Tão tradicional como o festival de xingamento nos gramados de futebol é a negociação de resultados de jogos. Árbitros são vendidos por preços determinados pelas circunstâncias. E geralmente são negociados a peso de ouro porque aos interessados só surgem possibilidades de aproximação quando o afunilamento da competição fertiliza o terreno da especulação.
Quem conhece minimamente os bastidores do futebol relata casos e casos de apitadores que viraram fregueses de caderneta de atravessadores. Como nessa seara não existe santo, nem tudo o que parece ser fantasia deve ser descartado.
Há espertalhões que fizeram fortunas como pombos correios de supostos acertos. Alguns aventureiros, entretanto, quebraram a cara. Nada é pior para quem empreende nesse negócio de intermediação de resultado de jogo de futebol do que o placar contrariado. A credibilidade do agente de suposta manipulação oscila de acordo com o grau de confiabilidade dos demandantes.
Quem não consegue sincronia sequencial entre o tratado e o combinado cai em desgraça. É imperdoável que negócio fechado, resultado final garantido, o luminoso do estádio seja contrariado e ganhe a forma de imensa ducha de água fria. Reputação é tudo para quem pretende fazer carreira na arte de combinar de fato ou supostamente o que se passará num gramado de futebol.
Dizem as más línguas que a antecipação de resultado de um jogo não é obra da inventividade do mundo do futebol. Pelo contrário: as emoções do futebol, que dão margem às mais fantásticas decisões de bastidores, sobretudo quando um título ou um rebaixamento está em jogo, são um ramal mais modesto, financeiramente menos volumoso e provavelmente menos discreto que outras atividades, nas quais a figura do intermediador que trafega com absoluta desenvoltura nas penumbras da informalidade negocial.
Há especialistas de todos os tipos no mercado de apropriação indevida ou sustentada de poderes decisórios em diferentes atividades. São espertalhões juramentados. Geralmente conhecem a fundo os hábitos, o caráter, a sensibilidade, a ética e tudo o mais das vítimas ou dos comparsas.
Se forem vítimas da manobra de atravessadores que agem sorrateiramente em falsidade absoluta com suposto interlocutor a quem dizem representar, os espertalhões penetram insidiosamente em aspectos que, ao interessado em obter vantagens, pareçam absolutamente exequíveis. Joga-se principalmente com o rebaixamento moral e ético da vítima que, exceto em circunstâncias geralmente pouco prováveis, jamais tomará conhecimento do desenlace confirmador ou não da negociação. São uma espécie de loteria os casos em que os inocentes se vêem envolvidos como mercadoria e cujos resultados do tratado à revelia se confirmam.
Se o intermediário e o agente da ação prática forem comparsas, a certeza de que a outra ponta do triângulo de negociação obterá o desejado é tão certa quanto dois mais dois são quatro. Nesse caso, a intimidade entre os cúmplices geralmente é ação meticulosamente engendrada para transmitir a sensação ao terceiro interessado de que se trata de operação problemática, complexa, custosa, mas irrepreensivelmente certeira na medida em que o preço padrão de uma tabela inflacionada ao extremo seja devidamente respeitado.
É altamente rentável o mercado da subjetividade prática de interessado, intermediador e agente da ação. E não escolhe atividade econômica. Onde houver uma pitada a mais de passionalidade circunstancial, onde existir um grau mais delicado de versões contraditórias, onde os interesses forem mais ramificados entre atores sociais mais elevados, onde houver essa individualização de tipologias ou, pior ainda, onde o entrecruzamento desses ramais se manifestar mais completo, a cotação contará com evidentes acréscimos.
Quantos resultados de finais de campeonatos já foram questionados pela mídia, ao sabor da paixão natural de dirigentes e jornalistas, à esteira de desconfianças gestadas em supostas manobras de bastidores? Até hoje aquela final entre Corinthians e Ponte Preta, em 1977, quando o árbitro Dulcidio Vanderley Boschilia expulsou o atacante Rui Rei no começo do jogo, desfalcando o time de Campinas, é estridentemente citada como fruto de intermediários.
De fato, o que se sabe dessa história é que o árbitro tinha um histórico de retidão e morreu pobre. E a final de 1994 entre Palmeiras e Corinthians? Quanto se falou que a Parmalat reverteu o resultado do primeiro jogo desfavorável ao Palmeiras dois dias depois numa reunião em que se teria escolhido o árbitro do segundo jogo? Descarta-se o fato de que o Palmeiras era infinitamente melhor que o adversário.
Desconfio de que em minha vida profissional, como de tantos outros jornalistas independentes, já andaram me vendendo. E não duvido que um ou outro tenha acreditado porque, como se sabe, cada um julga de acordo com sua própria história pessoal.
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12/02/2026 REDES SOCIAIS BEM AO GOSTO DOS PODEROSOS