Sociedade

Qualidade para votar
e ser votado

DANIEL LIMA - 05/09/1998

Uma palavrinha mágica que os brasileiros passaram a respeitar mais desde que globalização virou sinônimo de atualização foi incorporada ao mote do Fórum da Cidadania do Grande ABC na campanha pela  distritalização do voto nas próximas eleições. Lançada exatamente há quatro anos, a campanha  Vote no Grande ABC, que deu origem ao Fórum da Cidadania, volta à carga nesta temporada, depois de propagada também em 1996, nas eleições para prefeitos e vereadores. A diferença agora  é o  verbete Qualidade,  estrategicamente diferenciado no slogan Vote com  Qualidade no Grande ABC, que caracteriza faixas, cartazes, camisetas e materiais impressos.


O lançamento da campanha, na noite de 11 de agosto na Umesp (Universidade Metodista de São Paulo), em São Bernardo,  não teve a euforia de quatro anos  atrás. A impressão que ficou é de que o Grande ABC ganhou maturidade suficiente nesse período para entender que a correlação de forças políticas estaduais e federais,  por  mais concorrentes locais que venha a eleger,  dificilmente lhe será suficientemente apropriada enquanto o País não passar  por reformas políticas que, entre outras novidades, implante o voto distrital misto.


A sensação de que deputados estaduais e federais  eleitos pela região não conseguem fazer-se ouvir na Assembléia Legislativa e no Congresso Nacional, por mais esforços que façam e por mais que sejam pressionados, pairou como fantasma  no encontro do Fórum da Cidadania. Dos 13 legisladores eleitos em 1994 -- oito estaduais e cinco federais --, apenas dois estiveram na Metodista: Clóvis Volpi e Duílio Pisaneschi. Dos prefeitos, somente Osvaldo Dias, de Mauá, e Maria Inês Soares, de Ribeirão Pires, marcaram presença. 


Contradição -- Dono do maior patrimônio institucional da região, com 107 entidades associadas, o Fórum da Cidadania também vive momentos decisivos.  Uma contradição genética está prestes a ser eliminada e foi cutucada durante o encontro na Metodista, quando um representante político sugeriu a participação dos partidos nas reuniões da entidade. O coordenador-geral do Fórum, arquiteto Silvio Tadeu Pina, acenou com a aprovação, antecipando posição que deverá ser levada à deliberação da plenária logo depois das eleições. A presença de partidos políticos no Fórum da Cidadania é algo inadiável. Principalmente depois que dois ex-coordenadores-gerais, Marcos Gonçalves e Fausto Cestari, lançaram-se candidatos a deputados. 


Render-se aos integrantes de partidos políticos significaria uma aproximação há algum tempo impensável para os formuladores do Fórum da Cidadania. Afinal, a entidade surgiu exatamente por causa do vácuo da representação política da região. O primeiro manifesto do Fórum, ainda nos tempos de Vote no Grande ABC, foi uma sequência de diretos e cruzados no queixo dos políticos. A mudança não significaria derrota do Fórum. Muito pelo contrário. Expressa a própria vitória de uma organização que sacudiu o Grande ABC institucional. Tanto que nesse período o Consórcio de Prefeitos foi retirado da prostração e a Câmara Regional foi introduzida como importante equipamento de negociações locais, estaduais e até mesmo com algum alcance federal. Em suma: a classe política, cujos partidos clamam por espaço no Fórum, sente o efeito-reverso, traduzido na mágica de que as bases multifacetadas e organizadas determinam as demandas da sociedade, contrariamente ao lugar-comum de que os políticos devem decidir em nome de sociedades desorganizadas.


Resta saber, apenas, como se dará a inoculação de partidos políticos no organismo de consensualidade pétrea do Fórum. Diante da insustentabilidade de manter-se numa redoma e da evidência de que a dinâmica de transformações institucionais no Grande ABC exige flexibilidade de conceitos, o Fórum da Cidadania provavelmente erguerá algumas barreiras éticas para impedir abusos de representantes políticos. Entretanto, qualquer avanço teórico sobre esse irreversível casamento está sujeito a ressalvas porque o tema é tão recente, detonado por Marcos Gonçalves e Fausto Cestari, que nem as principais lideranças do Fórum têm propostas bem-acabadas. 


Documento -- Coube ao jornalista Alexandre Polesi, diretor de redação do Diário do Grande ABC, a leitura do manifesto pelo Vote com Qualidade no Grande ABC. O texto é indicativo das pretensões do Fórum. Já não interessa apenas o desempenho dos políticos locais. A cobrança agora dirige-se aos eleitores e aos candidatos a postos mais graduados, os quais devem olhar sistematicamente para o desenvolvimento sustentado da região.


O documento destila otimismo. Não exagera quando afirma que nos últimos quatro anos o Grande ABC soube alcançar o mais importante -- formar a vontade política de interromper o declínio de sua base industrial e mudar o perfil de desenvolvimento econômico. O desafio da região é engrossar a lista ainda dietética de deputados estaduais e federais. Com 1,5 milhão de eleitores, cerca de 7% do universo estadual, a força econômica e os problemas sociais do Grande ABC só serão reconhecidos com o adensamento de vitoriosos e, principalmente, com estratégia de bancada regional, independente de partidos aos quais estejam ligados os eleitos. Na legislatura que se está encerrando essa convergência geopolítica viveu de espasmos, como a defesa das emendas de interesse da região na Assembléia Legislativa e no Congresso Nacional. 


O comportamento, bem superior ao individualismo oportunístico de outros tempos,  precisa ter ritmo mais intenso e contínuo, mas só fará girar a roda de mudanças de que a região precisa se agentes sociais e econômicos pegarem à unha o touro da cidadania. Afinal, por melhores que venham a ser os políticos sobre os quais os eleitores despejarão seus votos, sozinhos eles serão café pequeno diante das necessidades latentes de uma região duramente atingida pela mesma globalização que exige o adendo de qualidade em quem vai às urnas agora em outubro. 


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