Sociedade

Quem comprou o imóvel do
São Judas Tadeu? Segredo

DANIEL LIMA - 21/09/2016

Quem comprou o imóvel do desativado Restaurante São Judas Tadeu, celebrado ícone da gastronomia da Província do Grande ABC durante mais de meio século? Foram amigos do ex-presidente Lula da Silva. Não, quem comprou foi o milionário imobiliário Milton Bigucci. Errado, quem comprou em parceria foram Milton Bigucci e a turma relacionada a Lula da Silva. Errado de novo, quem comprou foi um emissário de um dos ramais dos evangélicos. Nada disso: que comprou foram investidores do show business.

Tudo isso (e muito mais em termos de especulação) transformou o negócio imobiliário num manancial de conjecturas. Certo mesmo é que o comprador (ou os compradores) do imóvel de 11,4 mil metros quadrados na Avenida Maria Servidei Demarchi, no Bairro Demarchi, não aparece nem na ponta dos acertos trabalhistas com funcionários. Tudo é tratado de forma sigilosa.

Por isso a pergunta mais instigante nestas alturas do campeonato não é procurar saber o destino de uso daquele imóvel que durante mais de meio século embalou o sonho de uma São Bernardo exuberante na economia. O Restaurante São Judas Tadeu fervilhava como centro de atratividade de funcionários e, principalmente, de executivos da ampla cadeia automotiva da região.

O que interessa mesmo nesse momento é saber quem comprou o imóvel. O direito do comprador (ou dos compradores) em seguir distante do palco de visibilidade que a aquisição do imóvel explicitamente impõe é inalienável, mas há um entorno de detalhes a desafiar quem pretende chegar mais próximo de um enredo que pode parecer estranho demais.

Ou é possível argumentar que o sigilo do negócio é defensável como direito privado quando muitos dos funcionários registrados e não registrados do Restaurante São Judas Tadeu ainda não receberam e vão demorar a receber os devidos direitos trabalhistas?

Por que tanto segredo?

Mais que isso: como entender que o negócio abrigou a todos os requisitos desejados e não se sustente com eventuais pés de barro de possíveis irregularidades se os funcionários que já tiveram acesso aos acordos financeiros receberam os respectivos valores homologatórios na boca do caixa de agências bancárias sem que se tenha constatado a identidade da empresa ou da pessoa física pagadora? Quem está por trás da compra do imóvel do Restaurante São Judas Tadeu é a pergunta mais insistente que ex-funcionários formulam sem obter resposta.

Vários dos funcionários se dividem em duas pontas de um novelo de interrogações que desafiam a curiosidade.

Um grupo é formado por trabalhadores que se sentem satisfeitos. Representantes da família Demarchi lhes comunicaram que teriam acesso rápido e justo aos direitos trabalhistas. Eles não encontraram dificuldades nas negociações já consumadas.

Outro grupo é formado por ex-funcionários que não se identificam com o primeiro. Eles vão ter de esperar muito tempo até que os acordos sejam costurados e homologados na Justiça do Trabalho. Vários deles têm audiência programada apenas para o segundo semestre do ano que vem. 

Sabe-se que são vários os advogados contratados por ex-funcionários para representá-los nas negociações com a família Demarchi. Nenhum dos profissionais de Direito se mostra disposto a esclarecimentos.

Motivos às dúvidas

As dúvidas sobre a identidade de supostos compradores do terreno em que foi construído o prédio do Restaurante São Judas Tadeu não surgiram por combustão espontânea. Para cada nome citado há algum tipo de detalhamento. O suposto grupo próximo a Lula da Silva teria sido representado por uma agência imobiliária com sede em Diadema. As informações teriam vazado por descuido de um dos familiares dos vendedores.

Já sobre a intervenção de Milton Bigucci, as informações não contemplam intermediários. Mais de um funcionário afirma que o empresário dono do conglomerado MBigucci, de forte relacionamento com a Administração Luiz Marinho, um dos políticos mais íntimos do ex-presidente Lula da Silva, teria participado pessoalmente de reunião com integrantes da família Demarchi no final do ano passado, pouco antes do anúncio do fechamento do restaurante. Há quem garanta que Milton Bigucci bancou com cartões corporativos o pagamento de salários atrasados dos funcionários da empresa. Tudo dentro de um pacote de venda do imóvel.

Uma empresa ligada à área de entretenimento teria participado indiretamente das negociações porque pretenderia transformar o restaurante em casa de espetáculos.

Música embala gastronomia

O Restaurante São Judas Tadeu ganhou fama nacional também porque além do prato consagrado de frango com polenta introduziu no cardápio disputadíssimas duplas de cantores sertanejos, entre outras atrações musicais. Entretanto, como a gastronomia jamais deixou de ser o carro-chefe do restaurante, as noitadas musicais foram adaptados num palco de acústica e arquitetura pouco apropriadas, embora a tecnologia sempre amenize deficiências estruturais.

Ou seja: as características físicas do imóvel jamais combinaram com uma casa de espetáculo que complementarmente desfrutaria da gastronomia. Sem grandes mudanças físicas o São Judas Tadeu ou qualquer nova marca que vier a ser adotada será sempre um restaurante com puxadinho musical.

Há muitas dúvidas sobre pontos importantes das negociações que culminaram na venda do imóvel do Restaurante São Judas Tadeu. A marca do empreendimento não faria parte do pacote de negociações. Tanto que a família Demarchi, após anunciar no final do ano passado a desativação do megarestaurante para três mil pessoas, aposta na expansão gastronômica em forma de franquias de pequeno porte, apropriadas a shoppings centers e ruas comerciais.

Declarações da família

Albino Demarchi é um dos acionistas do Restaurante São Judas Tadeu. Conversei com ele ao final da tarde de ontem. Ele fez vários esclarecimentos, mas não retirou a interrogação do título deste artigo. Há cláusula de confidencialidade a impedir a revelação do nome do comprador do imóvel. Albino Demarchi descarta as versões que colocam Lula, Milton Bigucci, evangélicos e outros mais no rol de compradores. Mas não tem certeza se o acerto com o que disse ser com representantes de um grupo imobiliário  associado a um de mídia da Capital estaria sendo utilizado para esconder os verdadeiros proprietários: “Não acredito nisso, mas não posso garantir. Seria um prazer vender o imóvel para o Bigucci, por exemplo” – afirmou. E refutou, em seguida, que o empresário do setor imobiliário houvesse participado de reunião no restaurante ou que tenha antecipado com cartão corporativo o pagamento de contas da empresa, como afirmam vários ex-funcionários.

Albino Demarchi elenca alguns dos motivos que levaram a família a vender um negócio que era referência da área na Província do Grande ABC. Cita o cansaço de quase 50 anos de trabalho sem direito a descanso. Também lamenta o empobrecimento econômico e o caudal de concorrentes que infestam a região e dividem ainda mais o já debilitado mercado gastronômico.

Desindustrialização pesou

A desindustrialização e as novas tecnologias enxugaram os quadros de trabalhadores de chão de fábrica e, principalmente para o São Judas, de cargos executivos. As áreas de compras das empresas, um dos principais filões de clientes, perderam a força presencial de profissionais em favor de relacionamentos digitais.

Albino Demarchi participou ativamente das negociações. Não afasta a  possibilidade real de -- caso seja levada adiante a versão de instalação de casa de espetáculos -- os Demarchi participarem como sócios do empreendimento que poderia envolver ou não a valiosa marca São Judas Tadeu.

O mais provável, segundo observadores especializados e também o ex-proprietário do Restaurante São Judas Tadeu, é que o contexto econômico da região e a alta densidade populacional daquela região transformarão o terreno em condomínio residencial de classe média baixa. É por conta disso que o empresário Milton Bigucci passaria à condição de favorito entre as versões sobre a verdadeira identidade do comprador, negada por Abílio Demarchi.

A vinculação do empresário ao grupo ligado ao presidente Lula da Silva, inclusive o prefeito Luiz Marinho, não é obra do acaso na bolsa de apostas. Bigucci e Marinho viraram aliados já no primeiro mandato do petista, em meados de 2010, após manifestarem-se adversários nos primeiros tempos do então novo administrador de São Bernardo.

Luiz Marinho e Milton Bigucci uniram-se na campanha eleitoral de 2012, quando o prefeito se dirigiu aos funcionários do conglomerado MBigucci, em evento na sede da construtora para pedir votos à reeleição.

Cobertura à irregularidade

O encontro foi divulgado com ênfase especial pelos assessores do petista por conta do cargo de presidente que Milton Bigucci ocupava no Clube dos Construtores do Grande ABC. Antes disso, a gestão de Luiz Marinho fez das tripas coração para embananar as investigações do caso do empreendimento Marco Zero, da MBigucci.

O arremate completamente irregular da área em licitação pública foi denunciado por este jornalista ao Ministério Público de São Bernardo. Entretanto, servidores públicos municipais sonegaram documentação comprobatória das irregularidades ao MP. Não há desdobramentos do caso, apesar do amplo conhecimento  da Corregedoria-Geral do Ministério Público Estadual.  Até o requisitadíssimo criminalista José Roberto Batochio, da equipe que defende o ex-presidente Lula da Silva em vários processos, foi contratado pela MBigucci.

O valor de venda do imóvel do Restaurante São Judas Tadeu também é uma incógnita que Albino Demarchi não desfaz. Há avaliações que colocam o metro quadrado do terreno um pouco acima de R$ 2 mil nestes tempos de crise imobiliária. Outros corretores de imóveis sugerem que o conjunto formado por terreno e prédio não custaria menos de R$ 45 milhões.

Dívidas esquadrinhadas

Há estudos a indicarem que a dívida da família Demarchi com os perto de 120 funcionários ultrapassaria, ao final dos acertos, a R$ 5 milhões. Outros R$ 5 milhões seriam o passivo com os cofres da Prefeitura de São Bernardo, em forma de IPTU (Imposto Predial e Territorial Urbano), além de tributos estaduais e federais. Albino Demarchi confirma os débitos fiscais sem, entretanto, definir valores. Tudo estaria equacionado num cronograma que consolidaria a validade do contrato de venda do imóvel.  Também constam da lista de credores fornecedores de produtos e serviços.

A pergunta sobre a identidade do comprador (ou compradores) da área e das instalações do Restaurante São Judas Tadeu não pode ser entendida como mero capricho jornalístico. Há indicativos de que o silêncio em torno do nome não seria apenas estratégia de negócio. 

Albino Demarchi não parece tergiversar sobre o assunto, mas chegou a admitir como hipótese a possibilidade de o negócio ter sido concretizado com alguém que não necessariamente seja o proprietário (ou proprietários) do imóvel -- embora tenha insistido na dificuldade de dar sobrevida a essa variável. Ou seja: ele descarta eventual utilização de laranja ou laranjas à aquisição da área, mas não seria capaz de jurar que não exista algo além do consumado formalmente. 

Em circunstâncias normais de tempo e temperatura, um negócio dessa monta não teria obedecido a uma lógica de aparentes obscuridades. Em tempos de Lava Jato a rondar a Província do Grande ABC, qualquer transação imobiliária de configuração pouco convencional ganha ares de mistério.



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