O tipo físico não nega: Sandra Chiea é descendente de italianos. Até mesmo seu nascimento assemelha-se ao cotidiano retratado nos filmes da nouvelle vague européia: quatro ou cinco horas antes de sentir as chamadas dores do parto, dona Diva preparou muitos discos de pizza para a comemoração do aniversário do irmão. Depois das pizzas prontas, dona Diva acomodou-se na cama e Sandra nasceu com a ajuda da avó materna, muito experiente em partos. Isso foi no Ipiranga, onde a família toda -- avós, tios, etc -- morava em acolhedora vila de casas.
Aos seis anos de idade a família Chiea mudou-se para São Caetano. Garotinha criada cheia de mimos e dengos, Sandra cresceu vendo o trabalho do pai Rubens e dos três tios - o quarteto que fundou a Irmãos Chiea, uma das mais modernas empresas de componentes automotivos da região. Sandra teve adolescência tranqüila, se comparada a dos dias atuais. "Aos domingos, ia nadar no Clube de Campo do ABC, em Santo André. Quando havia alguma festa ou bailinho -- principalmente do Porão 99, Os Botões e do Centro do Professorado -- não perdia a oportunidade de dançar. Como não tinha idade suficiente, dava jeito de alterar a carteirinha de estudante ou pedia emprestada a certidão de nascimento de alguma amiga. Uma vez me compliquei, pois não soube responder às perguntas do porteiro sobre os dados da certidão. Mas tudo acabou bem".
Sandra é emotiva e passional, como convém aos oriundi. Tem paixão pela filha Paula, pelo marido Roberto Stephan e pela indústria da família. Fala com o mesmo entusiasmo dos três. Quando se refere à filha Paula, linda loirinha de 17 anos, mostra o lado mamma: "Aprendo bastante com minha filha, bastante mesmo. Durante muito tempo vivia correndo, sempre agitada, sempre apressada. Mal tinha tempo para curtir a Paula. Até que um dia ela me alertou -- "Mãe, percebeu que você está sempre com pressa, sempre correndo?". Foi quando notei que estava deixando de aproveitar momentos preciosos com ela".
Sandra desmancha-se em elogios ao marido Roberto, com quem vive há 13 anos em constante festa: "Roberto está permanentemente com alto astral, sempre pronto para sair, passear, dançar, viajar. Estamos sempre juntos, participamos de tudo juntos e um chega a ficar um tanto desamparado sem o outro" -- conta. Juntos, conheceram muitos países da Europa e alguns do Oriente Médio. Juntos, costumam ir jantar no Suntory. Apreciam a comida japonesa. Juntos vivem a vida, ora com sofisticação, ora com simplicidade. Como nos dias que passaram em Fernando de Noronha e dançaram lambada na praia, sob o luar. Para Sandra, essa viagem está entre as preferidas. Pisciana com ascendente em peixes, adora conviver com a natureza. Talvez venha daí a paixão pelo mar que orientou sua opção profissional. Sandra é bacharel em Biologia Marítima.
Ao formar-se, foi trabalhar em Arraial do Cabo (RJ), no Instituto de Pesquisas da Marinha. O uniforme de trabalho era um biquíni ou um short com camiseta. Levantava-se às 6h e mergulhava, antes mesmo do café da manhã. Seus olhos brilham quando recorda essa época: "Era uma delícia. Por força da profissão, criava camarões, desde a larva até a idade adulta. Na época da coleta, passava de três a quatro horas dentro do mar, com uma rede, recolhendo os crustáceos em vários locais, como o canal do Iate Clube de Cabo Frio e a Lagoa Araruama. Fazia também espécie de arrastão com rede para recolher um tipo especial de alga, que servia de alimento aos camarões do criadouro" -- recorda.
Antes da vida ao ar livre, aos 17 anos, Sandra resolveu trabalhar na indústria da família. Filhinha de papai? Sim, mas sem exageros. Na Irmãos Chiea o começo foi como office girl y otras cositas más: fazia café, respondia ao telefone e atendia à porta na parte da manhã. Após o almoço, caprichava no visual e ia aos bancos fazer depósitos e pagamentos. Fazia questão de estar sempre muito bem arrumada. Representava o pai e a empresa da família ao realizar a tarefa. À noite, estudava no Externato Santo Antônio.
Em 1983, Rubens Chiea resolveu voltar à cidade natal, Salto (SP), para curtir a vida ao lado de Diva. Doou a parte na sociedade da empresa aos filhos Sandra e Wladimir. A partir daí, Sandra assumiu o cargo de diretora administrativa e financeira. Também passou a fazer parte do Conselho de Administração, pois a empresa converteu-se em sociedade anônima. Confessa, com segurança: "Sou totalmente diferente dentro da fábrica. Lá, sou exigente, linha dura mesmo. Com isso, tenho credibilidade. Todos sabem que quando digo uma coisa é para valer, não fico enrolando ninguém". Apesar de apaixonada pela empresa, aconselha a filha a escolher uma profissão em que invista em si própria. "Ser empresária hoje é algo muito difícil e pouco respeitado" -- afirma. Os tempos estão difíceis para o empresariado. Há que se empatar capital, dar empregos, ter encargos sociais e outros problemas. "Hoje as coisas são muito diferentes: não dá mais para ter uma empresa familiar -- tem mais é que ser tocada por profissionais. É praticamente impossível comandar um negócio empresa através de grupo de parentes. A tendência é o crescimento da família e, se não houver harmonia e concordância, a empresa sofre as conseqüências" -- explica Sandra.
Quando fala na Irmãos Chiea, Sandra deixa transparecer a paixão que sente pelo que faz e o orgulho pela trajetória da indústria. É quando sente vontade de contar a história: "A empresa foi fundada em 20 de julho de 1948, portanto vai fazer 50 anos este mês. Meu pai (na época, solteiro) e meus três tios juntaram-se para fundar uma fábrica de bombas para puxar água de poço. O escritório foi instalado na sala de visita de minha avó paterna e a área de produção num galpão no quintal. Os quatro trabalhavam durante o dia em outros empregos e, à noite, dedicavam-se à empresa" -- relata.
Os negócios cresceram e os sócios e irmãos passaram a dedicar-se exclusivamente à Irmãos Chiea. Sandra emociona-se ao falar da luta do pai, que pegava uma bomba de poço nos braços, tomava o bonde na Rua Silva Bueno (Ipiranga) e descia a Florêncio de Abreu, no centro de São Paulo, para tentar vender o produto aos lojistas. "Naquela época -- comenta -- as coisas eram difíceis, mas havia muita esperança. Hoje o dono de uma indústria tem de lutar bravamente para manter a empresa com boa saúde financeira. A vida me ensinou a ser ponderada, objetiva e com certeza de que não cometerei os erros de antes. Hoje sou mais positiva, apesar de sempre pensar primeiro com o coração. Mas como diretora sou muito exigente. Existe grande responsabilidade junto aos funcionários, fornecedores e clientes. Não dá para errar, pois não há muitas chances para se consertar erros".
Paralelamente à atividade profissional, Sandra não abre mão de aproveitar o que considera importante para a manutenção do bom astral. Desfilar na Escola de Samba Império de Vila Paula é uma delas. "É bárbaro dançar e acenar para os amigos numa avenida em que se passa rapidamente de carro, todos os dias". Sempre bem vestida, com roupas que pode usar das sete da manhã até à noite, Sandra mostra muita disposição também para apoiar e acompanhar o marido Roberto Stephan na próxima empreitada: ele vai se candidatar a vereador em São Caetano.
Ela pretende ajudá-lo a administrar a campanha.
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17/02/2026 MANDACHUVAS E MARIONETES