Economia

Já imaginaram se São Bernardo
fosse empresa de capital aberto?

DANIEL LIMA - 06/12/2019

Na Bolsa de Valores da Economia Brasileira existe muitos municípios que se deram bem e também se deram muito mal desde que acabou a farra inflacionária em 1994, com a introdução do Plano Real. São Bernardo, Capital Econômica do Grande ABC, é um caso dramático. Deu com os burros nágua por causa de uma imensidão de fatores já esmiuçados aqui, e que sempre o serão porque a audiência é rotativa. Não será o caso do tratamento que daremos hoje. Vamos ficar com o preço das ações de São Bernardo. Que desabaram.

Imaginem se cada ação que correspondesse ao poderio de riqueza de São Bernardo valesse R$ 100, 00 em janeiro de 1995. Vinte e quatro anos e muitas borrascas econômicas e institucionais depois, em 2018, a perda líquida, considerando-se a inflação do período, chegaria a R$ 41,80 por habitante.

É uma tremenda enrascada que, dadas as condições que São Bernardo oferece como cardápio de desventuras, vai ganhar novos lances dramáticos nos próximos tempos.

Influência regional

Mais que isso: como São Bernardo irradia regionalmente os efeitos resultantes do comportamento econômico, com variados graus de influência, sobretudo na escala de valores que leva em conta a Doença Holandesa Automotiva, o contágio é compulsório.

Isso está mais que comprovado ao longo dos tempos nesta revista digital, antecedida pela revista impressa LivreMercado. Ou seja: ninguém que esteja no comando político-administrativo do Grande ABC, e também os respectivos entornos de hoje e do passado, tem o direito de requerer inocência.

Quem morava em São Bernardo em 1995 (eram 566.330 pessoas) poderia ser chamado metaforicamente de proprietário de uma ação no valor atualizado a dezembro de 2018 de R$ 649,15. Esse número significa o Valor Adicionado per capita de cada morador de São Bernardo. Valor Adicionado é parente muito próximo do PIB (Produto Interno Bruto). É algo que pode ser chamado de agregador de riqueza. Na outra ponta do tempo, em dezembro de 2018, cada ação correspondia a apenas R$ 377,77. Uma queda real de 41,80%. A inflação do período, medida pelo IPCA, alcançou 401,80%.

Quase metade da região

Somente para auxiliar os leitores num possível processo de reflexão sobre o que aconteceu de grave em São Bernardo, a perda de 41,80% do Valor Adicionado superou em quase 20 pontos percentuais a queda regional. O Grande ABC como um todo viu desaparecer em forma de geração de riqueza medida pelo Valor Adicionado nada menos que 23,86% do poderio econômico. O Valor Adicionado por habitante do Grande ABC na base da pesquisa, em 1994, era de R$ 393,37. Caiu para R$ 299,49 em 2018.

Reparem que a distância entre a liderança insofismável de São Bernardo medida pelo Valor Adicionado por habitante em 1994 contraiu-se significativamente nos 24 anos pós-Plano Real. A média por habitante de São Bernardo em relação ao restante da região era 39,40% superior. Na ponta da pesquisa, caiu para 20,72%. Praticamente à metade, portanto.

Particularmente para São Bernardo no Grande ABC, a equação que tem o Valor Adicionado como centro de investigações é uma calamidade. Afinal, há dois pontos que convergem a essa derrocada clamorosa: o crescimento populacional (e cada vez maior de contingentes de pobres e miseráveis, além da perda de ricos e de classe média tradicional) se associa à queda do Valor Adicionado propriamente dito e que, repito, é um esboço consolidado do PIB.

São Caetano mais Rio Grande

São Bernardo degringolou porque o Valor Adicionado perdeu musculatura em termos absolutos. Atualizado pela inflação do período, o Valor Adicionado de São Bernardo em 1994 correspondia a R$ 36.763.067 bilhões. Vinte e quatro anos depois caiu (sempre em valores de dezembro de 2018) para R$ 28.916.710 bilhões). Resultado? Queda real de 21,34%.

Então, a pergunta do leitor é pertinente: como se chegou à queda per capita de 41,80% no período? Simples, muito simples: a população de São Bernardo aumentou em 35,16% no mesmo período. Saiu de 566.330 e chegou a 765.463. Ou seja: foram acrescentados à geografia de São Bernardo nada menos que 199.133 moradores. Só para se ter uma ideia do que significa tanta gente, trata-se de algo como a soma de São Caetano e Rio Grande da Serra.

Enfatizando a questão para que os leitores digitais sempre apressados parem para refletir: São Bernardo ganhou de população em 24 anos uma São Caetano e uma Rio Grande da Serra e perdeu em Valor Adicionado uma massa de R$ 7.846.357 bilhões. Quase uma Diadema inteira. Mais da metade de uma Santo André.

Dobro da perda regional

Mais ainda sobre o desastre econômico de São Bernardo: a perda em números atualizados a dezembro do ano passado, de R$ 7.846.357 bilhões em relação a dezembro de 1994, equivale a quase o dobro da perda regional no período. Como assim? Há municípios que registraram saldo positivo em Valor Adicionado quando confrontadas as duas pontas da pesquisa, embora tenham todos ou quase todos reduzido o poderio econômico geral. Nesse caso, a explicação, entre outros pontos, chama-se produtividade. Mas esse não é assunto para agora.  

Faço questão de centralizar os estragos do Valor Adicionado na Bolsa de Valores de Riqueza em São Bernardo dada à obviedade, compulsoriedade, obrigatoriedade e tudo o mais de que estamos tratando do Município que, de forma direta ou indireta, define o destino regional.

Por isso que ao longo do tempo jamais dei folga e jamais darei a quem ocupar o gabinete principal do Paço Municipal de São Bernardo. A obrigatoriedade de formular políticas de Desenvolvimento Econômico em bases sólidas, empíricas, é inalienável à gestão. Quem não o fizer (e nenhum o fez tanto neste século quanto no anterior) verá de perto a pobreza e a miséria avançarem em combinação com os graves problemas de infraestrutura física.

São Bernardo é a maior roubada na Bolsa de Valores Econômicos do Grande ABC. E seguirá sendo até que alguém iluminado ou desesperado resolva colocar o dedo na ferida. Aliás, nas feridas, porque são múltiplas as razões da degringolada. Já abordei profundamente todas essas travessuras do destino. A Doença Holandesa Automotiva ganha a forma de metástase que privilegia e protege um grupo cada vez menor, os poderosos beneficiários.



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