Sociedade

Paixão por carro
gravada no DNA

FERNANDO STELLA - 05/08/2004

São poucos os profissionais que transformam a paixão da infância em fonte de renda. Pelé e Ayrton Senna sempre deixaram claro que foram abençoados por Deus ao ficarem conhecidos graças ao que amavam. César Urnhani é mais um caso. A adoração por carros é como se velocidade, pneus e motores estivessem incorporados no próprio DNA. 


Da época em que, aos 12 anos, limpava o banheiro de oficina mecânica na Vila Assunção, em Santo André, até as aulas de direção defensiva para a cantora Sandy dentro de um BMW no Programa do Faustão, da TV Globo, foi amor à primeira vista. A mistura de oportunidade com capacidade o transformou aos 36 anos num renomado piloto de testes da Pirelli, conhecido nos campos de provas de montadoras e fabricantes de pneus até fora do País.


A história de ligação com veículos, no entanto, não ocorreu em velocidade desgovernada. Brotou de atenção redobrada em cada detalhe, como requer a profissão. Desde pequeno César notava que a atração pelos automóveis não era simplesmente por empurrá-los de um lado para outro. Chegou a quebrar grande parte dos carrinhos comprados pela mãe. 


Operação calculada


Não eram momentos de revolta. Queria reconstruir o brinquedo danificado. “Só desistia quanto encontrava uma solução. Era um desafio para mim” — lembra César Urnhani, considerado o piloto mais jovem a fazer testes em uma montadora no Brasil. Conquistou esse reconhecimento ao trabalhar na extinta Autolatina — joint-venture da Volkswagen com a Ford — com apenas 21 anos. 


Logo nos primeiros contatos com um carro de verdade, César se especializou em um detalhe pouco prazeroso para os mecânicos da época: alinhamento de rodas. Não só se aprimorou na atividade como, aos 17 anos, se tornou coordenador do Departamento de Acessórios, Ferragens e Ferramentas da CooperVolks. Ainda não era exatamente o trabalho sonhado porque tinha toque mais comercial, mas expôs o potencial desse jovem descendente de italianos. 


Depois de passar pela Autolatina, César foi chamado para ser piloto de testes da Pirelli, onde está desde 1996 e é hoje responsável pelos testes da nova suspensão de protótipos — veículos em fase final de averiguação antes de ser lançados no mercado. Também ajuda nas pesquisas e desenvolvimento de novos tipos de pneus. 


Tarefas múltiplas


Engana-se quem pensa que o trabalho de César Urnhani é única e exclusivamente verificar se o pneu está bom. Primeiro, que piloto de testes não significa apenas dirigir em alta velocidade e fazer manobras arriscadas. Pelo contrário. Significa, por exemplo, trocar as marchas suavemente, não frear bruscamente ou sentir qual a influência das molas no carro. “Não testamos um veículo ou um pneu apenas para nós, mas para o público consumidor” — acrescenta o piloto, que avalia desde carros pequenos até caminhões e ônibus.


O desafio de ser um profissional qualificado no mundo automobilístico não se limitou à prudência no volante. A persistência e o conhecimento do equipamento com que trabalha mudaram a cultura sobre automóveis. Após um ano de estudos, César Urnhani recorreu até a especialistas da área acadêmica para provar a tese de que não se deve colocar na frente os únicos dois pneus novos trocados. 


Por quê? “Quando um veículo derrapa na chuva, o pneu novo tem muito mais aderência do que o velho e faz com que se corra o risco de capotar. Se estiver na parte traseira, o acidente pode ser minimizado. Com certeza pode salvar vidas” — garante César, que confidencia orar todos os dias para agradecer nunca ter sofrido acidente e trabalhar com o que ama.


A opção pela multinacional italiana não foi por acaso. A marca de pneus é uma das mais fortes em competição. E foi num dos testes com BMW que César Urnhani conheceu um ídolo. Ao perceber as manobras que fazia com um carro da marca alemã, Ingo Hoffman quis saber quem era o audacioso piloto de testes. 


Sonho de criança


O bate-papo inicial com o 12 vezes campeão da categoria Stock Car rendeu convite para César fazer parte do grupo de instrutores de Driver-Training da BMW. “Não só conheci como trabalho com ele. É a realização de um sonho de infância” — vibra. Desde 1999, o piloto dá cursos de direção defensiva, como se comportar em situações de emergência e até como usar corretamente carros blindados. As aulas ocorrem a cada 15 dias no próprio campo de provas da Pirelli, em Sumaré, Interior paulista.


A trajetória de César Urnhani se deve muito à experiência nos campos de provas e das avenidas e estradas brasileiras. Ele permanece quase todo o tempo de trabalho atrás do volante de algum carro, seja para se locomover até Sumaré, para fazer testes de pneus da marca ou nas aulas de Driver-Training da BMW. O piloto de Santo André percorre em média 600 quilômetros diários. Isso mesmo. Mais ou menos como uma viagem de ida do Grande ABC até Belo Horizonte, todos os dias. Tudo bem diferente de quando trabalhava como piloto de testes de montadora. Na época, ficava o dia de trabalho atrás de um computador.


O profissional também apostou em uma maneira educativa de melhorar a postura dos motoristas e diminuir a assustadora média de 45 mil mortes por ano no trânsito brasileiro. Ele faz pelo menos cinco palestras mensais em empresas da região e do País. “Pretendo levar minha experiência às escolas e universidades brasileiras. O ensino começa quando se é criança” — argumenta César. Educação é o que não falta quando se trata do lado profissional. Antes de entrar pelo portão da Pirelli, o piloto de testes pratica hidroginástica e capoeira três vezes por semana. Enquanto o exercício físico dentro da piscina trabalha impacto e relaxamento, o jogo criado pelos escravos brasileiros mexe com reflexo, flexibilidade e batimentos cardíacos. “Isso é fundamental para minha profissão” — completa.


Paixão dividida


Há dois anos a paixão pelas quatro rodas foi dividida com o nascimento do filho Enzo, que ganhou o nome em homenagem ao fundador da indústria de carros esportivos Ferrari, Enzo Ferrari. A mudança na rotina diária do piloto só teve benefícios. “Me achava um pouco insuportável porque minha vida se resumia a trabalhar e falar de carros. O nascimento do meu filho mostrou que existe algo muito além dos automóveis” — define César. Mesmo assim, ele não disfarça alegria ao contar a emoção de ter alcançado 276 quilômetros por hora dentro de um Lamborghini Diablo num evento na Itália. “Foi meu recorde pessoal” — comemora o piloto, formado em desenho industrial. 


A profissão também possibilitou conhecer outras culturas ao redor do mundo. Alemanha, Estados Unidos, México e Japão são alguns dos países visitados. A trajetória de sucesso precoce não parou por aí. César Urnhani foi campeão das Mil Milhas de Interlagos em 2001. O inusitado da história é que era a primeira vez que participava de uma corrida de carros esportivos. Também fez a volta mais rápida — um minuto e 55 segundos — do Rally de Velocidade de Valinhos.


Isso sem contar que assinou contrato para ensinar direção defensiva no programa Auto Esporte, da TV Globo. Detalhou desde como se faz um desvio corretamente até como funciona cada equipamento do veículo. A cantora Sandy e a assistente de palco do Programa do Gugu, Helen Ganzarolli, são algumas personalidades que conheceram as habilidades do piloto. Também ficou no ar por mais de 30 minutos no programa Ana Maria Braga, igualmente da TV Globo, ao mostrar técnicas de direção defensiva. Uma coisa é certa: ninguém ligará a TV para escutar César Urnhani falar sobre como se faz uma comida ou para qual time torce. “Apareço na TV para divulgar meu trabalho. Só isso” — faz questão de dizer.  


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