Joelson de Moura Franco certamente não consegue se lembrar do que fazia na noite de 2 de agosto de 1990. Com apenas 10 anos, devia estar envolvido em alguma traquinagem típica da idade sem imaginar que 14 anos depois seu destino estaria intimamente ligado ao da Orquestra de Violeiros de Mauá, fundada naquele mesmo dia. O rapaz de cabelos moldados com gel e carregando no rosto as últimas marcas da adolescência recém-encerrada tornou-se o regente do grupo criado para difundir a verdadeira moda de viola e celebra a escolha pouco comum para um jovem de sua idade, sem medo de ser feliz.
Na contramão das baladas que varam as madrugadas e da estratégia mercadológica que move a indústria fonográfica, Joelson chegou à Orquestra de Violeiros mais por intuição do que por determinação profissional. Ele tinha somente 13 anos quando decidiu entrar para um curso de violão e seu professor era justamente um dos fundadores do grupo musical.
Bastou assistir a uma apresentação para encantar-se com aquele pessoal, que além de instrumentos utiliza a alma para interpretar clássicos de raiz como Chico Mineiro e Menino da Porteira. “Foi como um chamado de Deus, uma espécie de dom divino e eu acredito muito nisso” — emociona-se o hoje regente.
De volta ao passado
O tom da declaração remete Joelson a um passado bem próximo e o coloca na galeria restrita de jovens que já têm história de vida para contar. O caminho até a regência do grupo seguiu a trajetória natural dos predestinados e coroou a dedicação de quem em nenhum momento utiliza o cargo como símbolo de poder ou status.
Joelson Franco está na regência da Orquestra de Violeiros de Mauá há cinco anos, faz o trabalho voluntariamente como todos os outros 60 integrantes e aprendeu que certas coisas realmente não podem ser pagas com dinheiro. "É muito gratificante ouvir os aplausos do público e arrancar lágrimas de emoção da platéia” — entusiasma-se.
Contador de históricas
A frase pode até carregar alguns acordes de demagogia, mas Joelson é rápido em desfazer qualquer interpretação equivocada. Entre as inúmeras histórias que coleciona está a de uma senhora que se sensibilizou a ponto de perder o controle do choro e precisar de socorro. Outra lembrança marcante é a da apresentação feita nos corredores da Santa Casa de Mauá e que levou muitos pacientes a pularem dos leitos e se arrastarem com soro a tiracolo atrás do grupo musical.
Diante de situações tão arrebatadoras, a pergunta é instantânea: o que a Orquestra de Violeiros de Mauá tem de tão carismático para lotar teatros, igrejas e praças e provocar as mesmas reações que se vê em shows de grandes astros? “União, simplicidade e humildade na dose certa. Essa é a receita, mas não sei explicar a fórmula. Só sei que é assim” — é enfático Joelson, ao pronunciar uma frase muito parecida com a do personagem Chicó, de O Auto da Compadecida. O bordão não sei, só sei que assim é usado por Chicó em várias passagens do filme para tentar explicar o inexplicável.
Também parece de difícil explicação o fato de um rapaz de apenas 24 anos comandar musicalmente um grupo em que o mais novo tem 11 anos, o mais velho 71 e a média de idade é quase o dobro da sua. É claro que Joelson Franco não teria chegado à regência se não tivesse habilidade, técnica e talento com instrumentos musicais. Além do violão, ele toca viola, teclado, cavaquinho e bateria.
Currículo genético
O currículo, no entanto, está recheado ainda pela genética — o avô era violeiro dos bons e o rapaz cresceu ouvindo a verdadeira música sertaneja — e pela própria personalidade do jovem maestro. Apesar da pouca idade, Joelson já aprendeu o quanto a convivência com os mais velhos, muitos dos quais carregam sólida formação religiosa, é capaz de enriquecer o crescimento pessoal. Na verdade, ele não se considera um jovem fora de sua época só porque integra a Orquestra de Violeiros. “Adoro ir a shopping center, sair com a turma e ligar o som no último volume” — confessa ao lembrar que ainda integra o fã clube de Sandy e Júnior.
Das 700 apresentações que a Orquestra de Violeiros de Mauá contabiliza desde a fundação, o regente participou de pelo menos 500. Esse número ultrapassa os compromissos de alguns artistas de primeiro time que programam apenas uma temporada anual de apresentações, mas não serve de base para comparação porque está em outro contexto. A Orquestra de Violeiros está fora do circuito comercial e se apresenta tanto para 100 quanto para 10 mil espectadores — desde que o anfitrião patrocine o transporte e a estadia dos músicos.
Prioridade ao grupo
Por conta dessa peculiaridade, Joelson Franco passa, às vezes, mais tempo com o grupo do que com a mãe e os três irmãos. Não à toa, transformou a orquestra em sua segunda família e curte tanto dormir em alojamentos improvisados quanto num hotel cinco estrelas se estiver com o grupo. “É um ambiente no qual os valores ensinados por minha mãe estão sempre presentes” — entende. A mãe Nilce, aliás, é uma das principais incentivadoras da carreira voluntária e diversas vezes assumiu o papel de motorista para viabilizar a participação do filho em ensaios e apresentações.
A dedicação de Joelson à música tem a medida exata da disponibilidade de tempo do jovem regente. Como trabalha na função de auxiliar administrativo, sobram apenas o final de semana, o horário de almoço e os dias úteis em que não estende o expediente para além do horário comercial para dedicar-se aos compromissos com a orquestra. Mesmo assim, o maestro ainda consegue dar aulas de violão aos sábados e domingos e encontrar uma brecha para pesquisar as músicas que vão compor o repertório da orquestra entre os mais de 200 CDs de música sertaneja que coleciona. O repertório já tem mais de 100 composições e sempre é necessário incluir novidades. “Mas nunca podemos tirar os clássicos como Saudade de Minha Terra, senão o público reclama” — explica.
Prudência mantida
O grupo foi fundado pelos frequentadores da Paróquia Nossa Senhora das Vitórias, já tem quatro CDs gravados e só lança o próximo quando o dinheiro arrecadado com a venda das cópias for suficiente para custear a produção. A fórmula financeira doméstica revela a prudência de dar sempre o passo do tamanho da perna, ajuda a manter a essência voluntária do grupo e foi transportada para a própria vida pessoal de Joelson Franco.
O regente sonha em fazer uma faculdade de música, mas ainda precisa reforçar o pé-de-meia para garantir o custeio dos estudos. Ele sabe que a técnica apurada nos ensaios e apresentações da orquestra, o autodidatismo e a determinação foram alavancas importantes para o aprimoramento do talento nato. Mas como traçou objetivos para um dia sobreviver da música, quer complementar a habilidade com formação acadêmica. “Meu objetivo não é simplesmente conseguir um diploma. Vou atrás de conhecimento que me permita realizar mais um projeto de vida” — explica.
O projeto de vida, nesse caso, é dar rumo profissional à dupla Roger e Rogério, da qual o regente participa travestido do primeiro pseudônimo há pouco mais de três anos. A formação ainda está em busca de espaço no circuito comercial e em nada interfere no trabalho de Joelson na Orquestra de Violeiros de Mauá. Pelo contrário, é um complemento.
Da orquestra, aliás, o regente levou para a dupla o gosto pela moda de viola, característica que ele enxerga como importante diferencial para ganhar algum espaço na disputadíssima seara que levou ao estrelato Chitãozinho e Xororó, Zezé di Camargo e Luciano e tantos outros. “Sei que é difícil, mas a orquestra prova todos os dias que a música é capaz de quebrar muitas barreiras” — anima-se.
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17/02/2026 MANDACHUVAS E MARIONETES