Quem comprou apartamento ou sala comercial no entorno do traçado do monotrilho que vai passar em São Bernardo, principalmente nas imediações da Avenida Aldino Pinotti, foi enganado triplamente. Mas nem por isso os infratores deliberados ou circunstanciais vão pagar algum preço por isso, exceto a desarrumação do mercado imobiliário que há muito se manifesta por crescer muito além do razoável que o PIB, por exemplo, sugere e recomenda.
Enquanto o lobo mau da especulação imobiliário passou impunemente por aquela geografia, os chapeuzinhos vermelhos dos ludibriados pagam o pato porque acreditaram que existe legislação desaconselhadora de trambiques no País, especificamente nesta Província.
Vou listar os três grandes crimes consumados em detrimento dos compradores de imóveis comerciais e residenciais na macroárea mencionada.
Informar ao distinto público durante a etapa de vendas que o melhor negócio do mundo era trocar endereço da Capital por um imóvel em São Bernardo, a preço muito mais em conta e com logística muito mais eficiente de ida e vinda do trabalho, dada a proximidade da Via Anchieta e de outras artérias com os bairros paulistanos.
Informar ao distinto público que o que se construiria paralelamente ao traçado já existente de avenidas que ligam os extremos do trajeto planejado pelo Metrô não eram composições que se moveriam principalmente no subterrâneo, como metrô de verdade, metrô que todos conhecem de forma clara e cristalina, não em forma dessa coisa horrorosa chamada monotrilho, cujos estragos por onde passa estão em todas as literaturas de gente que conhece urbanismo.
Levar ao conhecimento do público interessado ou a se interessar por novo endereço residencial ou comercial que o metrô (sim, sempre o metrô, não o monotrilho, primo pobre em tecnologia e em conforto) chegaria em breve, antes mesmo da inauguração formal dos empreendimentos imobiliários e, com isso, proporcionaria carga adicional de produtividade no trabalho e descanso em casa.
Transgressões prolongadas
O que se praticou durante largo tempo e que impactou principalmente os incautos que acreditam na seriedade dos negócios reúne todas essas categorias de equívocos.
O condomínio Domo, no entorno do Paço Municipal de São Bernardo, é simbólico na desfiguração da ética como instrumento natural de responsabilidade compartilhada.
Venderam-no como o caminho mais curto a São Paulo, principalmente para quem morasse nas rebarbadas da Capital. Hoje há levas de moradores interessadíssimos em mudar de endereço e de retornar à Capital. Caíram no conto da logística fenomenal quando visitaram os estandes de venda aos finais de semana de calmaria no trânsito. Foram levados a acreditar na exceção, não na regra de congestionamentos a dar com pau.
Quem tem alguma dúvida sobre os estragos basta plantar-se nas imediações do Jardim do Mar, onde moro, por exemplo, e acompanhar o acender das luzes dos apartamentos.
Esse procedimento dita o ritmo da verdade dos fatos. Quando as salas-de-estar estão iluminadas, pelo menos um dos moradores chegou em casa. O que existe, lamentavelmente, é uma conexão dolorosa entre o volume de veículos que teimam em retardar chegada principalmente de São Paulo e a manutenção de luzes apagadas.
Os congestionamentos na Rua Kara, por exemplo, local em que a Prefeitura de Luiz Marinho inaugurou uma obra pela metade, sem dar continuidade pós-Avenida Pereira Barreto como constava do projeto, são tormentos para quem ocupa os veículos e irritantes aos moradores já instalados em suas respectivas residências. Até os pássaros da Cidade da Criança perderam a paz.
Caos do sistema viário
Há buzinaços todas as noites. Há uma dependência doentia do ônus do trânsito em outras áreas, principalmente na Via Anchieta e na Avenida Piraporinha. É infernal a barulheira de quem não vê a hora de chegar em casa antes que a novela das nove e meia comece. O tempo de espera nos faróis irritariam até Dalai Lama.
Há obras inacabadas no entorno mais ligado ao Paço Municipal. Ali multiplicam-se descontentamentos. A vazão de veículos é parcialmente interrompida. Viramos uma republiqueta com quase 30% de mão de obra alocada na Capital. Não nos preparamos inclusive para o desencaixe viário que isso redundaria.
Fico a imaginar o que nos espera a todos no futuro diante da inexorável, embora demorada, ocupação comercial e residencial dos imóveis do corredor ampliado do monotrilho. Há uma verdadeira cordilheira de concreto que começa a ser entregue após longo período de atraso. O condomínio Domo, por si só encrenca imobiliária e viária que preencheria todos os compêndios de extravagância e desrespeito à engenharia de trânsito e à qualidade de vida, ganhou concorrentes menos sofisticados, mas igualmente destinados à queima de estoques e de paciência.
Se hoje já é um deus-nos-acuda dirigir-se ao trabalho ou à residência em horários de pico, os quais se ampliam cada vez mais, imaginem o que ocorrerá quando a economia for retomada (devagar, devagar, será retomada) e, principalmente, quando novos moradores e novos funcionários e empreendedores forem às ruas.
Não é das melhores a perspectiva de chegada do monotrilho tão decantado e ocupante de manchetíssimas ufanistas de jornais locais. O governo do Estado e o governo Federal, que vão dividir não necessariamente em partes iguais o preço dessa geringonça, estão literalmente quebrados.
Esticar o cronograma para além de 2020, muito além de 2020, talvez seja a decisão mais sensata. Mas como ficam os compradores de apartamentos e salas comerciais que acreditaram viver no reino da tranquilidade com a combinação dita perfeita de moradia mais em conta e bem localizada e transporte público à porta?
Multiplicidade de delitos
Sem meias palavras ou expressões, diria que o que tivemos num passado recente, durante período de febre imobiliária cujos excessos saltaram até mesmo diante de os olhos mais ingênuos, foi uma acintosa combinação de esperteza, abuso, sofismas e farta campanha publicitária a reunir todos esses adereços de enganação.
Também foi por conta disso, de uma crônica anunciada, que em nove de dezembro de 2011 produzi uma análise sob o título “Nossas propostas para humanizar o predatório mercado imobiliário”.
Apresentei o que chamei de Agenda para o Desenvolvimento Sustentável do Mercado Imobiliário. Foi como se chamasse para brigar o então presidente do Clube dos Construtores, Milton Bigucci. Acostumado a nada fazer para o conjunto da sociedade, o milionário sentiu-se ofendido por alguém, que não é do ramo, ter-se lançado às invasivas proposições. “É um chute certeiro no vácuo de comprometimento de uma instituição que trata diretamente com um produto da cesta básica”, escrevi entre inúmeros parágrafos.
Entre as medidas que sugeri num artigo denso e que pode ser capturado no acervo desta publicação estava a composição de um Conselho de Ética contando com representantes da sociedade civil. Expliquei: “O organograma da Associação dos Construtores não pode prescindir de instância que exerça severa vigilância sobre a gestão de uma atividade com forte imbricamento social. Um Conselho de Ética formado por instâncias da sociedade, entre as quais a OAB (Ordem dos Advogados do Brasil) e o Procon, dinamitaria práticas corporativistas que sequestram os valores de cidadania”.
Preocupação antiga
Também naquele documento recheadíssimo de soluções ao alcance de uma entidade que ainda está a dever maior compromisso com a sociedade constava o enunciado “Projetos para ocupação harmoniosa dos principais corredores viários e seus entornos”.
Reproduzo o complemento da proposta em forma de explicações: “A febre do mercado imobiliário longe está de apresentar sintomas de loucura. Muito pelo contrário: os investimentos são planejadamente executados para obterem o maior índice possível de retorno financeiro. Os principais corredores viários são o centro de ataques, intensificando-se medidas de elevação do preço do metro quadro como mecanismo retroalimentador de novos empreendimentos. A participação do Conselho de Ética no aprofundamento de análises de especialista que seriam recrutados para mergulhar nas entranhas dos investimentos ocorreria na mesma raia de responsabilidade na aprovação de cada projeto nas instâncias públicas. Os impactos sociais e ambientais de cada lançamento imobiliário nos eixos viários mais suscetíveis à demanda veicular seriam detalhadamente medidos de modo a não se incorrer no agravamento do quadro de desastre associado à massificação de veículos” – escrevi em2011.
Com um retrospecto desses (e há muito mais intervenções deste jornalista em defesa de um mercado imobiliário que interessa aos bons empreendedores do setor, em detrimentos dos bandidos sociais que também o infestam) tenho toda a autoridade do mundo para condenar o engodo coletivo de que foram vítimas quem acreditou que monotrilho é metrô, quem supôs que São Paulo ficaria mais próxima ao se mudar para São Bernardo e que o mesmo monotrilho chegaria inclusive antes da entrega das obras imobiliárias.
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17/02/2026 MANDACHUVAS E MARIONETES