Sem prólogo, a vida do teatrólogo, ator e vereador Carlinhos Lira, de São Caetano, embutiria roteiros comuns à trajetória de milhares de brasileiros não fosse o currículo da maturidade acabar recheado de sucessos e mágoas. Todo o brilho dos aplausos acaba desfeito na hora de pagar as contas. Daí as mágoas com empresários da região, que pouco investem em cultura. "A arte é órfã no Grande ABC" -- alfineta o ator que enveredou pelo mundo da política. Apesar do nítido fel exalado a cada sílaba, Carlinhos Lira fala da desgraça à moda teatral, unindo sem delongas tragédia e comédia. Afinal, o show tem de continuar.
Da primeira infância carrega as imagens do cortiço na Rua Maranhão em frente ao antigo Tiro de Guerra. Já aos sete anos conheceu a dureza do trabalho colocando lenha no forno de padaria e nos dias de feira livre carregava sacolas por uns trocados. Dona Vilma de Assis que o diga. "Era minha principal freguesa, quase uma segunda mãe. Hoje, quando me vê, se diz orgulhosa" -- conta o ator. Filho dos pernambucanos Rita de Souza e Francisco Augusto Lira, Carlinhos, assim como os 14 irmãos, não tinha muito tempo para brincar. Apesar de ter sido aluno aplicado dos professores Maria Antonia, no então curso Primário, e Dario Braido, no Ginásio, o interesse pela escrita floresceu graças à intimidade que manteve desde cedo com boletins de ocorrência. Aos 10 anos começou a trabalhar como office-boy no 1º Distrito Policial de São Caetano. Os primeiros manuscritos acabaram extraviados, mas nem por isso o cotidiano da ante-sala do cárcere deixou de influenciar o trabalho do ator. Da delegacia passou a trabalhar em escritório contábil e a escrever para jornais locais. Descobriu que tinha epilepsia. "Foram 10 anos de medicamentos" -- conta.
A largada para os palcos em 1976 rendeu mais que polêmica no mundo das artes. Carlinhos teve de contornar a braveza do pai. Afinal, aos olhos do nordestino cabra-macho, teatro era coisa de prostituta, maconheiro e gay. "Meu pai queria que eu fosse delegado" -- ri ao lembrar. A repressão de casa nem por um minuto inibiu os dons artísticos. Bem que tentou enveredar para profissão mais bem vista pela família. Ingressou no curso de História e acabou fazendo outra história. Também tentou Direito para agradar ao velho Chico. Não empolgou. É jornalista provisionado. Mas o sonho era mesmo escrever novelas e peças. E para receber aplausos, Carlinhos Lira nunca mediu esforços nem tampouco consequências. "Nunca contei com milhões para produzir minhas peças. Mas criatividade sempre tive de sobra. Coisa de artista" -- esnoba.
Em plena ditadura militar desafiou o poder instituído quando abriu as cortinas do palco da então FEC (Faculdade de Educação e Cultura), hoje UniABC, com a peça Wilsinho, Galiléia. O espetáculo acabou interrompido e cassado pela Polícia Federal. "Naquela época artista tinha de ser contra a ditadura" -- diz.
Carlinhos nunca militou em partidos de esquerda. O primeiro envolvimento com política foi durante o bipartidarismo. Alinhou-se ao MDB e só mais tarde filiou-se ao PTB, pelo qual disputou cadeira na Câmara de Vereadores de São Caetano por duas vezes. Exerce o segundo mandato como vereador. A principal bandeira: a arte. Há 23 anos comanda o MCTA (Movimento Cultural Teatral e de Artes) e arquiva cerca de 20 montagens. "A tarefa de fazer cultura por meio do teatro no Grande ABC é difícil. A maratona para obter recursos é exaustiva e prejudica o processo artístico" -- lamenta o ator.
Se hoje a região é precária em montagens teatrais houve momento em que reunia quase 50 grupos amadores e prósperos. Antonio Assumpção, Augusto Maciel, Alberto Chagas, Ulisses Cruz, Edivaldo Freire e Luiz Alberto Abreu são contemporâneos de Carlinhos Lira. "Todos se mandaram para São Paulo e eu fiquei porque acreditava na região" -- conta. Na década de 80, Carlinhos partiu para a fase do teatro marginal de Plínio Marcos e Nélson Rodrigues. Garotos de Aluguel, peça proibida por 10 anos, contribuiu para expor a principal face do MCTA: o dom de descobrir novos talentos. O ator calcula que mais de mil pessoas tiveram experiências teatrais em suas montagens. Na mesma esteira da vida bandida sobre o palco, Carlinhos montou com sucesso Inútil Pranto dos Anjos de Cara Suja. "Sempre tive atração pelos excluídos. Acho que quando transformo essas vidas em arte consigo amenizar um pouco o sofrimento deles" -- diz.
A paixão pelo Centro de São Paulo garantiu-lhe horas invejáveis ao lado de Adoniran Barbosa. A proximidade com o músico inspirou Carlinhos Lira a escrever e a encenar O Último Trem das Onze. Adoniran já havia morrido quando a peça estreou nos palcos. "A viúva emprestou-me os óculos, o cachecol e o chapéu e de repente descobri que havia encarnado demais a personagem. Estava até ficando corcunda" -- lembra o ator. Para desvencilhar-se do papel, Carlinhos Lira teve muito trabalho, mas até hoje não se livrou dos velhos adereços. Chapéu e cachecol compõem seu visual diário.
Não só o contato com o mais paulistano dos boêmios marcou a vida de Carlinhos Lira. Ele conta que vasculhou dezenas de favelas para fotografar moleques de toda sorte quando o cineasta Hector Babenco estava à caça do protagonista de Pixote. O encontro com Fernando Ramos da Silva foi além do derradeiro sucesso do menino de Diadema nas telas de todo o mundo. Vencidas as armadilhas da fama, Fernando pôde contar com o apoio de Carlinhos Lira. Encenou a peça Ataliba, Meu Amor, cujo personagem, como Pixote, acaba morto. "Dois meses depois que voltamos das apresentações na Paraíba, o Fernando foi executado assim como Ataliba" -- lamenta Carlinhos.
Aos 42 anos, Carlinhos Lira diz que não vê flores no próprio caminho. Leva os dias dominado pela angústia nata das coxias. Não se apega à fé, apesar de crer em Deus. Busca nos homens respostas para acalmar o íntimo de artista. Confessa que sempre acaba se envolvendo em relacionamentos confusos e nem um pouco duradouros. Assumiu a homossexualidade somente depois da morte do pai.
Além dos próprios textos, Carlinhos Lira trabalha outros autores e transpõe clássicos literários para o palco. Vidas Secas, de Graciliano Ramos, varou cinco anos de bilheteria intensa e conquistou alguns prêmios em festivais. Conquistou o Edital do então Ministério da Cultura para se apresentar no Teatro Dulcina de Moraes. O lado folclórico ganhou forma e cor com as montagens Mãe DÁgua e Foi Boto, Sinhá!. No ano passado lançou-se ao desafio de produzir espetáculo ao ar livre. Montou o épico Via Crucis, A Paixão de Cristo, musical moderno apresentado nos quatro dias da Semana Santa no Espaço Verde Chico Mendes. Cerca de sete mil pessoas assistiram à peça. "Com a montagem acabei pagando minhas penitências" -- ironiza Carlinhos Lira. Mesmo com apoio de R$ 40 mil da Prefeitura, o evento rendeu dívidas ao grupo.
Mesmo com o saldo bancário no vermelho, Carlinhos Lira não desistiu de investir no mosaico de vidas humanas que propõe para os palcos. Convidou o diretor Roberto Gil Camargo para conduzir o espetáculo de 1999: Cante Para Eu Dormir, de Álvaro Fernandes. A peça já conquistou aplausos e medalhas nos festivais de Paraguaçu Paulista e de Salto, e corre atrás da premiação de mais oito festivais até novembro. "De volta ao palco sinto compensação de vida, alma purificada" -- diz. De volta à cena, Carlinhos Lira interpreta o pai que não teve ao lado do jovem ator Erike Busoni. Nos bastidores da criação prepara sua próxima obra: Assim se Extermina a Juventude, musical em ritmo rap que expõe os desatinos dos jovens brasileiros diante da falta de oportunidades profissionais, prostituição e droga.
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17/02/2026 MANDACHUVAS E MARIONETES