Infância e música são palavras-chave para entender como um menino que tocava em fanfarra de São Bernardo grava agora seu segundo CD em um estúdio de Los Angeles, no Estados Unidos. Flávio Bala toca saxofone porque foi influenciado pelos shows que assistia no Grande ABC, pelos irmãos que estudavam música e pela participação em bandas juvenis, celeiro de artistas talentosos da região e conhecidos hoje no País e no Exterior.
O que existe em comum entre o trombonista Bocato, o guitarrista Gerson Oikawa, a cantora Tânia Maria, o baterista Cláudio Baeta, o arranjador João Cristal e os saxofonistas Jacaré e Flávio Bala? Só quem viveu o universo musical do Grande ABC há 20 anos pode saber que todos eles, ainda meninos, começaram a lidar com notas musicais, partituras e acordes nas bandas e fanfarras da região.
Pode tirar da cabeça qualquer idéia de coisa ultrapassada quem pensa que essas corporações musicais são puro folclore. Na verdade, são escolas de músicos de alta qualidade, centros culturais que infelizmente estão encerrando as atividades.
Bandas e fanfarras
Flávio Bala, 34 anos, que nasceu no Ipiranga mas passou a infância na Vila Marlene, em São Bernardo, garante que apenas a Banda do Rudge ainda insiste em sobreviver. Mesmo a sua Banda da Cidade da Criança, onde começou tocando clarinete, é coisa do passado. “O negócio rolou por causa das bandas e fanfarras.
Foi daí que saíram os grandes músicos da região e isso pouca gente sabe” — lamenta o músico, que era obrigado a tocar exemplarmente na banda para não levar bronca do professor português, cujo nome esqueceu. “O maestro pegava pesado e dava bronca segurando a batuta” — conta Bala, que graças ao rigor do mestre lusitano adquiriu base teórica para prosseguir e chegar a tocar na gravação de um disco do inglês Rod Stewart.
Ganhou o apelido do irmão Fernando, para quem sempre pedia doces e balas. “Meu nome, Flávio dos Santos Paulo, não era tão adequado para a carreira musical” — confessa o saxofonista.
Gosto pela música
Bala ainda não tinha completado 13 anos quando ouviu uma gravação da banda de Glenn Miller tocando Moonlight Serenade. Logo em seguida, seus pais o levaram com os irmãos Fernando e Renato a um show de Toquinho e Vinícius. Gostou dos sons do sax e do clarinete e se inscreveu na Banda da Cidade da Criança. Depois das lições e broncas do maestro português, Flávio teve aulas de saxofone em São Paulo e no Rio de Janeiro.
O artista lembra que as bandas e fanfarras era mantidas pelas prefeituras, que também compravam os instrumentos musicais. O apoio do poder público criou espécie de caldo de cultura para o surgimento de grupos como a Banda Metalurgia, que ficou conhecida em todo o País como a expressão musical da região de perfil industrial.
Boas músicas formam bons ouvidos e o saxofonista acredita que a má qualidade da produção comercial dos dias atuais está ligada à falta de formação musical de crianças e jovens. “A maioria escuta o que toca no rádio. Só quem vai mais fundo ouve samba, chorinho. Apesar de tudo, sempre tem uma moçada que se cansa da musiquinha e procura algo mais alternativo, dessa nova geração, como o Lenine, que faz trabalhos mais elaborados” — opina.
Futebol e favela
Flávio Bala não teve outra ocupação profissional a não ser trabalhar com a música. Desde a adolescência tocou na noite do ABC, no início em bares e depois em apresentações no Teatro Municipal de Santo André e bailes no Clube Aramaçan. No início de carreira aceitava os convites mais estranhos, como tocar durante uma partida de futebol no campo do Madureira, tradicional clube de várzea de São Bernardo. “Já toquei também na favela do DER, acompanhando dois garotos que cantavam rap. E era na época em que nem tinha rua asfaltada por ali” — lembra.
O salto na carreira veio em 1990, quando o saxofonista mostrou uma fita de suas músicas ao trompetista Márcio Montarroyos, que ficou famoso em 1973 ao tocar o clássico Carinhoso na abertura de uma novela da Rede Globo de Televisão. “Ele ouviu e me conseguiu uma bolsa de estudos”. Não era uma simples bolsa, mas um curso no Berklee College of Music, em Boston, Estados Unidos, a maior instituição autônoma de ensino superior de música e o principal centro de música contemporânea do mundo. Montarroyos havia estudado no Berklee e conseguiu uma vaga para Flávio Bala.
Mais brasileiros
Outros brasileiros passaram pela escola de Boston, como o saxofonista de jazz Leo Gandelman, a vocalista Luciana Souza, o artista de jazz Victor Assis Brasil, o arranjador e pianista Nelson Ayres, o saxofonista Roberto Sion, o pianista e compositor Rúria Duprat, o guitarrista Lupa Santiago e o baterista Carlos Ezequiel, entre outros.
Da tradicional e acadêmica Nova Inglaterra, o músico mudou-se para Los Angeles, principal pólo das indústrias cinematográfica e musical americana. Flávio Bala estudou com Moacyr Santos, um dos mais respeitados arranjadores brasileiros, radicado há décadas nos Estados Unidos e indicado para o prêmio Grammy, o Oscar da música mundial. Santos foi professor de artistas como Dori Caymmi, filho de Dorival e hoje músico de renome internacional.
Também estudou saxofone com outros mestres como Bob Sheppard e Phill Sibel. “Para unir teoria e prática, passei a tocar em bares da cidade como o La Vé Lee, em Ventura Boulevard, o preferido dos músicos americanos que vivem na Califórnia. Lá é comum ver fregueses como Stevie Wonder e o brasileiro Sérgio Mendes fazerem a alegria da platéia e darem um canja” — conta.
Ainda em Los Angeles, Bala tocou com o percussionista baiano Meia-Noite, que integrou a banda de Sérgio Mendes, além de se apresentar com a cantora Sônia Santos, radicada há mais de 20 anos nos Estados Unidos. “Trabalhar nos Estados Unidos é importante, pois para lá vão os melhores do mundo. Mas fiquei com vontade de voltar para o Brasil” — revela o músico, que regressou em 1997. Mas três anos depois tomou o caminho de volta a Los Angeles para gravar o primeiro CD, The Party, um trabalho baseado no jazz e com um pé na cozinha brasileira, com toques de bossa nova. O disco lembra os álbuns de Astrud Gilberto, por sinal outra artista brasileira a desenvolver carreira nos Estados Unidos, que foi casada com João Gilberto e ficou conhecida como crooner da banda de Stan Getz e depois como solista.
Sucesso em Israel
O irmão de Flávio, Renato Neto, que toca na banda do irreverente Prince, teve importância fundamental em sua carreira, desde as influências musicais na infância até na gravação do disco. Neto é proprietário do estúdio Superfly Records, ao lado do baterista Tel Bergman. “Os dois participaram do meu primeiro disco com arranjos e composições” — relata. Por conta disso, The Party fez sucesso em Israel, terra natal de Tel Bergman, que para lá levou o CD para tocar nas rádios locais.
Flávio Bala já traça planos para o segundo CD, que deve estar concluído até o final do ano. “Quero fazer uma coisa bem dançante ou bem brasileira, bossa nova, para atingir o mercado europeu. A idéia é fazer um bom trabalho, mas atendo ao mercado. O pop tem muita gente fazendo, e o lado brasileiro, além de fazer sucesso na Europa e na Ásia, é também agradável” — ressalta.
Mesmo ligado no mercado internacional, o saxofonista avalia que onde começou a aprender música, no Grande ABC, o espaço para a cultura está aumentando. “A noite no Grande ABC está crescendo, sobretudo em casas de Santo André e São Bernardo. Até em Ribeirão Pires tem um bar onde toca jazz” — destaca. Flávio Bala acredita que já existe programação cultural na região, ausente quando começou a tocar nos bares locais. “Sempre tem alguma coisa rolando. Além disso, o Grande ABC tem grandes teatros, Culturalmente, isso é ótimo” — avalia o saxofonista. Melhor do que isso, só a volta das fanfarras.
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17/02/2026 MANDACHUVAS E MARIONETES