Quando criei Nossas Madres Terezas, em 2000, queria dar um chute na canela da elite regional. Nossas Madres Terezas são mulheres anônimas que cuidam de excluídos sociais. Vivem geralmente na periferia e fazem milagres pessoais e orçamentários para abrandar as dores dos desvalidos, casos de crianças abandonadas ou carentes, ex-prostitutas recheadas de filhos e desempregadas, deficientes físicos, deficientes mentais, deficientes visuais. Idosos entregues à própria sorte. São santas essas mulheres ignoradas pela grande mídia adepta da espetacularização criminal e da babação de ovo de celebridades da vez.
As Madres Terezas estavam todas aí, espalhadas e igualmente esquecidas, quando resolvemos levá-las ao palco do antigo supra-sumo da aristocracia regional, o Tênis Clube, hoje, em larga escala, abandonado à própria sorte com apenas um punhado de representantes dos afortunados ou supostos afortunados que restaram.
Naquela noite de apresentação das Nossas Madres senti o Tênis Clube sacudir de tensão e emoção. Era uma festa de vencedores do Prêmio Desempenho, evento que realizamos com nossa equipe há mais de uma década. Ninguém poderia esperar por chamamento à responsabilidade social como aquele que decidimos realizar com a contundência dos indignados: em cores, ao vivo e ao som de “Gracias a la Vida”. Também não resisti aos depoimentos das primeiras Nossas Madres.
Entre as muitas funções do jornalismo está o escancaramento das chagas sociais e, num sentido mais nobre, procurar, de alguma forma, provocar mudanças. Foi o que fizemos. Jamais saímos desse roteiro. Nossas Madres estão aí. Já são 41 homenageadas pela Editora Livre Mercado. Muitas participam de curso especialmente preparado pelo Sebrae, a nosso pedido. Também muitas delas estão sendo vergonhosamente ludibriadas por um espertalhão, a pretexto de protegê-las.
Ao mesmo tempo em que introduzimos no seio de uma sociedade pouco sensível à exclusão social os petardos de solidariedade das Madres Terezas, não esquecemos de um outro modelo de empenho social, agora vindo do topo da classe econômica. São as voluntárias sociais que se desdobram diariamente para minimizar os reveses permanentes dos pobres e doentes. Gente como Inezita Awada, Valdineia Cavalaro, Neusa Lacava, Clotilde Dib e tantas outras que provavelmente encontram mais barreiras em seus próprios redutos sociais para se dedicar a terceiros. Também elas já foram homenageadas pela Editora Livre Mercado.
Afinal, por que escrevo tudo isso? Porque faz tempo que não dedico algumas palavras às Madres Terezas, embora, verdade seja dita, a linha editorial de Livre Mercado seja inflexível quanto a relevância de, a cada edição, contemplar espaço a essas ativistas de coração imensurável.
Também escrevo para chamar a atenção à contraface das Madres Terezas do topo e da base da pirâmide social. São os falsos benfeitores, cujas fortunas se medem em cartórios imobiliários, nos balanços empresariais e registros bancários. Quando não nas escapulidelas de investimentos em outras plagas.
Não é preciso muito esforço de memória para descobrir esses pretensos benemerentes. A vocação ao estrelismo é rigorosamente proporcional à mesquinhez e ao estardalhaço das doações. Dizem-se misericordiosos mas são mesmo hábeis em dar com a mão direita o que a mão esquerda ajudará a aplaudir. Fazem da solidariedade marketing de negócios, de relacionamento. Gastam muito mais com mulheres, com roupas, com viagens, com segurança pessoal.
Não tenho dúvidas de que eles vão se identificar nessas linhas como se estivessem defronte a um espelho de água transparente. Provavelmente deixarão de se achar narcisos de benfeitorias. Pelo menos por alguns momentos. São todos da mesma estirpe empolada, programada para impactar pela aparência cortada e recortada em butiques caríssimas. Eles e suas respectivas companheiras, é claro, porque é muito pouco provável que à metade do limão não se junte outra metade do limão.
Por isso sugiro aos leitores que tomem cuidado ao estabelecer juízo de valor sobre empenho social de personagens que merecidamente ou não, isso pouco importa, nadam em dinheiro. O valor da generosidade é inversamente proporcional à soma das riquezas que detêm. Quando se estabelece esse confronto, acreditem, muitos castelos de areia de sensibilização social acabarão por ruir.
É por essas e outras que dedico todos os dias as mais sinceras lembranças às Madres Terezas mergulhadas na periferia e às Madres Terezas contraventoras do esnobismo nos ambientes da elite regional.
Por essas mesmas razões não desgrudo os olhos dos falsários que se travestem de filantropos, numa escandalosa mas nem sempre detectada estratégia para se aproximarem dos ricos e poderosos de outras praças, que, por sua vez, também não são diferentes deles na arte de se fazer generosos. ente que se merece, como se vê.
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12/02/2026 REDES SOCIAIS BEM AO GOSTO DOS PODEROSOS