A Cidade da Criança envelheceu tanto -- como mostrou LivreMercado há três meses em reportagem especial de capa -- que deveria ser rebatizada de Cidade da Vovozinha. Assemelha-se a desmanche a situação deste que já foi -- nos tempos em que as vovós de hoje eram crianças de ontem -- o principal parque de entretenimento da região. Posso falar de cátedra, dentro das minhas limitações, mesmo sem ter idade de vovô e mesmo sem ter frequentado o local quando criança, porque morava no Interior. Pelo menos três vezes por semana corro no entorno, já que moro nas proximidades e não consigo resistir a oito, 10 quilômetros de manutenção física em cada jornada. As ruas que envolvem a Cidade da Vovozinha são cheias de altos e baixos. Desafio meu fôlego e a musculatura ao optar pelo sentido horário da corrida, que contempla mais aclives que declives. A explicação talvez seja o fato de que, exceto às dores de perdas humanas, já me acostumei com a missão de enfrentar obstáculos. Há os bem-aventurados, equipados com dispositivos especiais, que tudo conseguem sem grandes esforços e desafios. Mas isso é outra história.
Voltemos à Cidade da Vovozinha. Durante a semana, o espaço antigamente nobre está às moscas. Nos finais de semana, está às baratas. A situação de desorganização chega a tal ponto que os poucos visitantes formam fila na única e precária bilheteria. Os incautos podem imaginar que o afluxo faria inveja aos grandes clássicos do futebol brasileiro. A morosidade de atendimento, a falta de troco, o desinteresse dos atendentes, tudo isso contribui para o agravamento da esclerose da infra-estrutura física, material e de serviços da Cidade da Vovozinha.
Os brinquedos, como se sabe, são do tempo do onça e estão permanentemente encrencados. Mas o pior mesmo é que estão desatualizados em relação a um mundo infantil em que vídeo games, computadores e outros apetrechos tecnológicos transformam a fantasia em virtualidade. Mais que isso: a manutenção é feita sem o menor cuidado ambiental. Há duas semanas, senti na rua forte cheiro de tinta fresca que vinha de seus interiores. Um funcionário, respondendo-me rapidamente, enquanto diminuía o ritmo da corrida para não ficar sem a informação, disse que estavam pintando um brinquedo. A céu aberto. Indiferente às consequências provocadas pelo cheiro e pela nuvem de tinta. Sou suspeito, porque não suporto produtos químicos, principalmente esses que empesteiam residências e escritórios a pretexto de limpeza e higiene. Mas que fazem mal, principalmente para crianças, não tenho dúvida. Ainda mais que na semana seguinte o cheiro mantinha-se forte, como se a tarefa de maquiagem não fôra completada.
Mesmo num ritmo normal de corrida em que procuro acrescentar mais vida em meus anos, não anos em minha vida, como escreveu certa vez o craque Armando Nogueira, é possível ouvir reprovações à Cidade da Vovozinha. É comum pescar diálogos entre pais claramente frustrados com o desencanto dos filhos. Afinal, prepararam os pimpolhos para um programa de atrações dignas dos estertores de um século pródigo em inventividade e se viram, eles próprios, num frustrante túnel do tempo. Tivesse Hilda Furacão passado a infância na região, seria barbada a ambientação na Cidade da Vovozinha. O cenário não exigiria qualquer retoque, porque tudo exala passado.
O envelhecimento da Cidade da Vovozinha não é obra de uma gestão apenas. É construção do descaso de contínuas administrações públicas, inclusive do Legislativo, cujos integrantes, ao longo dos anos, mais que usufruíram politicamente daquele acervo infantil com farta distribuição de passaportes da alegria. Faça-se justiça: o prefeito Maurício Soares está decidido a dar novos rumos a essa área, que só resiste a tanta incúria histórica porque é detentora de uma marca forte.
Não há mais tempo a perder. Ou se entregam a gestão e a operação à livre-iniciativa, com responsabilidade e compromissos de eficiência, sem intromissão política, ou a Cidade da Vovozinha vai mesmo para o beleléu.
A voracidade com que a fiscalização do governo do Estado age em regiões densamente empresariais, caso específico do Grande ABC, está sendo desprezada pelos analistas políticos ao interpretarem o desempenho de Mário Covas nas pesquisas eleitorais. Há uma revolta silenciosa, só captada por quem de vez em quando se dá ao trabalho de conversar com pequenos empreendedores, contra o que a Secretaria da Fazenda chama de eficiência fiscal. As origens político-ideológicas do engenheiro que se tornou governador não diferem da do sociólogo que se tornou presidente -- o Estado forte, disciplinando e conduzindo os empreendedores e a comunidade, em contraste com o equilíbrio entre Estado, mercado e sociedade.
Fernando Henrique Cardoso sabe dissimular melhor. Até os imprevidentes, aqueles que não enxergam um palmo à frente do nariz, o chamam de neoliberal. Só não percebem, ou fingem não perceber, que, depois que ele assumiu o posto, a carga tributária bruta do País saltou de 25% para 32% do PIB (Produto Interno Bruto) -- ou US$ 120 bilhões de recursos surrupiados do mercado. Ainda se as dívidas interna e externa tivessem sido estancadas, haveria justificativa para tanta fome. Quanto mais imaginar infra-estrutura social diretamente correspondente ao caudal de impostos recolhidos. Mário Covas, reconhecidamente austero,
é mais autêntico. Sua Secretaria da Fazenda assume que avança mesmo nos bolsos dos empreendedores de qualquer porte. O coordenador Clóvis Panzarini se orgulha dos recordes de arrecadação alcançados no ano passado e canta de galo com a ínfima queda de 3% acumulada nos primeiros cinco meses deste ano de forte recessão.
O torniquete contra os empreendedores é asfixiante, mas poucos se dão conta disso. União e Estado jogam pesado contra sonegadores circunstanciais ou não. A ordem é faturar tributos, cantar vitórias de arrecadação. Pouco interessa se a livre-iniciativa, em contraposição, está em frangalhos. Se o desemprego decorrente de apertos fiscais aumenta ou não. O pior é que a moda está pegando e já há Municípios atingidos pela epidemia tributária.
A vulnerabilidade de Fernando Henrique a uma candidatura de oposição que consegue ser viável, apesar de Leonel Brizola, e o raquitismo eleitoral de Mário Covas numa corrida em que a disputa pela liderança está concentrada em candidatos que usam e abusam do populismo, também podem ser debitados a suas recaídas ideológicas.
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17/02/2026 MANDACHUVAS E MARIONETES