. Até lá, precisamos elaborar as regras para a formação do Conselho da universidade e o regimento interno. Será feita uma lista tríplice e o ministro da Educação vai escolher um. O mandato será de quatro anos, podendo ter uma reeleição. A partir disso, as mudanças de reitoria, como a saída de Hermano, só podem ser feitas com intervenção federal, como era na época da ditadura”. 

Liderando movimento, pode? 

O que mais me deixa irritado como observador atento da cena regional é que ainda outro dia a direção da Universidade Federal do Grande ABC teve o desplante de, ante histórico de zero vezes zero em comprometimento com a economia e a sociedade da região pregou -- juntamente com representantes de outras universidades locais -- um compromisso dos futuros prefeitos da região com o desenvolvimento da região.

Convenhamos que se trata de algo que guardaria semelhança com a proposta de sugerir aos tesoureiros do PT -- engaiolados por conta da Lava Jato -- que se tornassem conferencistas em defesa do uso de camisinha nas relações sexuais. Ou seja: não tem nexo algum.

O pior de tudo é que, embora tenha ao longo de mais de uma década de operações acadêmicas peso completamente morto no debate regional (inclusive porque as instituições genuinamente locais são igualmente um zero à esquerda em coletivismo construtivo além, quanto muito, dos próprios muros corporativos), a UFABC assume suposta liderança de reorganização do tecido econômico da região. Tanto que pretende tornar as demais instituições da região, inclusive privadas, não mais que vaquinhas de presépio de um discurso sem a menor sustentação histórica e prática.

Peguem nossas proposições

Acompanhei atentamente o noticiário sobre a iniciativa da direção da UFABC, procurei em todas as fontes possíveis, inclusive no portal da própria universidade, e não encontrei nada vezes nada sobre alguma coisa que pudesse ser chamada de plano estratégico em defesa da economia e da sociedade da região. Nem o cuidado de mascarar uma ofensiva político-partidária a direção da UFABC se permitiu dar.

O que, afinal, pretendem os representantes das universidades da região que caíram na esparrela de se juntarem numa espécie de Clube de Dirigentes de Ensino Superior, o qual, pelo andar da carruagem, não tem vida longa, até porque parece que nem vida tem?

Pois adotem para valer, sem meias palavras, o receituário que produzi ontem e publiquei nesta revista digital, o qual dá conta de 20 proposições que deveriam ser cumpridas à risca pelos prefeitos que vão assumir as prefeituras da região em janeiro do ano que vem.

Está ali um receituário simples, objetivo, claro, contundente, que visa, entre outros objetivos bem traçados, dar transparência, racionalidade e muito mais aos gestores públicos que finalmente deveriam vestir a camisa da regionalidade.

Aposto o que os leitores quiserem que todos ou quase todos os concorrentes aos respectivos paços municipais se fingirão de mortos. Inclusive a Imprensa. Não é de interesse de grupos organizados sempre dispostos a confundir, não a esclarecer, a interrupção do circuito de malandragens que tornam as prefeituras fontes inesgotáveis de conveniências. 

A Universidade Federal do Grande ABC só entra em ranqueamentos cujos escopos premiam o academicismo sem comprometimento direto com a sociedade à qual deveria estar conectada.

A UFABC é um corpo estranho e parasitário na região, mas se pretende hospedeira de transformações às quais está completamente despreparada por desconhecer o tamanho dos nossos problemas. Nada surpreendente para quem foi implantada sob o signo do alheamento completo e deliberado.



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