Sociedade

Diadema supera
o Rio de Janeiro

DANIEL LIMA - 05/12/1998

Duas más notícias sobre a criminalidade no Grande ABC. Primeiro: a taxa anualizada de homicídios na região, seguindo padrões estatísticos da ONU (Organização das Nações Unidas), é praticamente o dobro da média nacional, já que enquanto no Brasil se cometem anualmente 24 assassinatos por 100 mil habitantes (37 mil em todo o território), no Grande ABC a média é de 43 por 100 mil. A segunda é a realidade de homicídios em Diadema. Com a taxa de 104 mortes por 100 mil habitantes, o Município de 313 mil moradores, segundo o Censo do IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatísticas) de 1996, supera largamente até mesmo a só arquitetonicamente maravilhosa Rio de Janeiro, com 74 homicídios, e está muito acima da média da paulicéia desvairada da Capital, com 44 por 100 mil. 


Nos 10 primeiros meses deste ano, segundo dados divulgados pelo Diário do Grande ABC, Diadema contou 272 assassinatos. Extrapolando esse número para os 12 meses, alcança-se o total de 326 homicídios na temporada. Dividindo esse novo número pela população de 313 mil habitantes, chega-se à estratosférica taxa de 104 mortes violentas no Município -- exatamente como faz a ONU. 


Nos 10 primeiros meses deste ano, segundo levantamento do jornalista Delmar Marques publicado há duas semanas no Diário do Grande ABC, foram cometidos 829 assassinatos no Grande ABC. Esse volume é levemente inferior (-0,8%) ao registrado no mesmo período do ano passado (836) e, por isso mesmo, nem deve ser festejado. Afinal, dá a média mensal de 82,9 crimes. É provável que ao aproximar-se do novo século a região registre neste final de ano coleção de mil cadáveres em 12 meses do calendário gregoriano, recorde absoluto em sua história. Só os homicídios dos 10 primeiros meses deste ano superam o número registrado em todo o ano passado em Nova York, Estados Unidos. 


Uma recente investigação da ONU ajuda a explicar a violência urbana e o índice recordista de Diadema, provavelmente o Município mais sangrento do País. Comparando os índices de violência em 185 países, o estudo constatou que a situação se agrava em nações e locais cujas realidades de Primeiro e Terceiro Mundo se fundem. Exatamente o caso de Diadema, onde se entrelaçam aspectos de miserabilidade e de industrialização. Onde há apenas miséria, nas nações mais pobres, registra-se em média a taxa de 4,2 assassinatos por 100 mil habitantes, isto é, 25 vezes menos do que em Diadema. Nos Estados Unidos, nação mais poderosa do mundo, a taxa é de 6,1 por 100 mil. 


A taxa anualizada de homicídios em São Caetano é a mais baixa da região, com 12,8 por 100 mil habitantes, contra 27 de Santo André, 19 de Ribeirão Pires, 41 de Rio Grande da Serra, 44 de São Bernardo e 42 de Mauá. 


A residual queda no número de homicídios no Grande ABC nos primeiros 10 meses deste ano comparativamente ao mesmo período do ano passado não significa que a criminalidade, de maneira geral, tenha recuado também. O número de boletins de ocorrência referentes aos principais crimes registrados nas delegacias de Polícia do Grande ABC aumentou 23,3%. Isto quer dizer que nos dois últimos anos a evolução real da taxa de criminalidade saltou 42,73%. A contabilidade do crime no Grande ABC está desmembrada em sete quesitos: além de homicídios, constam dos estudos furto a residência, roubo a banco, roubo de carga, furto a escola, furto/roubo de veículos e roubo a pedestre. O maior salto da delinquência está no roubo de cargas, com 155,95% de avanço. 


Estados Unidos -- A trajetória nacional de crimes obedece escalada ascendente, em perfeita sincronia com a precarização da qualidade de vida em um País que consegue conjugar o pior dos mundos, preso por processo de desmobilização de um capitalismo de Estado ultrapassado e deletério em favor de uma desajuizada globalização econômica que não obedece a regras de gradualismo. Já os Estados Unidos acumulam sucesso na luta contra o crime. O índice de crimes graves está caindo constantemente há seis anos naquele país, segundo recente reportagem do jornal USA Today. Desde 1991, os números de homicídios foram rebaixados em quase 28%, o de estupros 13% e o de assaltos 29%. Em quase todas as grandes cidades dos Estados Unidos, de Nova York a San Francisco, o índice de agressões físicas, furtos em residências e roubos de carros vem caindo muito. 


Em cada 10 adultos entrevistados para a pesquisa, cinco acham que a criminalidade hoje é maior do que um ano atrás. Mas, em pesquisa idêntica realizada em 1993, quase nove em cada 10 expressaram a mesma opinião. Numa sondagem feita pelo Instituto Gallup, em 1992, apenas 19% dos entrevistados acharam que a criminalidade em seus próprios bairros havia diminuído durante o ano anterior. Mas quase metade (48%) dos entrevistados nesta nova sondagem diz que os crimes em seus bairros diminuíram em relação há um ano. É a primeira vez em 10 anos que o Gallup formula essa pergunta e encontra maioria de norte-americanos que afirma que a criminalidade está caindo nas áreas em que vivem. 


Pesquisa semelhante realizada no Grande ABC e na Região Metropolitana de São Paulo certamente registraria índices tão desconfortáveis quanto inquietantes para as autoridades públicas.


A realidade paulistana é atormentadora. O acréscimo populacional de 9,47% desde 1985 foi contragolpeado com aumento de 76,76% de homicídios. A população da Capital em 1985 atingia a 9.004.231 pessoas, contra 9.856.879 em 1997. Já o número de homicídios, no mesmo período, passou de 2.705 para 4.778. Um aumento oito vezes maior do que a população. No caso de furtos e roubos de veículos, houve alta de 80,89%.


Não há estudos específicos do Grande ABC, mas a taxa de homicídios dolosos no mesmo período envolvendo a Grande São Paulo, na qual se inclui a região, aumentou 119%. Diadema, limítrofe à periferia mais pobre da Capital e endereço preferencial de quem não cabe mais na expansão demográfica de São Bernardo, só poderia mesmo provocar consolo à Beirute dos tempos de conflitos. 


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