Sociedade

Quando os prefeitos vão ser
exigidos como os treinadores?

DANIEL LIMA - 16/12/2016

Quem não conta com o tempo como aliado a análises é jumento juramentado. Por isso não me apetece a ideia de analisar antecipadamente os reforços dos times de futebol da região que vão disputar as Séries A e B do Campeonato Paulista do ano que vem e tampouco os nomes que brotam para compor secretariados municipais dos novos prefeitos locais.

Trata-se de missão de alto risco, por mais que o passado de uns e outros seja promissor ou desabonador. Aprendi com o tempo que não há de voltar mas que pode ser muito útil para quem não tem compromisso com erros que o melhor mesmo é esperar pelo desempenho conjunto. 

Sim, desempenho conjunto, porque tanto no futebol como na gestão pública uma ou mesmo algumas andorinhas não fazem verão. Se não houver combinação de fatores que poderiam ser resumidos em algo como “espírito de equipe”, entre outros atributos, não existe alternativa senão o fracasso.  Estão aí os prefeitos atuais que não me deixam mentir. E poderão estar os próximos em situação semelhante. 

Exposição muito maior 

A diferença entre os reforços que estão chegando às equipes da região para a próxima temporada e os secretários que estão sendo anunciados pelos novos prefeitos é que os primeiros serão submetidos a confrontos muito mais abertos, transparentes, competitivos e tudo o mais. Já os segundos poderão ter deficiências minimizadas, quando não neutralizadas ou negadas porque o mundo da gestão pública nem de longe conta com os requisitos de aferição do mundo do futebol. 

As equipes de futebol aqui ou na maioria dos lugares são questionadas por quem é do ramo e mesmo por quem não o seja porque os resultados finais a cada nova rodada são cruéis ou compensadores. Já os secretários municipais gozam de imunidades de costuras entre agentes públicos e a mídia sempre condescendente, além de contarem com o aparato protetor de agremiações partidárias sem compromisso com a efetividade de conquistas. 

Por mais que uma contratação como reforço de um elenco pareça um tiro nágua, porque o contratado vem de fracasso ou de fracassos anteriores, o futebol é sempre capaz de pregar uma peça. Há estorvos que de repente se transformam em heróis. Basta uma meia dúzia de jogos e tudo estará resolvido a seu favor. Também não faltam casos que contrariam o entusiasmo da chegada de jogadores e treinadores que carregam prestígio da temporada anterior. E que se dão mal nos novos ares. 

Na gestão pública há casos singulares de gente competentíssima que resiste bravamente a governos incompetentes e perdulários, mas não faltam exemplos de gente altamente qualificada que, por razões as mais diferentes, mergulham no redemoinho de desmoralização de uma gestão imprevidente. 

O melhor é esperar 

Estou acompanhando atentamente tanto os anúncios dos secretariados municipais das próximas gestões dos prefeitos eleitos em outubro como dos quatro principais times da região que se pretendem vencedores na temporada que vem. Sei que um lado meu de crítico quer que quer meter o bedelho tanto num bolo quanto no outro, mas estou resistindo e vou resistir para valer, exceto num ou noutro caso mais dantesco de estupidez anunciada ou de genialidade configurada. 

O que faz mesmo a diferença no futebol e na gestão pública é que os simplistas (no bom sentido do termo) chamam de capacidade coletiva, conjunto, compartilhamento de planejamento e decisões. 

Ouvi outro dia o comentarista Casagrande desancar o pau no elenco do Corinthians que acabou em sétimo lugar no Campeonato Brasileiro. Corintiano doente, Casagrande afirmou que o elenco precisa ser renovado em 85% dos nomes. Uma besteira sem tamanho. 

Ex-centroavante que conhece futebol apenas na especificidade da função que executou com brilho mas sem a genialidade que alguns lhe atribuem, Casagrande pensa e fala com o fígado quando se trata de Corinthians. Não foi a primeira vez e nem terá sido a última que discorreu de forma genérica sem chegar ao ponto principal que tolhe boa parte do raciocínio exposto: o Corinthians passou por dois desmanches de jogadores na temporada e, mais que isso, perdeu o melhor treinador e a melhor comissão técnica do futebol brasileiro. O sétimo lugar só foi surpresa para quem não conhece bem futebol e minimiza a importância do coletivo. 

Muito mais que nomes

Não se faz uma boa equipe no futebol e tampouco o comando de uma administração pública sem gente competente que seja igualmente entrosada, que vista a camisa, que entenda do riscado específico e do conjunto do projeto. 

O time de 11 comandantes que vão atuar em duas frentes importantes da Província do Grande ABC no ano que vem – os sete prefeitos e os quatro treinadores das equipes locais – não poderá jamais perder o contato com a verdade de que por melhores que sejam individualmente, tanto eles quanto seus comandados, o que vai fazer mesmo a diferença será o conjunto. Nada resiste à coletivização de propósitos e competências. Um time que pensa dessa forma é maior que a soma das partes. Um time que despreza esse conceito será sempre inferior às peças individuais que o compõem. O bicho de sete cabeças da Província do Grande ABC é prova provada disso. 

Lamento apenas que na gestão pública os eventuais enganadores, trapaceadores, negligentes, individualistas sem compromisso com o coletivo, tenham muito mais resistência a eventuais perdas de titularidade, porque as exigências se diluem entre outras razões porque a sociedade não os cobra na intensidade com que os torcedores de futebol vão a campo prontos para aplaudir mas irredutivelmente preparados para jogar pedras, se assim entenderem. 

Perfis diferentes 

Há técnicos de futebol que costuram com vagar e empenho a personalidade de uma equipe, caso de Luiz Carlos Martins, no São Caetano. Esse ganhador de títulos no Interior de São Paulo mas que insiste em bater na trave no São Caetano, com quatro tentativas palpáveis nos últimos dois anos, oferece uma garantia quase total à regularidade no desempenho da equipe. Uma regularidade positiva, sem sobressaltos com o rebaixamento e um flerte permanente com o acesso.

Já há prefeitos que enunciam nos primeiros meses de gestão uma incorrigível vocação ao fracasso e ao desânimo, caso de Paulo Pinheiro, em São Caetano. Ou que enganam durante algum tempo, até que a cortina da encenação caia de vez, caso de Luiz Marinho em São Bernardo. Outros também têm desempenho rigorosamente inabalável, como Carlos Grana à frente da Prefeitura de Santo André. Pena que tenha sido num ritmo moroso, fantasioso, praticamente inútil. Muitos dos secretários de Carlos Grana não resistiriam a seis meses de jornada se os eleitores em forma de contribuintes contassem com o mesmo ânimo crítico dos torcedores de futebol, que também são eleitores e contribuintes. 

Nos últimos quatro anos o resultado conjunto dos quatro principais times da região foi muito superior ao resultado conjunto dos sete prefeitos. Tanto que o São Bernardo e o Santo André estão na Série A do Campeonato Paulista e o São Caetano divide com o Água Santa de Diadema as duas vagas locais da Série B. Não temos bala suficiente para brilhar consistentemente no calendário nacional, depois de São Caetano e Santo André frequentarem as primeiras divisões por bom tempo. O tamanho de nosso futebol mal comporta uma Série B permanente do Campeonato Brasileiro. 

Zona do rebaixamento 

Já o tamanho das administrações públicas da região não ultrapassa a zona de rebaixamento do Campeonato Brasileiro de Gestão Pública, tal a falta de criatividade, inventividade, preparo e planejamento factível ao longo deste novo século. 

Nosso futebol sofrido e de pouca atenção do público regional é muito melhor administrado que as prefeituras locais. Seus dirigentes não são o suprassumo, claro, há alguns até que já deram o que tinham de dar, sem dúvida, mas são permanentemente pressionados a mostrar serviço, porque os resultados não perdoam e nem sempre as torcidas organizadamente bancadas pelos clubes estão dispostos a aceitar fracassos sobrepostos. 

É por essas e outras razões que os leitores jamais vão encontrar nesta revista digital, na Editoria de Esportes, a expressão “Província do Grande ABC” que adoto nas demais editorias. Uma questão de justiça, apenas isso. 



Leia mais matérias desta seção: Sociedade

Total de 1126 matérias | Página 1

17/02/2026 MANDACHUVAS E MARIONETES
12/02/2026 REDES SOCIAIS BEM AO GOSTO DOS PODEROSOS
05/02/2026 GILVAN E ACISA NUM JOGO DE IMPRECISÕES
01/02/2026 E A CARÓTIDA RESISTE AO PROJÉTIL INVASIVO
08/01/2026 REGIÃO PRODUZ MENOS CRIANÇAS QUE O BRASIL
18/12/2025 NOVA PERDA DO NOSSO SÉCULO
17/12/2025 VAMOS MEDIR A CRIMINALIDADE?
25/11/2025 UMA OBVIEDADE ASSISTENCIALISTA
04/11/2025 OTIMISTA REGIONAL É OTÁRIO REGIONAL
21/10/2025 MENOS ESTADO, MAIS EMPREENDEDORISMO
20/10/2025 SOCIEDADE SERVIL E DESORGANIZADA
18/09/2025 CARTA PARA NOSSOS NÓS DO FUTURO DE 10 ANOS
04/09/2025 INCHAÇO POPULACIONAL EMBRUTECE METRÓPOLE
02/09/2025 OTIMISTA INDIVIDUAL E OTIMISTA COLETIVO
22/08/2025 PAULINHO SERRA E DIÁRIO INTERROMPEM LUA DE MEL
20/08/2025 LULA HERÓI, TRAIDOR E VILÃO DE SÃO BERNARDO
24/06/2025 CONTRADITÓRIO INCOMODA, MAS É O MELHOR REMÉDIO
11/06/2025 PÁGINAS VIRADAS DE UMA MUDANÇA DESASTROSA
05/06/2025 VIVA DRAUZIO VARELLA, VIVA A REGIONALIDADE