Sociedade

Lugar de mulher
é no comando

RAFAEL GUELTA - 05/04/2000

Suzana Cristina Mongelli Martin, 27 anos, não se parece nem um pouco com o que de fato é. Que o digam perplexos mecânicos das concessionárias às quais ela leva periodicamente o automóvel para reparos e revisões. Apesar dos gestos delicados, aura de romantismo adolescente e timidez explícita, Suzana não tem nada de Penélope Charmosa, a personagem-motorista de desenho animado que só entende de vaidade e cremes de beleza. Surpreende profissionais experientes -- e também espertalhões que exploram a falta de conhecimento que a maioria das mulheres tem sobre automóveis -- porque roncos de motores, rolamentos e barulhos de latarias são música para seus ouvidos. Na oficina, é ela quem aponta o problema, dá especificações técnicas detalhadas e determina que tipo de conserto deve ser feito. Ao mecânico, contrariado ou não, só resta concordar e obedecer.


Por isso é fácil imaginar o alvoroço e a perplexidade entre os 140 homens que trabalham na fábrica de motores da Scania Latin America, em São Bernardo, ambiente historicamente masculino, quando a engenheira mecânica Suzana Martin foi anunciada como nova chefe da linha de montagem de motores e logística. Foi há pouco mais de um mês, no dia 1º de março, uma semana antes da comemoração do Dia Internacional da Mulher. Desde então, o ambiente de trabalho está melhor do que nunca, garantem respeitosos e respeitáveis machões. Suzana é a princesa viking da sueca Scania no Grande ABC. Única mulher entre os 2,3 mil funcionários a integrar a linha de produção, a jovem engenheira não se constrange em pôr a mão na graxa e, se houver necessidade, pegar no pesado.


Não é de hoje que as mulheres cada vez mais abraçam profissões antes dominadas pelos homens. Reprimidas durante séculos pelo modelo de sociedade patriarcal e machista, elas não têm nada, absolutamente nada, a provar nos quesitos sensibilidade, criatividade e inteligência. Simplesmente são iguais ou até melhores que os homens em qualquer ambiente. Não precisam expor ranço de superioridade ou frieza diante de subordinados e situações complexas. No pavilhão da fábrica de motores da Scania a presença de Suzana é símbolo do novo mundo globalizado que, tanto quanto vê e explora o planeta como mercado único, atropela diferenças e preconceitos.


Aplicada em matérias que exigem habilidade em cálculo, como Matemática e Física, Suzana tomou o rumo da fábrica de motores no último ano do Ensino Fundamental, quando decidiu conhecer escolas técnicas para escolher um curso profissionalizante. Inteligente, quis mais do que proporciona o tradicional Ensino Médio. Encantou-se com o curso de Mecânica de Precisão da Escola Senai de Santo Amaro, em São Paulo. Os pais aceitaram bem a escolha. Com apoio da família, Suzana formou-se no Senai, cursou Engenharia Mecânica na Unesp (Universidade do Estado de São Paulo) em Guaratinguetá e acaba de concluir pós-graduação na Fundação Vanzolini, da USP (Universidade de São Paulo). 


A engenheira está na Scania desde 1995. Ingressou na companhia como estagiária e teve carreira meteórica. Começou na área de Engenharia de Segurança. Antes de chegar à chefia da fábrica de motores, saltou para a Engenharia de Produção da fábrica de chassis -- onde atuou no Departamento de Logística Industrial -- e tornou-se supervisora de Administração de Materiais. Hoje administra três linhas de montagem, de onde saem diariamente 48 motores potentes que pesam, cada um, cerca de uma tonelada. Suzana é responsável pela manufatura, complementação final com a caixa de câmbio e logística com fornecedores -- da obediência às normas de qualidade à administração e manuseio de materiais.


Ninguém na Scania em São Bernardo entende mais de motores do que ela. "Motor é a alma do caminhão" -- diz a engenheira. Suzana fez curso na própria montadora para conhecer o produto em detalhes. Nunca dirigiu um caminhão pesado, mas sabe montar sozinha um motor. Nomes de peças como eixo dos acionadores, virabrequim, bomba injetora e coletor de admissão saem de sua boca com a mesma naturalidade com que são ditos por barbados motoristas e mecânicos que chamam de brutos os caminhões que rodam pelos estradões do Brasil. A responsabilidade de Suzana é imensa. Motores Scania têm forte tradição no mercado porque, quando bem conservados e utilizados corretamente, chegam a rodar mais de um milhão de quilômetros sem necessidade de retífica.


A fábrica de São Bernardo produz, além de motores marítimos, motores de nove e 12 litros que equipam caminhões pesados e ônibus. O de nove litros tem potência que vai de 220 a 310 cavalos. O de 12 litros tem duas versões: de 330 a 360 cavalos com bomba injetora e de 400 e 420 cavalos com injeção eletrônica. Suzana não adianta detalhes, mas trabalha em uma nova versão que irá substituir brevemente a de nove litros. "Só posso antecipar que é um motor com concepção diferente, inédita no mercado brasileiro" -- provoca. Os produtos manufaturados pela Scania em São Bernardo já obedecem às exigências de baixas emissões de poluentes determinadas pela União Européia e que começam a vigorar em outubro deste ano. "É um orgulho comandar a manufatura de produtos que respeitam o meio ambiente" -- fala a zelosa engenheira.


No posto até agora só ocupado por quarentões, a jovem Suzana não faz o estilo chefe durona. Nem é essa a característica do seu tipo físico. O jeito delicado de transmitir ordens e orientações aos colegas de trabalho, alguns engenheiros como ela, dá falsa impressão de falta de autoridade. Mas é mesmo falsa impressão. Suzana sabe o que quer. É decidida, cuidadosa e exigente quando estão em jogo produtividade e qualidade. "Temos um ambiente de trabalho extremamente saudável. Eles entendem que às vezes preciso impor e respeitam minhas decisões" -- observa. Para se adequar ao ambiente, Suzana veste-se com calça comprida que não realça o corpo feminino e camisa masculina, nas cores bege e cinza adotadas em toda a linha de montagem da Scania Latin America.   


A princesa viking não tem queixa dos 140 homens que comanda. "Eles me tratam com respeito e são gentis" -- afirma. Garante que nunca percebeu atitude de preconceito por ser mulher. "Quando assumi a fábrica de motores percebi que os funcionários deixaram de falar gírias e alguns palavrões que são comuns em ambientes masculinos. Agora eles estão mais soltos, falam comigo mais à vontade, obviamente mantendo respeito. De minha parte, estou bem integrada ao ambiente e gosto do que faço" -- diz a engenheira.


Suzana mora com os pais em São Paulo e namora há oito anos um engenheiro que conheceu na faculdade, em Guaratinguetá, e que trabalha na fábrica da Volkswagen Anchieta. Gosta de viajar com ele para Ubatuba e Campinas nos fins de semana. Faz caminhadas e pedala frequentemente para manter a forma. No criado-mudo do seu quarto potes de cosméticos convivem harmonicamente com miniaturas de caminhões Scania. "Sou vaidosa como qualquer outra mulher. Gosto de usar maquiagem leve à noite. Nos fins de semana vou para a cozinha. Durante o dia só visto roupa esportiva, principalmente short" -- afirma.


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