O que é mais difícil: descer rampa com 90 graus de inclinação equilibrando-se numa tábua sobre rodas ou acertar o ponto exato na hora de temperar um pansoti com filé mignon e shitake digno de prêmio gastronômico?
Para Mônica Polistchuk, nenhuma alternativa assusta. Essa andreense que rodou boa parte do mundo tira de letra tanto os altos vôos no skate quanto as altas temperaturas à frente do fogão, e desde criança. Literalmente Mônica Polistchuk pode meter os pés pelas mãos porque tudo que faz dá certo nas duas canchas -- cozinha e pista vertical de skate, conhecida como half pipe. São as duas paixões que movem essa canceriana de 32 anos, divorciada, mãe de três filhos e cidadã do mundo que aprendeu a saborear vários temperos e culturas diferentes. Ingredientes que engrossaram o caldo de experiência de vida da chefe de cozinha do Restaurante Questo Pasta, em Santo André, e dona da Naturelle, microempresa que fornece petiscos para boa parte da rota noturna de bares e restaurantes da Avenida Kennedy, em São Bernardo, onde mora com os filhos. O primeiro prêmio e reconhecimento para essa autodidata vieram só agora, 10 anos após ter se embrenhado no mundo das panelas e condimentos. Mônica foi eleita a melhor chef de cozinha de Santo André, título conquistado em abril durante o 3º Festival Gastronômico da cidade, organizado pelo Sehal (Sindicato das Empresas de Hospedagem e Alimentação do Grande ABC). Em junho foi a vez do Questo Pasta receber o Selo de Qualidade do Sehal, promovido em parceria com a Craisa de Santo André.
A história de amor e sucesso com a cozinha começou muito antes de Mônica Polistchuk virar chef. Precoce, obstinada e em busca de independência, ela deu os primeiros passos na cozinha aos 13 anos, não por prazer ou ensinamento imposto pela mãe de origem alemã, mas para ganhar dinheiro. Mônica encontrou na dobradinha comida e skate a oportunidade de se tornar independente, correr o mundo e fazer o que quisesse sem ter de esperar o dia da mesada. Na cozinha da mãe preparava bolos de cenoura com chocolate e sanduíches para vender na escola. Na informalidade do emprego mirim conseguia ganhar mais do que um salário mínimo por semana, à época dinheiro suficiente para garantir os equipamentos da skatista principiante. De segunda a sexta-feira, muito trabalho e bolo para assar, cortar, embalar e vender, mas nos finais de semana era hora de descer e subir o half pipe, se arriscar num mundo estritamente masculino e aproveitar a falta de concorrentes do mesmo sexo.
Mônica foi e se mantém precursora até hoje: é a única mulher do País a competir em pista vertical -- o street (rua) é mais praticado pelo sexo feminino. Compete geralmente só contra homens, mas admite que faz apenas uma manobra radical (giro no ar), arte que lhe vale o título de corajosa no circuito. "O pessoal me recebe muito bem. Quando as meninas me vêem dropando (descendo o half), elogiam minha coragem" -- conta em linguagem de skatista que foi campeã brasileira de street feminino, em 1991.
Mônica Polistchuk prosseguiu com conquistas num mundo também aparentemente dominado pelos homens -- o das cozinhas de restaurantes, onde pratos precisam não só de sabor, mas de visual, criatividade e ousadia. Dos bolos de cenoura e chocolate que fazia na incipiente adolescência, passou à caça de especiarias e produtos diferentes para compor seus pratos, então mais elaborados e exóticos. Mas o skate não saiu de cena e acabou virando a desculpa ideal para Mônica iniciar a trajetória culinária e pessoal. Foi por causa do esporte que começou a mexer de verdade na cozinha, e fora do Brasil.
Aos 18 anos, com apenas US$ 400 no bolso e um skate nas mãos (ou pés), Mônica Polistchuk embarcou com equipe de nove profissionais na qual era a única mulher para os Estados Unidos, mais precisamente Los Angeles, Califórnia, onde iria participar de competição. O dinheiro acabou em uma semana, o inglês era ginasiano e Mônica teve de ir à luta e trabalhar para ganhar dólares que lhe garantissem a compra da passagem de volta, mas só voltou seis meses depois. Nada por acaso, pois estava tudo planejado. Só os pais não sabiam. "Fui com a intenção de ficar, de aprender inglês e de viver. Deixei até o vestibular de Educação Física para trás. O skate foi só desculpa. Nem cheguei a competir porque o dinheiro acabou e não sobrou nada para fazer a inscrição" -- confidencia a chef premiada de Santo André.
Bom para ela e para as cozinhas pelas quais passou nos EUA, na Inglaterra e no Brasil nos anos que se seguiram. Nos Estados Unidos, mal falando please e thank you, Mônica teve sorte e se valeu de várias coincidências para se dar bem. Ainda em Los Angeles, se inscreveu num curso gratuito de inglês para imigrantes, onde conheceu manicure brasileira que lhe arranjou casa para morar, na qual servia de acompanhante da dona, uma norte-americana de meia-idade. "O que eu podia querer mais? Tinha casa, comida e estava na escola aprendendo inglês. Que jovem de 18 anos não quer sair do país?" -- questiona a chef premiada. Depois de seis meses como babá de adulto, Mônica arrumou o primeiro emprego nos EUA como baby siter, é lógico, e foi morar sozinha. O segundo emprego? Um restaurante caribenho, onde logo entrou como auxiliar do chef de cozinha para fazer molhos e saladas. Foram 365 dias na Terra do Tio Sam. "Valeu: além de aprender inglês, tive lição de vida" -- avalia a mãe de Nataska, de oito anos, Yhnak, de seis, e Yuri, de três, todos skatistas e metidos a cozinheiros mirins.
Quando voltou dos Estados Unidos, Mônica Polistchuk tinha 19 anos, muitos sonhos e um namorado de infância à espera, com quem foi viver e vender sanduíches e tortas naturais nos arredores da Avenida Paulista, na Capital. Era a dobradinha cesta de vime e sanduíche natural que deu certo e rendia até US$ 2 mil por mês. "Foi muito bom, compramos carro, mobiliamos apartamento, viajamos muito". Durante dois anos a vida foi essa, mas o espírito aventureiro falou mais alto. Sem o namorado, fez as malas e resolveu morar em Londres, de novo perto das cozinhas. Começou como garçonete numa das lojas da rede Pizza Hut. "Mas pagavam muito mal e eu era péssima servindo. Meu negócio era ficar na cozinha". Foi para onde Mônica rumou, entre os fogões e panelas do Café Soho, fazendo sanduíches que logo viraram sucesso entre os fregueses. Com o tempo ela se propôs a fazer outros pratos, como molhos, saladas e sopas. "O dono me perguntava: você sabe fazer tal sopa? Eu respondia que sabia, saía do trabalho, passava na livraria, comprava um livro de receitas, fazia o prato à noite e no dia seguinte a sopa estava na mesa do freguês" -- conta sorrindo. E assim foi aprendendo. Mergulhada nos livros e no fogão, criava receitas e cardápios que agradavam ao não muito exigente porém mais ousado paladar dos ingleses. "O brasileiro é mais resistente a comidas diferentes" -- compara a chef de Santo André.
Depois de um ano, a irrequieta Mônica Polistchuk resolveu voltar ao Brasil -- saudades do arroz, feijão e bife acebolado da mãe. Reencontrou o antigo namorado, reatou o relacionamento, casou-se e, de novo, partiu para a Inglaterra, onde deu à luz sua primeira filha. Novamente a base foi Londres, onde aliou-se ao dono do Café Soho, seu trabalho anterior, para montar café diferente que não servia nenhum prato que tivesse carne como ingrediente. Foi um sucesso. Durou três anos e proporcionou à Mônica fazer o que mais gosta na cozinha: criar, inventar, combinar doce com salgado, texturas diferentes, enfim, inovar. "Mas a culinária inglesa em nada me influenciou. Aprendi a conhecer e escolher produtos de primeira linha e boa qualidade e a garimpar maravilhas nos restaurantes indianos de Londres, esses sim me influenciaram" -- conta, ao lembrar de uma prato muito pedido e criado por ela: berinjela recheada com arroz selvagem. No café Mônica Polistchuk era mix de chef de cozinha, gerente e compradora -- tinha apenas dois ajudantes. "Cozinhar em Londres é uma maravilha: o cliente se arrisca a experimentar novidades" -- conta.
Mas de novo Mônica sentiu saudades do arroz e feijão e resolveu voltar ao Brasil. Chegou em 1995, depois de três anos em Londres. Com os cinco mil dólares que juntou montou com o marido em São Bernardo a Natural Way, de sanduíches naturais, que chegou a vender quatro mil lanches por dia para empresas como Volkswagen e Ford. O sonho durou dois anos e meio e não resistiu ao Plano Real. A empresa tinha 20 funcionários e faliu. Também ruiu o casamento de Mônica. Nesse período de idas e vindas a Londres, o skate ficou esquecido no armário. Só sobrava tempo para o trabalho e as crianças.
Hoje, Mônica Polistchuk vive só com os três filhos, não quer saber de casar de novo nem de ter ninguém (adulto) para cuidar. Assim, acredita que sobra mais tempo para seus dois maiores prazeres: cozinhar e andar de skate. Incansável e irrequieta, às 7h já está de pé para mandar as crianças à escola e só dorme depois da 1h, após muito trabalho e rodar a cidade em sua moto XL-200. Além de chef da Questo Pasta, Mônica comanda o salão Narutelle, onde produz e distribui salgados, tortas e doces para oito bares da Avenida Kennedy, em São Bernardo. "Lapidei-me como chef na Inglaterra porque comecei a ir a feiras de alimentação, participei de workshop e fiz cursos com grandes chefs europeus, como Emanuel Bassoliel e Francesco de Carli" -- conta a dublê de chef de cozinha e skatista radical.
No Questo Pasta, Mônica diz ter o que mais precisa para cozinhar bem: liberdade para criar. Para ela, os restaurantes não são mais um mundo dominado pelos homens. "As mulheres evoluíram e deram ótimas chefs" -- opina, ao admitir que em casa não gosta de cozinhar e que a garotada come mesmo é pizza. Sonho? Realização? Mônica diz se sentir realizada. "Sou uma mulher independente, que sobrevive e cria três filhos trabalhando naquilo que mais gosto". E ainda sobra tempo para o skate.
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12/02/2026 REDES SOCIAIS BEM AO GOSTO DOS PODEROSOS