Sociedade

Verão na serra,
por que não?

CARLA FORNAZIERI - 05/08/2004

No lugar da neblina, céu azul. Ao invés de gélidos 10 graus, sol escaldante. Trocam-se os gorros e cachecóis por bermudas e camisetas. O que parece convite para o Litoral pode ser oportunidade para Paranapiacaba consagrar-se como circuito turístico durante todo o ano e diluir para outros meses o público que lota a histórica Vila inglesa em julho, quando ocorre o Festival de Inverno. 


Além da beleza natural explorada para o ecoturismo e esportes de aventura, Paranapiacaba abriga empreendedores dispostos a trocar os caldos quentes por sucos tropicais e acomodar hóspedes também com menos cobertores. O caminho para uma economia sustentável o ano todo está no esticamento do calendário e no enquadramento dessa ex-vila da Rede Ferroviária Federal adquirida por Santo André em roteiro também nos meses mais quentes.


O charme durante as baixas temperaturas é indiscutível. Encravada na Serra do Mar e a 760 metros do nível do mar, Paranapiacaba tem a geografia e a meteorologia a seu favor durante o mês de julho. O público aprovou e quase 70 mil visitantes disputaram espaço para assistir no mês passado às atrações culturais do Festival de Inverno. Entre eles o presidente da Embratur, Eduardo Sanovicz, que ressaltou a importância dos moradores no processo turístico e destacou o desafio da atração de visitantes em outras temporadas. “Paranapiacaba já é candidata a figurar como opção entre as diversidades do País” — avalia.


Âncora do território


A vitrine aberta, porém, sofre baixas nos meses seguintes. “O festival é a âncora que coloca a Vila em evidência e incentiva os turistas a voltarem” — acredita o gerente de Turismo de Paranapiacaba, Carlos da Costa. Sem divulgação maciça nem agenda concorrida como ocorre em julho, muitos turistas retornam apenas na edição seguinte do festival, que completou quatro edições. Enquanto num único domingo 25 mil visitantes percorreram a Estrada Índio Tibiriçá para visitar Paranapiacaba em dia de agitação, em fins de semana comuns a circulação gira em torno de 2,5 mil.


A realização de evento semelhante ao Festival de Inverno em meses de altas temperaturas conta com a simpatia de Carlos da Costa. “Seria ótima idéia, desde que com um estudo de viabilidade. As opções de esporte, por exemplo, estão em alta o ano todo” — sugere. O subprefeito João Ricardo Caetano vê a iniciativa com cautela e argumenta que há suficiente distribuição da agenda durante as outras estações. “Programamos pelo menos um grande evento por mês. Além disso, entre novembro e janeiro a visitação cai por conta das férias” — argumenta o subprefeito, justificando que o público de Paranapiacaba é representado por visitantes de fins de semana que se aproveitam da proximidade da Região Metropolitana.


Se a concorrência é o argumento, vale lembrar que simultaneamente ao Festival de Inverno outros destinos mais badalados roubam a atenção dos turistas, como Campos do Jordão, Monte Verde (Minas Gerais) e até mesmo as serras sulistas. Embora distante do oceano, o subdistrito que em tupi guarani quer dizer de onde se avista o mar conta com trilhas para caminhada, corrida e cicloturismo, além de cachoeira para prática de cascading e áreas para tirolesa e rapel. Resta perguntar aos aventureiros em que época do ano preferem se arriscar em esportes de aventura. Se a resposta for positiva ao verão, encontra-se a vocação de um possível Festival de Verão, com a convocação de grupos culturais para completar os atrativos.


Eles dizem sim


Empreendedores da Vila aprovam a idéia de um calendário diluído. “Apesar de o Festival de Inverno ser um belo espetáculo, todas as energias concentram-se num só evento, enquanto que em outros meses muitos empresários ficam a ver navios” — conta Zélia Paralego, proprietária da Hospedaria Os Memorialistas. O comerciante Doel Sauerbronn compartilha da opinião. “Se colocarmos na ponta do lápis os gastos com funcionários e horas a mais de trabalho e o desgaste durante o Festival, nosso lucro é maior em fins de semana comuns” — completa.


Os empreendedores preocupam-se também com a qualidade dos serviços. O atendimento fica comprometido pela espera de quem aguarda um prato, por exemplo, e de quem forma fila. “O ideal é que Paranapiacaba seja estimulada à visitação todos os meses do ano” — defende Zélia Paralego. 


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