Quando o psicoterapeuta José Ângelo Gaiarsa entrou na igreja em 1948 para se casar pela primeira vez, ninguém poderia imaginar que aquele noivo convicto de que seria o melhor marido e pai do mundo viesse a sacudir as estruturas sagradas do matrimônio e da família com opiniões mais que polêmicas. Totalmente avesso ao casamento até que a morte separe, ele diz que para detectar os inconvenientes basta ouvir com atenção o que todos os casados dizem sobre as próprias relações. "Pesquisas mostram que no Ocidente 50% dos casamentos se desfazem" -- diz.
Ele próprio dá substanciosa cota de contribuição para a estatística: casou-se seis vezes. Se por um lado Gaiarsa condena a eternidade do matrimônio, por outro defende a alta elaboração do erótico na relação de casais. Sobre sexo é categórico: "É a melhor coisa que existe e a mais mal aproveitada pelo ser humano" -- diz esse profissional quase octogenário, que acumula cerca de 100 mil horas de consultas a famosos e anônimos em busca do eixo existencial.
Nascido na Santo André dos anos 20, Gaiarsa fala da própria vida em tom analítico, sempre com a conduta questionadora dos dogmas sociais que o celebrizou como profissional e escritor conhecido em todo o País. Ele só não aprofunda muito nas lembranças de seus 79 anos. "Só vive no passado ou se preocupa com o futuro quem não tem presente" -- conceitua.
Gaiarsa confessa que a adolescência numa Santo André que só tinha a rua principal foi um tanto solitária, com poucos mas bons amigos. Morava num sítio junto com a mãe Ana, o pai Ângelo e mais seis irmãos. Viu a Igreja do Carmo ser construída. Cultivou muitos amores platônicos, daqueles de observar a donzela passear pela calçada. Adorava dançar e tinha de driblar a vergonha de levar uma tábua -- como diziam na época quando se tomava um fora. Certo dia, o amigo Artur Tognato praticamente empurrou a namorada para dançar com ele. "Tinha um tesão tão fantástico que morri de medo de encostar na moça" -- conta Gaiarsa.
Ele fez de tudo para fugir do padrão machão da época. Mas não deixou de encarar o drama da molecada: a famosa masturbação da qual ninguém se livrava e da qual diziam coisas horrorosas. Por causa da timidez emocional, casou virgem. Foi observando a vida rude à qual a mãe era submetida que cultivou profundo respeito pelas mulheres. "Desenvolvi verdadeira adoração pelas mulheres, apesar de sempre ter sido maltratado por elas. São minhas mestras em relações pessoais" -- diz.
Depois das bodas de prata com a primeira esposa, separou-se. "Só consegui conversar com ela uma única vez. Quando estava de malas prontas para ir embora" -- relembra. Garante que foi uma das decisões mais difíceis, mas que se não a tivesse tomado hoje estaria morto. Casou-se mais cinco vezes. Da quarta companheira herdou o amor por plantas que enfeitam o apartamento onde mora no Sumaré, em São Paulo. Teve quatro filhos. Perdeu um em acidente. Diz que as perdas não doem tanto. Hoje tem uma telenamorada de 26 anos. "Não acredito em casamento" -- insiste.
Com 25 livros publicados e nenhum encalhado -- como faz questão de destacar --, Ângelo Gaiarsa trabalha a próxima obra a partir de estudos sobre brigas de casais. "O livro não ensina a não brigar, mas ajuda a evitar a mesma briga por anos a fio" -- antecipa. O psicoterapeuta considera que brigas de casais são as maiores causadoras de doenças psicossomáticas. "Existe autorização social para brigas domésticas" -- afirma.
Gaiarsa relaciona família à patogenia e aposta que todo mundo sabe disso. Brinca ao afirmar que, se não existisse família, ficaria sem emprego. Condena à brutalidade o esquema de separar o bebê da mãe depois do nascimento e garante que crianças acalentadas e amamentadas ficam menos doentes. "Sempre gostei muito de crianças e sempre achei que são muito maltratadas" -- diz. Foi por meio de um de seus livros que conquistou a quinta esposa. Ela se apaixonou pelo escritor ao lê-lo e deixou o Sul do País para viver o amor pelo psicoterapeuta. "Foi meu amor mais produtivo e o mais violento" -- conta.
Formado pela Faculdade de Medicina da USP (Universidade de São Paulo), Ângelo Gaiarsa não sabe muito bem como escolheu a profissão. Expõe duas versões: a primeira, pela influência de dois irmãos médicos e a segunda, pela paixão desde a infância pelo corpo humano. "Naquela época não se mostrava e não se podia pegar no corpo humano. E eu queria. O jeito oficial de tocar o corpo era por meio da Medicina" -- afirma. Recebeu o Prêmio Rockefeller em 1946 como primeiro aluno da turma. Assim que se formou, trabalhou por dois anos no Hospital Psiquiátrico do Juqueri, mas se sentia sufocado pelo esquema das instituições.
Cultor de Carl Gustav Jung para instruir o pensamento, a fantasia e o sentimento, o andreense Ângelo Gaiarsa adota Wilhelm Reich para a atividade terapêutica. Leu 95% das obras de ambos. Por muito tempo trabalhou na Rede Bandeirantes, no programa Dia-a-Dia, fazendo análises ao vivo de problemas encaminhados por telefone. O programa foi extinto e Gaiarsa demitido. "Nesses 50 anos de profissão não fiquei rico, mas estou bem" -- diz.
Até o fim do então curso ginasial (Ensino Fundamental) Gaiarsa foi péssimo aluno, desestimulado de estudar. Quase desistiu. Despertou a fome por conhecimento quando foi bem acolhido por padres num cursinho preparatório para o então científico. Na juventude foi católico fervoroso. No ano em que ingressou na faculdade comungou todos os dias, mas seis meses depois do primeiro casamento a religião simplesmente sumiu do seu cotidiano.
Gaiarsa diz que passou muito tempo brigando contra o chamado feeling -- a primeira reação diante de novas situações --, reprimindo o bicho interior. Mas acabou por cultivá-lo e hoje se diz afiadíssimo. "O que chamam de bicho é muito sábio, não é só tarado" -- diz. Jura que nunca teve superstições, mas acredita na relação pessoal firmada por terapias alternativas. "Separar técnicos de técnicas é fundamental" -- aconselha. Para Gaiarsa, o toque corporal é extremamente benéfico, faz bem. Mas cabe às pessoas aprender a fazer e a receber carícias. "É um aprendizado, porque desde pequeno o ser humano não pode fazer o que é gostoso" -- justifica.
Bom na arte de preparar cremes e saladas, o psicoterapeuta se considera profundo conhecedor da agressividade humana. Defende que as guerras movem fortunas ao redor do mundo e são consideradas grande negócio. Deposita esperança nas crianças e na Internet. Acredita que somente os hackers -- invasores de sistemas de computador -- podem impedir uma catástrofe mundial. Fica indignado ao comentar que apenas 4% da população consome 50% de toda a produção mundial e irrita-se com as injustiças. Mas garante que não gosta de política. O motivo? Nunca lhe sobrou muito tempo para estudá-la a fundo. Encara os Estados Unidos como sanguessugas e questiona o panorama nacional. "Se o Antonio Carlos Magalhães for eleito presidente eu me mato" -- diz.
Em meio às polêmicas que defende, Ângelo Gaiarsa conta que adora música clássica. Entre 15 e 16 anos conheceu a Discoteca Pública Municipal de São Paulo graças a um amigo judeu. Encantou-se com as duas cabines especiais da loja para ouvir os discos. Outra paixão é o Balé de Moscou. "Vi todas as vezes que se apresentou no Teatro Municipal" -- conta, sem esconder o lado tiete. Apesar das pernas arqueadas que lembram as do craque Mané Garrincha, Gaiarsa praticou esportes regularmente por toda a vida. Hoje os joelhos incomodam. "Nunca me dediquei a atividades coletivas; preferia as individuais como natação e corrida" -- afirma. Futebol? Muito agressivo para quem se confessa muito medroso.
A fissura por filmes está limitada a uma única ida anual ao cinema. "Já tive minha dose. Experimentei todos os personagens de todos os filmes que assisti" -- diz. Gaiarsa argumenta que com o passar dos anos as ficções foram ficando muito parecidas, sempre com o mesmo roteiro de caçada por dinheiro, fama, mulher e até felicidade. Gostava dos épicos assinados por Cecil Mille -- Cleópatra e Ben-Hur. Hoje liga a TV para assistir documentários. Admira a dança e o canto. Viagens, prefere as mentais feitas por meio da literatura no aconchego de casa.
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17/02/2026 MANDACHUVAS E MARIONETES