O manequim internacional em que se transformou a Universidade Federal do Grande ABC (UFABC) desde a incubadora de proselitismos que a embalou e a tornou realidade há uma década se confirma mais uma vez, com a divulgação de novo ranking. Quando prevalecem as passarelas na metodologia academicista e se joga às beiradas das estradas do desenvolvimento econômico a objetividade dos centroavantes bons de bola, tudo caminha favoravelmente à UFABC. E lamentavelmente desastroso à região.
Mesmo nesse caso, de internacionalização, o melhor é os defensores do modelo da UFABC segurarem os excessos de entusiasmo. O posicionamento anunciado só não é vexatório quando contraposto à euforia da divulgação porque flerta muito mais com o patético.
O uso das metáforas “manequim” e “centroavante” foi registrado neste espaço pela primeira na edição de 12 de setembro de 2013. Àquela ocasião, sob o título “Ranking Folha prova: UFABC é manequim, não centroavante”, me referia à segunda edição do RUF (Ranking Universitário Folha), produzido pelo jornal Folha de S. Paulo. Aquele indicador comprovava que a Província do Grande ABC trocou a imperiosidade de contratar um centroavante com habilidades econômicas pelo acessório de manequim destinado a passarelas internacionais.
Naquele ranking – e as edições posteriores do RUF seguiram a mesma toada – a UFABC ocupava a última posição possível no indicador “mercado de trabalho”.
No bloco do fundão
O ranking elaborado pela Times Higer Education (THE), tradicional instituição dos Estados Unidos que avalia o Ensino Superior em todo o mundo, coloca a UFABC, vejam só, no bloco posicionado entre as posições 600 a 800. Colocações individuais valem somente até o número 200.
A manchete de página interna que o Diário do Grande ABC publica hoje (com direito a discreta chamada de primeira página) é de triunfalismo ameaçador: “UFABC é a 3ª melhor universidade do Brasil”. No caso, a escola da região está atrás apenas de USP e Unicamp, que também caem pelas tabelas.
É claro que a metodologia adotada por aquela instituição internacional desloca a empregabilidade dos universitários – resumo da ópera de que tanto precisamos na região por motivos mais que conhecidos e desesperadores – às calendas gregas. Não há especificidades sobre o peso do critério de “transferência de conhecimento para a sociedade”.
Qualquer que seja o peso relativo do quesito, certamente a UFABC estará próxima de zero. A integração com as instituições privadas, públicas e sociais da região (igualmente relapsas) não passa pelo crivo de seriedade quando observada ao longo dos tempos. Algumas ações pontuais e improdutivas na maioria das vezes só comprovam a deficiência genética com que foi concebida a UFABC.
A reestruturação econômica da Província do Grande ABC foi sumariamente desdenhada nos ensaios gerais que sensibilizaram o governo federal a aprovar a criação da escola. Algumas tentativas de correção de rota são a admissão tácita da barbeiragem do nascedouro e a consumação prática da subsequente incapacidade de entender o que se passa na região. Esses acadêmicos são uma tribo que junta o ruim ao péssimo sem pestanejar.
Manipulação de resultados
Não é a primeira nem será a última vez que decido entrar em campo quando a UFABC vira objeto de endeusamento jornalístico – sempre seduzida pelas fontes mais que viciadas de informações.
Quando digo que o compromisso dos veículos de comunicação ultrapassa os limites tradicionais e convenientes de repassar informações de terceiros como verdades absolutas, sem contrapontos providenciais, não faço outra coisa senão desidratar os excessos.
A manchete de página interna do Diário do Grande ABC de hoje eleva a UFABC a posição nacional que não diz nada (nem se sabe quantas instituições brasileiras participaram em forma de inscrição) e faz incursão quase obrigatória, quando não envergonhada, sobre o posicionamento internacional.
Num mundo globalizado em todos os sentidos, principalmente econômico, constar do fim da fila de ranking prevalecentemente acadêmico, ou seja, sem compromisso com a competitividade internacional, é muito mais que a confissão do fracasso da UFABC como organização importante à recuperação regional – é a desfaçatez em estado bruto da manipulação dos resultados.
Na reportagem publicada hoje no Diário do Grande ABC, ouviu-se o reitor da UFABC, Klaus Capelle. Deveria ser ouvido também um dos muitos especialistas nacionais que estão do outro lado da manjadíssima ideologização universitária.
Sugeriria Valmor Bolan, craque na matéria e o mais devastador entre os críticos (poucos por sinal, porque a sociedade da região é uma lástima) do modelo do Ensino Superior Público no País. Sim, o mais devastador (e certeiro) porque atribuiu à UFABC, desde seu lançamento viciado pelo academicismo estelar, a condição de “barriga de aluguel”.
Reitor com a palavra
O que disse ao Diário do Grande ABC o atual reitor da UFABC, Klaus Capelle, especificamente quando se cruzam os resultados do ranking com ganhos da Província do Grande ABC? Leiam, leiam, mas muito cuidado para não caírem do andaime: “As nossas pesquisas científicas estão à disposição das indústrias da região, do setor público. Isso para as áreas tecnológicas, ambientais e de políticas públicas, entre outras. É importante deixar isso registrado. Queremos contribuir com isso”.
Tais declarações levam o analista a pelo menos duas especulações:
Primeiro -- A UFABC é uma usina de ideias miraculosas que colocaria a indústria, o setor público e a sociedade da região na rota do desenvolvimento sustentado mas, por mais que tenha boa parte das respostas às agruras locais, essa riqueza está armazenada em suas respectivas instalações à espera de interessados.
Segundo – O reitor da UFABC não passaria de arrematado propagandista de fantasias resolutivas, as quais instrumentaliza com a força da instituição para sugerir ao distinto público que os representantes da região são um bando de imbecis sem capacidade de enxergar soluções tão próximas.
Entre a primeira alternativa e a segunda, fico com a segunda. Conheço esse gado. Tanto o gado próprio das instituições locais quanto o gado estranho, dos mandachuvas universitários. Não estamos derretendo economicamente por obra do acaso. É indispensável um acúmulo histórico de incompetências.
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17/02/2026 MANDACHUVAS E MARIONETES