Sociedade

Universidade do Plástico
é nossa melhor alternativa

DANIEL LIMA - 20/05/2004

Já que o estupro da Universidade Pública Federal do Grande ABC é inevitável, o melhor é usufruir de um plano estratégico que associe a provável aprovação do projeto de lei que cria a escola e a também possível elevação da capacidade produtiva da Petroquímica União, no Polo Petroquímico de Capuava. Sem firulas, e com a fundamentação técnica de que a sensibilidade do governo federal à dotação de uma escola superior gratuita precisa de especificidade para não cair na vala comum do embaralhamento da maioria das universidades públicas e mesmo privadas do País, apresentamos a seguinte proposta: que “Nosso Futuro é de Plástico”, mote da Reportagem de Capa da revista LivreMercado de maio do ano passado, seja espécie de âncora conceitual para dar à Universidade do Grande ABC o caráter de desenvolvimento econômico de que tanto carecemos.


Somente uma vigorosa vocação à produção industrial com um agregado de serviços empresariais transformará uma medida não-prioritária, no caso a criação da Universidade do Grande ABC, em algo indispensável.


O modelo imaginado pelo deputado federal Ivan Valente e uma trupe de acadêmicos enfeitiçados pelo viés de combate à economia de mercado será metralhado na fase de estruturação da escola, porque conflita frontalmente com a mensagem do presidente Lula da Silva e do ministro da Educação, Tarso Genro.


Esse divisor de águas rompe com os pressupostos que demandaram em nível doméstico, na região, a defesa da escola pública federal de Ensino Superior e, dessa forma, conduz este jornalista ao pragmatismo cooperativo de, mesmo contrariado com a decisão governamental, entrincheirar-se na luta pela produtividade desenvolvimentista da universidade.


Juntamente a esta edição de Capital Social Online, enviaremos hoje às assessorias do presidente Lula da Silva e do ministro Tarso Genro uma cópia da Reportagem de Capa mencionada neste texto, a do “Nosso Futuro é de Plástico”. Contamos em Brasília com pelo menos dois executivos públicos que compreendem as reais necessidades deste território, porque aqui atuaram ao lado do visionário Celso Daniel, no caso Gilberto Carvalho e Miriam Belchior.


Aliás, foi Miriam Belchior quem fez chegar às mãos do presidente Lula da Silva uma cópia do Capital Social Online de segunda-feira. Aquele artigo foi escrito num tom quase intimista e em forma de carta ao presidente da República. Fiz série de ponderações sobre a impropriedade da instalação da Universidade Pública Federal do Grande ABC.


Entregue antes do encontro com os representantes da região, no caso prefeitos e deputados federais, além de sindicalistas, a carta-emeio chegou também ao ministro da Educação, Tarso Genro, um dos representantes do governo no encontro com a comitiva do Grande ABC. Daí o próprio ministro nos ter ligado ontem em nome do presidente.


A oportunidade que se apresenta para tornar saudável a chegada da Universidade Pública Federal do Grande ABC não pode ser desperdiçada. Como a escola será implantada gradualmente, a mobilização temática deveria se dar em torno da indústria de plástico. Nesse sentido, pinço alguns trechos da Reportagem de Capa de LivreMercado de maio do ano passado para facilitar o entendimento dos leitores. Acompanhem:



  •  Quando o Grande ABC de metal será capaz de dar vez ao Grande ABC de plástico e, com isso, contribuir para quebrar o ritmo da desindustrialização e do desemprego? A modernização e a adaptação da economia da região aos novos tempos de mercado automotivo descentralizado — e de substituição gradual de matérias-primas que obedecem a rigidez de metais e ganham a versatilidade dos insumos petroquímicos em forma de plástico — continuam sendo jogo de improvisação que estimula o desperdício e a irracionalidade. Em busca de alternativas econômicas que possam contrabalançar o desastre do novo desenho do parque automotivo nacional movido a financiamentos generosos, guerra fiscal e rebaixamento salarial, o Grande ABC ainda não se deu conta de que está na indústria de transformação de plástico oportunidade de ouro de juntar a fome por novos empreendimentos com a vontade de comer de novos postos de trabalho reconhecidamente agregadores de valor. (…) Se o adensamento do uso de derivados petroquímicos na cadeia transformadora de plástico dentro da produção industrial no Brasil segue a trilha da tendência internacional de substituição de materiais metálicos nas mais diferentes atividades econômicas, não é menos importante o fato de que o Grande ABC é um grande palco para a disseminação da matéria-prima saída dos polos petroquímicos. Em abril de 2001 a empresa gaúcha MaxiQuim encerrou pesquisa encomendada pela Câmara Regional para aprofundar estudo do Sebrae sobre a cadeia petroquímica na região. Uma das conclusões que explicitavam o tamanho das possibilidades e também dos problemas: 326 unidades transformadoras de plástico ocupavam o território regional, com geração de 16.803 empregos e consumo de 200 mil toneladas de resinas.

Aquela Reportagem de Capa que, insistimos, segue em circuito específico para as autoridades da República, esmiúça de tal forma o setor de plástico que fica impossível não se dar respostas que agora se juntam à instalação de uma universidade pública e à necessidade de recuperar a geração de riqueza perdida principalmente durante o governo Fernando Henrique Cardoso.


O que mais me preocupa nessa história toda não é propriamente o governo federal. Pelo contrário. Só o fato de o ministro Tarso Genro entregar à comitiva do Grande ABC uma minuta alinhavando ideias e propostas sobre a universidade local, quando a lógica manda dizer que os representantes locais é que deveriam lhe entregar um projeto minimamente estruturado, mostra o quanto nossa institucionalidade está à deriva e o quanto Celso Daniel faz falta.


Aliás, vou acrescentar ao rol de leitores específicos que receberão uma cópia de “Nosso Futuro é de Plástico” os deputados federais que compuseram o séquito regional recepcionado pelas autoridades da República. Sugiro a eles todos também que leiam com atenção um texto complementar desta edição, assinado por Luiz Franca Neto, engenheiro eletrônico pelo ITA e pesquisador da Intel Corporation, sobre a importância de aliar academia e empreendedorismo.


Sob o título “Universidades e polos industriais”, o articulista assina o artigo na edição de hoje do jornal “O Estado de S. Paulo”. Lembramos que na edição de ontem desta newsletter antecipamos a proposta de unir a universidade e o Polo Petroquímico ampliado. Releiam alguns trechos:


“Acreditamos que, face a uma notícia muito mais alvissareira do encontro de ontem em Brasília, que trata da possibilidade agora real de aumento da capacidade de produção da Petroquímica União, empresa-mãe do Polo Petroquímico de Capuava, a Universidade Pública do Grande ABC poderia assentar-se em suas primeiras fases de implantação numa aliança estratégica com os investimentos previstos para o parque petroquímico local. Nosso futuro é de plástico, como sintetizou aquela Reportagem de Capa, provavelmente seja a âncora para transformar um investimento não-prioritário na área educacional em senha para um salto de qualidade industrial no Grande ABC” — escrevi ontem.


Para concluir esta edição voltada integralmente à educação direcionada ao desenvolvimento econômico, reproduzo também, na sequência do artigo de Luiz Franca Neto, uma matéria assinada na Folha de S. Paulo de hoje por Shin Oliva Suzuki, sob o título “Itália sedia a primeira universidade da comida”. Um texto que fortalece sobremodo a proposição de nossa Universidade de Plástico. Portanto, não temos tempo a perder em tentar descobrir a pólvora. Vamos ao trabalho, então.


Voltaremos ao assunto. Agora, fiquem com os dois textos aos quais me referi:


Universidades e polos industriais



  •  Luiz M. Franca Neto

Em 1810, Wilhelm Von Humboldt, com 42 anos, atende ao convite para servir como ministro da Educação da Prússia (parte da Alemanha moderna com a unificação no século 19) e é comissionado pelo governo para estabelecer a Universidade de Berlim. A Alemanha já tinha outras universidades mais antigas, como Heldberg (1386), Tübingen (1477), Wittenberg e a mais prestigiada da Europa em 1880, Göttigen (1736). Mas é na criação da Universidade de Berlim que Von Humboldt opera importante mudança no conceito de “universidade”.


Professores eram então contratados não tanto pelos seus talentos de ensinar, mas principalmente por suas habilidades em desenvolver pesquisas originais em ciências e em trabalhos acadêmicos. Este conceito de “universidade de pesquisa” alcança mais prestigio quando, nos Estados Unidos, universidades de pesquisa como Massachusetts Institute of Technology (MIT) e a Stanford University desenvolvem polos industriais diversificados de alta tecnologia ao seu redor: a Route 128 ao redor do MIT e o Vale do Silício ao redor de Stanford.


Em 1950, inspirado pelas palavras de Santos Dumont de que era tempo de montarmos escolas de verdade para engenharia aeronáutica no Brasil, o Ministério da Aeronáutica estabelece o Instituto Tecnológico de Aeronáutica (ITA) e o Centro Técnico Aeroespacial (CTA) em São José dos Campos (SP). ITA e CTA formam um complexo de ensino, pesquisa e desenvolvimento industrial. Entre várias outras empresas, ex-alunos do ITA e pesquisadores do CTA fundaram a Embraer, uma das quatro maiores fabricantes de aviões do mundo, orgulho nacional, que hoje coloca aviões a jato como nosso primeiro item de exportação.


Em todos estes exemplos não foram montadas “escolas” apenas. Instituições que somente ensinam apenas transferem para seus ex-alunos as esperanças de desenvolvimento econômico de suas regiões. Universidades de pesquisa como o MIT e Stanford, complexos de ensino, pesquisa e desenvolvimento industrial como ITA + CTA têm na geração de conhecimento, desenvolvimento de ciência e tecnologia suas responsabilidades primeiras. Treinamento e educação de recursos humanos vêm em conseqüência. Polos industriais são vetorizados por estas instituições nascem e crescem, gerando empregos e transformando a região ao redor.


Temos cerca de 3,5 milhões de universitários no País, quando deveríamos ter entre 5 milhões e 7 milhões para termos proporções de universitários em relação à nossa população semelhantes aos Estados Unidos. Num mundo cada vez mais dependente de tecnologia, precisamos treinar muito mais engenheiros e cientistas. Precisamos desenvolver em muito maior número nossas empresas de tecnologia.


Relembrando Santos Dumont, é tempo talvez de estabelecermos novas universidades de pesquisa no Brasil. À imagem do MIT, a mais bem-sucedida universidade americana para engenharia e ciências, estas novas universidades de pesquisa terão apenas programas em engenharias, ciências, economia e administração, e serão chamadas Universidades Técnicas (UTs). As UTs terão missões de ensino e pesquisa, com graduação e doutorados extensos. Doutorados de estatura internacional. A partir de seus programas de doutorado, as UTs vão vetorizar os polos industriais de tecnologia em redor. Os doutores formados, juntamente com professores, fundarão novas empresas high tech ao redor das UTs em semelhança ao que ocorre ao redor do MIT e de Stanford nos Estados Unidos. Polos industriais diversificados por causa da variedade de programas em engenharia e ciências das UTs. Professores e pesquisadores estrangeiros distinguidos serão visitantes freqüentes dessas instituições.


Será adequado que a primeira UT a ser criada seja a Universidade Técnica do Recife (UT Recife). Recife já foi uma das três mais importantes cidades econômica, política e culturalmente do Brasil, conta com infraestrutura urbana de metrópole, dispõe de serviços, aeroporto internacional, porto bem desenvolvido e é central no Nordeste. No Recife, demonstramos ser o conceito de UT capaz de desenvolver educação de classe internacional e polos industriais high tech internacionais fora do eixo Rio-São Paulo.


A UT Recife estabelecerá no Brasil um novo conceito de universidade que influenciará outras universidades do País. Um esforço coordenado entre as agências federais, o governo de Pernambuco, a prefeitura do Recife e o Ministério de Ciência e Tecnologia (MCT) será necessário para a criação da UT Recife. Mas este é um esforço e um investimento que o País exige que seja feito pelas nossas lideranças políticas, técnicas e científicas.


Itália sedia a primeira universidade da comida
 



  • Shin Oliva Suzuki

Na cidade com o sugestivo nome de Pollenzo, localizada no norte da Itália, acabou de ser fundada a primeira universidade totalmente voltada para os assuntos da arte culinária. A Universidade de Ciências Gastronômicas, com início de ano letivo em outubro próximo, terá o ingresso de 60 estudantes por ano com proveniência de vários países, entre eles o Brasil — as 490 inscrições recebidas ainda estão sendo avaliadas e há registro de número expressivo de candidatos do país.


No campus de Pollenzo, abrigado em um edifício de 7.000 metros quadrados construído no século 19 — que foi propriedade do rei Carlo Alberto e onde era a sede da antiga Academia Real de Agricultura Italiana –, também funcionarão um hotel, um restaurante e uma adega com vinhos de todas as regiões italianas.


A empreitada tomou investimentos de 21 milhões e manejará um orçamento anual de 3,5 milhões. Entre seus financiadores estão as regiões de Emilia Romagna e do Piemonte, bancos e cerca de cem produtores de vinhos, café e massas. A instituição foi concebida por seguidores da slow food, movimento organizado em 1989 na cidade italiana de Bra pelo jornalista Carlo Petrini. Valoriza a degustação desapressada de pratos com sabores e aromas regionais e, obviamente, contrapõe-se ao tipo de cozinha praticada por McDonald’s e congêneres.


Vittorio Manganelli, diretor da universidade, explica à Folha que “a partir do desenvolvimento dos preceitos da slow food, tornou-se necessário um nível mais elevado dos estudos da gastronomia e, em 1997, demos início ao processo de criação de uma universidade”. Apesar da filiação ao movimento, Manganelli diz que a instituição abarcará outras correntes gastronômicas em suas disciplinas acadêmicas. Mas, curiosamente, o intuito em Pollenzo — e em Colorno, na região de Parma, onde funcionará o outro campus da universidade — não é a formação de chefs, como já o faz o Cordon Bleu francês e outras escolas tradicionais do gênero. A ênfase será dada no ensino das etapas que circundam a elaboração de pratos, mas que não requerem necessariamente colocar a mão na massa.


“O nosso interesse está na formação de pessoas jovens que possam se tornar responsáveis pelas fases de administração e distribuição em restaurantes e empresas ou de críticos e jornalistas especializados. Já existem muitas escolas voltadas para quem pretende se tornar chef”, afirma Manganelli.


Portanto, incursões dos alunos à cozinha terão como objetivo maior conhecer os itens necessários para a sua construção. Outras tarefas do dia incluirão o estudo de conceitos básicos de química, botânica e economia, além das relações entre comida e sociologia, história e artes. O custo anual na Universidade de Ciências Gastronômicas será salgado, principalmente para os alunos brasileiros: 19 mil, o equivalente a cerca de R$ 70 mil. As inscrições para a turma que tem início em outubro já se encerraram no começo deste ano.


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