O momento do pulo do gato está próximo para José Bernardo Salazar. O artista de 50 anos prepara-se para dar a largada no principal projeto da carreira sempre dividida entre a necessidade de sobrevivência e a paixão pelas artes plásticas. O escultor que ganhou a vida com a habilidade manual herdada do bisavô costarriquenho decidiu dedicar-se exclusivamente à escultura de monumentos porque persegue seu maior sonho pessoal. Salazar quer atingir o ápice da trajetória profissional com a confecção de obras gigantes e elegeu o prefeito morto Celso Daniel como um dos personagens da empreitada que mescla criatividade, destreza, lógica e empreendedorismo.
José Bernardo Salazar sonha alto. São devaneios que alcançam o tamanho dos gigantes das histórias infantis e podem atingir as dimensões de um prédio de 30 andares. Só depende do que a mente pode criar e as mãos são capazes de reproduzir. A homenagem a Celso Daniel prevê estátua com três metros de altura, cortes na base que representam o planejamento de Santo André e linhas inacabadas para simbolizar a morte precoce do administrador. A leitura é moderna, mas a técnica milenar expõe o artista ao paradoxo de transportar para o século XXI a modalidade que consagrou o italiano Michelângelo há mais de 500 anos, na Idade Média.
"Às vezes eu gostaria de parar de pensar, porque são muitas as idéias" -- brinca Salazar. O artista ainda carrega no sotaque castelhano e fala com a mesma veemência com que transforma parte dos pensamentos em maquetes e miniaturas. Peças de tamanho reduzido recheiam as prateleiras do ateliê montado na Vila Alice, em Santo André, e sinalizam o ponto de partida do projeto Nasce Um Escultor. O slogan pode até parecer antiquado, mas foi escolhido por José Bernardo Salazar para designar a fase da carreira que considera única. Pela primeira vez na vida, vai dedicar-se exclusivamente àquilo que sempre quis fazer: esculpir monumentos.
A exposição Nasce Um Escultor está programada para novembro de 2003 em local a ser definido. O segredo não significa estrelismo. Faz parte de estratégia que mescla cultura e marketing e passa longe do hábito pouco salutar de plantar informações infundadas. Salazar trabalha em parceria com profissional da área de captação de recursos e vai divulgar os detalhes da exposição após definir os patrocinadores. Até lá, prefere canalizar a energia na confecção do Monumento Família Negra, que reúne em inox fundido com cinco metros de altura figuras de Pelé, Gilberto Gil, Djavan, escrava Anastácia e Zumbi. São 29 personagens famosos e anônimos que representam a raça africana e compõem a primeira parte do projeto.
O monumento dedicado a Celso Daniel é outra vertente do Nasce Um Escultor. Obviamente o artista teria preferido incluir o prefeito entre suas obras em circunstâncias menos trágicas. Mesmo assim, optou por conferir à escultura do político assassinado em janeiro último mais traços de heroísmo do que de martírio. A imagem está sendo construída por meio da observação de fotografias das várias fases da vida de Celso Daniel e deve passar pelo crivo da família. "É importante para o escultor ter a aprovação dos parentes mais próximos" -- explica José Bernardo Salazar.
Parque e monumento -- Salazar sonha em ver o monumento de Celso Daniel instalado no principal parque de Santo André que recentemente ganhou o nome do ex-prefeito e rodeado por cinco palmeiras imperiais. Como sabe que a missão não é das mais simples, planeja angariar parceiros na iniciativa privada e doar a obra ao Município. É a forma considerada ideal para encurtar os tortuosos caminhos burocráticos que certamente teria de enfrentar se fosse negociar diretamente com o Poder Público.
Se concretizado, o projeto de imortalizar Celso Daniel não será a primeira obra monumental de José Bernardo Salazar exposta no Grande ABC. A imagem de São Caetano que está no Parque Chico Mendes foi esculpida pelo costarriquenho, que vive na região há 22 anos. Também levam a assinatura do artista o Monumento à Mulher instalado na Avenida Goiás e o busto de Ângelo Raphael Pelegrino, o primeiro prefeito de São Caetano, eleito em 1949. Atualmente Salazar empresta seu talento à recuperação do Monumento à Família Nordestina, obra originalmente confeccionada em madeira e que desperta interesse da Fundação das Artes, também de São Caetano. Na lista de restaurações constam ainda as estátuas de João Ramalho e Senador Fláquer, em Santo André, o coreto do Bairro de São Cristóvão, no Rio de Janeiro, e algumas partes da Estação da Luz, em São Paulo.
A habilidade para esculpir foi a principal herança que José Bernardo Salazar recebeu do tataravô e do avô, ambos escultores de imagens sacras na Costa Rica. Aos sete anos criou as primeiras peças e a criatividade o premiou com uma bolsa de estudos para o Conservatório Castella, estabelecimento de ensino que mesclava o currículo tradicional com o ofício das artes plásticas. "Me acostumei a colocar a mão na massa muito cedo" -- conta Salazar ao lembrar de passagens da infância.
Os bancos escolares lapidaram o talento nato, mas as dificuldades de sobrevivência no país da América Central fizeram o artista desistir do curso de Arquitetura e rumar para o Brasil. Era 1974 e Salazar colocava o pé no futuro sem tirar os olhos do passado. Sonhava seguir o rastro de Victor Brecheret, o brasileiro que esculpiu o Monumento às Bandeiras e o Monumento a Caxias nos anos 40 e 50. Ou os de Giovanni Lorenzo Bernini, o arquiteto e escultor italiano famoso pelo altar-mor da Igreja de São Pedro e outras obras de arte encontradas em Roma.
A vida de Salazar em terras brasileiras, no entanto, desviou do curso por ele imaginado mais uma vez. O artista se tornou ilustrador na Editora Abril e passou a exercitar o talento no mercado editorial e publicitário depois de confeccionar um busto do ex-presidente Ernesto Geisel para a capa de uma revista semanal. A criação só não ganhou as páginas da mídia porque, inadvertidamente, foi esculpida em vermelho e o período não era apropriado para associar um general do Exército à cor usada por partidos políticos da esquerda revolucionária.
O resultado positivo da escultura para ilustração abriu caminho profissional em outras publicações de circulação nacional. Salazar criou imagens dos cantores Cartola e Chico Buarque; dos esportistas Sócrates, Zico, Montanaro, Joaquim Cruz e Ayrton Senna para ilustrar reportagens especiais e foi o idealizador da estatueta do troféu Bumbum da revista Playboy. Também trabalhou como ilustrador técnico por 14 anos na Volkswagen e se considera um dos pioneiros na reprodução de produtos e processos industriais em forma de maquetes para filmagem e fotos, além de aplicações didáticas.
A experiência profissional está toda documentada em portfólio que em breve fará par com algum álbum de recordações. Desde que decidiu dedicar-se exclusivamente à escutara de monumentos, há dois anos, José Bernardo Salazar tem-se afastado gradativamente das atividades que o permitiram criar e prover o estudo do casal de filhos Frederico e Caroline. A vontade de resgatar o sistema de trabalho e a hierarquia que consagraram escultores no passado é tão grande quanto a necessidade de reencontrar o plano de vida interrompido pela guerra da sobrevivência.
Salazar sonha em formar uma equipe de trabalho. Quer ser criador preocupado apenas com a criatura e delegar a terceiros as tarefas de fundir, montar, transportar e cuidar de tantos outros detalhes que envolvem a instalação dos monumentos. Não à toa, o artista finaliza a construção de um pantógrafo para ampliações gigantes indispensável à arte monumental. A máquina, totalmente construída pelo escultor após aprofundada pesquisa em livros antigos de arte, sintetiza a determinação de quem sabe onde pode chegar e quer atingir o objetivo. "Acredito que ainda vou fazer um monumento tão significativo quanto o Buda destruído pelos talibãs do Afeganistão" -- garante.
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12/02/2026 REDES SOCIAIS BEM AO GOSTO DOS PODEROSOS