Nem chata, nem briguenta e muito menos encrenqueira. A andreense Maria Paula Rizzo é apenas uma cidadã na mais completa definição da palavra. Armada de paciência, boa vontade e coragem para comprar brigas que muitas vezes parecem perdidas, a psicóloga de 38 anos tem se tornado verdadeira pedra no sapato dos que frequentemente insistem em burlar as leis e quebrar as regras da boa convivência. Maria Paula abomina o tradicional jeitinho que leva a fugazes momentos de vantagem e luta exatamente por aquilo que lhe é de direito -- não importa o tamanho da causa.
Se Maria Paula Rizzo fosse a autora do dito popular que reza Aos Amigos, Tudo e Aos Inimigos, a Lei, certamente teria escrito: a lei vale para todos, inclusive para amigos. Apesar das inúmeras situações contrárias que vivencia periodicamente, ela acredita na relação praticamente cartesiana da causa e consequência. Nunca deixa de erguer a voz -- sempre no bom sentido -- e coleciona histórias para rechear mais de três horas ininterruptas de conversa. A fala pausada, quase didática, provavelmente resultado da experiência profissional de 15 anos em psicologia e 10 no magistério é sempre marcada pela contundência. "É necessário quebrar a barreira do deixa pra lá, do não adianta reclamar" -- insiste.
A veia cidadã de Maria Paula despertou muito antes do Código de Defesa do Consumidor ter surgido em 1991 como o baluarte dos fracos e oprimidos nas relações comerciais. Ela lembra das aulas de educação moral e cívica nos anos 70, nas quais se falava muito de direitos e deveres. Aluna atenta, não demorou a perceber a diferença entre o que aprendia na escola e o que acontecia do lado de fora, onde o dever sempre ganhava de goleada do direito. Assim, aprendeu a conjugar as lições acadêmicas e da vida para aguçar a compreensão de que a justiça, às vezes, não se curva diante daqueles que optam por calar-se.
Psicóloga disciplinada e atenciosa no atendimento a pacientes da clínica médica onde trabalha, a cidadã Maria Paula Rizzo reclama de quase tudo que esteja fora da ordem estabelecida depois da porta do consultório. Obviamente, a missão de ser crítica e vigilante 24 horas por dia é espinhosa e deixa brechas para escapar uma coisa aqui e outra ali. O sinal de alerta, no entanto, está sempre pronto para ser acionado. "O importante é ter coerência e certeza do que se está fazendo. Procuro sempre esgotar todas as alternativas de diálogo antes de tomar medidas mais radicais" -- ensina.
Apesar de ter se tornado expert em assuntos relacionados a direito do cidadão, Paula não costuma recorrer aos tribunais para ver suas queixas atendidas. No entanto, é assídua do Procon e atribui ao auxílio desse órgão de defesa do consumidor grande parte dos resultados favoráveis que obteve até o momento. A tática é não quebrar a hierarquia e procurar o responsável pelo estabelecimento ou serviço para formalizar a reclamação. Somente na falta de providências ela apela para instâncias superiores, geralmente supervisores, proprietários ou a administração dos shoppings. O passo seguinte é o Procon. Paula também ensina a sempre anotar o nome completo do atendente, além do dia e horário da conversa.
Há sempre um requinte de detalhes nas explicações de Maria Paula. Meticulosidade própria de quem se especializou em atender pacientes que carregam todo tipo de incerteza e angústia para o divã e apostam no poder da palavra para encontrar algum alívio. A habilidade de comunicação exercitada no trabalho é também, às vezes, utilizada para lembrar os pacientes do valor da cidadania.
A lista de abusos que compõem o currículo de Maria Paula Rizzo começa com potes de margarina da mesma marca expostos à venda com preços diferentes, passa por promoções enganosas que vinculam a entrega de determinado prêmio à compra de títulos de clubes e chega até a conduta pessoal. Ela não se intimida em pedir punição para o motorista que pegou vaga no estacionamento por ter trafegado na contra-mão, enquanto outros aguardavam pacientemente a vez. Nesse caso, o apressadinho teve de tirar o carro e ceder o lugar, que era de direito, à Maria Paula.
Por conta das atitudes destemidas, a psicóloga tornou-se habitué dos encontros regados a café e guloseimas promovidos por uma grande rede de hipermercado de Santo André para melhorar o relacionamento com clientes. Como já foi vítima de algumas irregularidades no estabelecimento e nem todas foram resolvidas a contento, aproveita a oportunidade para reforçar a insatisfação e, claro, exigir a providência. Atualmente, Maria Paula Rizzo anda às voltas com o conserto de um óculos de sol adquirido em shopping center. O serviço foi pago porque a garantia já havia expirado, mas o defeito permanece. "Já cheguei até o Procon, mas até agora nada" -- lamenta, para no mesmo instante alertar: "Vou disparar mensagem negativa pela Internet, já que a loja pertence a uma rede grande e conhecida".
Arma virtual -- Maria Paula Rizzo descobriu que a Internet poderia ser forte aliada quando começou a participar da newsletter Capital Social. Indignada com os sucessivos aumentos da conta telefônica, utilizou o boletim eletrônico de LivreMercado para transmitir aos emeiados -- denominação dada ao grupo de cinco mil leitores diários -- algumas dicas de como controlar as ligações e evitar sustos no final do mês. Surpresa com a repercussão de Capital Social OnLine, passou a utilizar o veículo para divulgar também informações sobre o não-cumprimento da lei municipal que proíbe a cobrança da primeira hora de estacionamento nos estabelecimentos comerciais de Santo André.
Os dois assuntos renderam farta troca de mensagens virtuais, mas o caso da Telefônica, subsidiado pelo próprio histórico de reclamações acumulado pela operadora, foi o que mais chamou a atenção. A psicóloga espelhou-se no exemplo folclórico do Mineiro dos Feijões e estabeleceu planilha detalhada de controle das ligações. O assinante de Minas Gerais colocou dois vasos -- um vazio e outro com grãos de feijão -- ao lado do aparelho telefônico. Cada vez que um pulso telefônico era consumido, ele transferia o grão do recipiente cheio para o outro e criou inusitado método de controle para provar que havia cobrança indevida na sua conta.
Maria Paula utilizou a mesma analogia, só que montou planilha com as especificações da relação entre o custo, o tempo de ligação e o horário fornecidos pela própria Telefônica para iniciar a marcação cerrada. A atitude foi previamente comunicada à operadora, depois de esgotadas todas as tentativas de encaminhar amigavelmente uma revisão dos valores considerados abusivos pela consumidora. O resultado sinalizou que algo estava realmente incorreto, já que a conta da andreense sofreu redução de R$ 90.
Ao contrário do que possa parecer, o lado contestador de Maria Paula Rizzo pouco tem a ver com comportamentos politicamente incorretos de nunca dar o braço a torcer ou querer a razão a qualquer custo. Por isso ela se chateia quando é mal interpretada por outros consumidores que a condenam -- mesmo que veladamente -- por retardar filas ou atrasar o atendimento e esquecem-se que podem ser as próximas vítimas. "Nunca me passou pela cabeça tirar proveito de nenhuma situação. Defendo meus direitos, quero tratamento igual para todos e converso muito com meus filhos sobre minha conduta combativa. Espero que eles aprendam a defender-se, mas acima de tudo quero que aprendam a fazer a coisa certa" -- deseja a mãe de um casal de pré-adolescentes de 11 e 12 anos.
Maria Paula Rizzo também cultiva o hábito de agradecer pelo bom atendimento e de elogiar. Recentemente enviou e-mail de congratulações ao Departamento de Recursos de Multas da Prefeitura de Santo André pela educação e paciência com que funcionários atendem contribuintes em ambiente naturalmente hostil.
Total de 1125 matérias | Página 1
12/02/2026 REDES SOCIAIS BEM AO GOSTO DOS PODEROSOS