Sociedade

Jubileu de prata
com sabor de ouro

TUGA MARTINS - 05/01/2000

Hortência, Ana Moser, Oscar, Marcel, Fernando Meligeni, Paula, Carioquinha e outros ases das quadras têm em comum, mais que o sucesso na vida esportiva, fragmentos dos 25 anos de história do Celafiscs (Centro de Estudos do Laboratório de Aptidão Física de São Caetano). Por trás dessa vitrine de atletas famosos, a instituição abriga reconhecimento internacional para as pesquisas de ponta que desenvolve. Não é à toa que em 1999 festejou o Jubileu de Prata com três estrelas douradas incorporadas ao logotipo. Cada marca representa uma conquista -- Medalha de Ouro nas Olimpíadas de Barcelona (Espanha), em 1992; prêmio da Unesco Philip Noel Backer concedido pelo Conselho Internacional de Ciência Esportiva, em 1995; e Prince Faisal Prize de 1996, indicado pela Federação Internacional de Educação Física. Além de troféus, as premiações significam verba nos cofres do Celafiscs. A alquimia com as cifras é óbvia. A instituição transforma ouro em mais pesquisas.

O Celafiscs atua em quatro áreas específicas: recuperação, manutenção, melhoria e excelência da saúde. É do Celafiscs o crédito do primeiro teste de potência anaeróbica do mundo, denominado Corrida de 40 Segundos, que mede a capacidade de realizar trabalho físico de curta duração. Sob a mesma grife está a Estratégia Z, proposta criada para avaliar superatletas e detectar talentos. "Essas propostas correram mundo" -- orgulha-se o médico e diretor Victor Matsudo, que, com a pediatra Ana Maria Tarapanoff, idealizou e fundou o centro. A perícia é meticulosa. Os estudos modelam perfis esportistas em detalhes. Tabelas mostram com exatidão quanto o atleta precisa ter de gordura, força muscular, resistência e outros quesitos para atingir o melhor desempenho em cada modalidade. "Conseguimos distinguir quem é bom, ótimo e excepcional" -- garante Matsudo. As avaliações envolvem critérios biológicos para diagnóstico, prescrição e prognóstico esportivo.

O fenômeno Hortência é um dos exemplos clássicos da sagacidade da equipe de 10 profissionais e média de seis a 10 estagiários por ano do Celafiscs. "Ela sequer era jogadora de basquete" -- lembra Matsudo. Naquela época, a maior cestinha brasileira praticava handebol nas quadras do Colégio Santa Maria, de São Caetano. Seu segundo esporte era o atletismo. Basquete era terceira opção. O desenvolvimento de Hortência foi acompanhado pelo Celafiscs desde os 12 anos de idade. A maioria dos grandes nomes do basquete nacional feminino e masculino foi objeto de estudo da instituição. Os resultados extrapolaram as barreiras científicas. Encantaram torcedores e despertaram os olhos do mundo para as quadras do Brasil.

Além de forjar campeões, o Centro de Estudos de Aptidão Física investe na capacitação de profissionais da ciência esportiva. Médicos, professores de Educação Física, nutricionistas, psicólogos e outros são alvo de projetos de qualificação e especialização acadêmica. Começam com estágio de um ano, período no qual têm de produzir projeto de pesquisa na área do movimento humano. "Os melhores são escolhidos para ficar mais um ano e aqueles que se destacam passam a compor a equipe" -- incentiva o diretor. O trabalho de qualificação profissional é reconhecido dentro e fora do País. Na trajetória de 25 anos, o Celafiscs credenciou mais de 160 profissionais que ajudam a contar a história do esporte nacional e do Exterior. "Criamos uma abordagem nova no esporte, que é a ciência aplicada à realidade do Terceiro Mundo" -- diz Matsudo.

Engana-se quem pensa que o Celafiscs ostenta parafernália modernosa, com equipamentos de fazer inveja à imaginação cinematográfica de George Lucas. A estrutura física do laboratório é simples e o futuro é traçado em direção aos mais diversos pódiuns. "Nosso principal equipamento é o neurônio" -- garante o diretor. A rota de vitórias do Celafiscs está ancorada em bases reais. Os estudos partem da premissa de fornecer respostas para prioridades locais com mais trabalho do que teoria. O modelo de pesquisa escolhido pelo Celafiscs emergiu pela primeira vez no universo acadêmico em 1977, quando apresentou mais pesquisas que qualquer outro laboratório, mesmo os subsidiados pelo governo. 

Em plena ditadura militar, quando o então ministro Golbery do Couto e Silva queria transformar o Brasil em potência olímpica, os aplausos estrangeiros durante o Congresso Mundial de Medicina Esportiva foram para o Celafiscs e não para os projetos mirabolantes do governo. "Sempre praticamos a idéia de caminhar pelas próprias pernas e trabalhar em equipe" -- sublinha Victor Matsudo. A instituição de São Caetano cativou a atenção de outras nações porque apresentou novos conhecimentos de interesse mundial. Levou a público pesquisas práticas, com resultados baseados em intervenções e fatos, não em versões acadêmicas. A partir daí, não é exagero dizer que o Celafiscs está entre as principais referências esportivas do planeta.


Agita -- De olho na performance do Centro de Estudos de Aptidão Física e ao mesmo tempo no sedentarismo excessivo do dia-a-dia contemporâneo, a Secretaria de Saúde do Estado de São Paulo colocou nas mãos da instituição um dos maiores desafios da década: desenvolver o programa Agita São Paulo para promover saúde coletiva por meio da atividade física contínua. O ponto de partida para dois anos de pesquisas ainda são números alarmantes. O baixo nível de atividade física é destacado como fator importante de doenças degenerativas como diabetes, hipertensão, coronariana e osteoporose. "A atividade física reduz o risco de desenvolvimento de doenças crônicas e mostra-se como vetor para aumento da longevidade" -- assegura o médico Victor Matsudo.

O duelo com músculos enferrujados tornou-se tarefa das mais simples diante do trabalho de atingir a consciência da população sobre os benefícios da atividade física. Envolver a comunidade demandou marketing e genialidade. Foi preciso incitar o espírito de sobrevivência. Para não deixar ninguém de fora, o Programa Agita São Paulo apostou no envolvimento diferenciado de três grupos: crianças e adolescentes escolares, trabalhadores de colarinhos branco e azul, e idosos. O programa foi lançado em dezembro de 1996 e encerrou o terceiro ano de aplicação com cerca de 140 organizações parceiras.

Cartazes, folders manuais e slides foram produzidos para seduzir ao movimento até mesmo os mais herméticos. A principal cantada é irresistível: dedicar 30 minutos diários à atividade física, mesmo que seja de forma acumulada em blocos de 10 ou 15 minutos. De cara, o fator tempo, a mais famosa desculpa dos extremamente ocupados, cai por terra. E o que fazer em meia hora? As sugestões são quase irrecusáveis. Caminhar, levar o cachorro para passear, subir escadas, cuidar do jardim, limpar a casa, dançar, lavar carro e outras ações. "Para se ter idéia da importância da vida ativa, basta comparar que o risco de alguém morrer de Aids em São Paulo é de um para seis mil, enquanto em consequência do sedentarismo é de sete para 10" -- alerta Matsudo. O sedentarismo atinge 69,3% da população, enquanto alcoolismo envolve 7,7%, obesidade 18%, hipertensão 22,3% e tabagismo 37,9%. Para confirmar esses índices basta enumerar quantas pessoas da família são alcoólatras, obesas, hipertensas, fumantes e sedentárias. "O que mais mata é o estilo de vida" -- arremata Matsudo.

Simples e polêmico, o programa Agita São Paulo foi escolhido como modelo da OMS (Organização Mundial da Saúde) e o Celafiscs eleito para ser o núcleo de coordenação de cartilha mundial de atividades físicas. A amplitude do trabalho comove Matsudo. Ele não esconde a emoção de ter alastrado idéias por universidades na mesma proporção com que tocou as mais distantes periferias do Terceiro Mundo. Para romper fronteiras culturais criou o mascote Meiorito, um reloginho charmoso que alerta de madames a peões que é preciso mexer o corpo. Aos profissionais de saúde criou o Agitol, remédio certeiro para os males do século. Na embalagem, tarja vermelha que dispensa pedido médico. Na bula, nada de contra-indicações. Empresas que adotaram o programa registraram diminuição de ausência no trabalho, redução dos custos médicos, melhoria da produção e aumento dos lucros. Estudos mencionados por Matsudo comprovam que a atividade física na fase escolar melhora o rendimento acadêmico, diminui a evasão e as faltas, inibe comportamentos agressivos, aprimora o relacionamentos com pais, aumenta a responsabilidade e implementa o nível de aptidão física.


Roda-viva -- "A manutenção do Celafiscs é quase que totalmente financiada pela paixão". Assim o diretor Victor Matsudo descreve o fluxo financeiro da entidade, mas complementa: "Mantemos os pés no chão". Fora a injeção voluntária de recursos promovida pelos adeptos da ciência do esporte, a instituição mantém convênio com a Prefeitura de São Caetano, Fapesp (Fundação de Amparo à Pesquisa no Estado de São Paulo) e recebe financiamento do CNPq (Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico). Garante recursos também com publicações, cursos e simpósios que promove. A direção é voluntária formada por mestres e doutores em Educação Física, Saúde Pública e Fisiologia do Esforço. Dedica 15 horas semanais ao trabalho na entidade.

A roda-viva de dedicação remonta a arquivos da história de São Caetano quando, na década de 70, um grupo de jovens do então Tijucussu Clube organizou a primeira olimpíada colegial da cidade. Empolgado com o resultado, o grupo promoveu simpósio, abriu discussões aprofundadas sobre os aspectos científicos da prática esportiva e montou simultaneamente laboratório experimental sobre o assunto, o que acabou evoluindo para a condição de Centro de Estudos. Resumo da história do Celafiscs? Não.  Prólogo de um sonho mais que realizado.


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