Ainda não tenho razões consolidadas para afirmar com a certeza certeira dos comedidamente otimistas que a UFABC (Universidade Federal do Grande ABC) resolverá pelo menos parte de nossos problemas socioeconômicos. Sim, porque se a função da instituição não for planejadamente essa, ou seja, de nos retirar da penumbra depois do apagão fernandohenriquista, não teria sentido despender-se tanto dinheiro.
Chegaremos, como se sabe, a estimados R$ 150 milhões anuais para a manutenção da obra acadêmica, quando a UFABC estiver a plena carga com 20 mil alunos. Com esse dinheiro, regularmente aplicado durante duas décadas em reestruturação econômica, o Grande ABC provavelmente reequilibraria forças econômicas duramente abaladas nos anos 90.
Por que desconfio de que a UFABC é uma grande enrascada em vez de encaminhar soluções? Reconheço que a auto-estima de Gata Borralheira do Grande ABC necessita doidamente da universidade, para que possa exibi-la ao Brasil varonil que imagina ser a região uma obra prima de comprometimento social. A UFABC nos retiraria, pressupostamente, do isolamento acadêmico público de nível superior, segundo versões mais ufanistas. Por que então desconfio?
Porque os gestores da obra ainda ontem beijada e lambuzada pelo presidente da República, segundo relato de hoje do Diário do Grande ABC, não têm a intimidade necessária e o conhecimento básico dos pontos positivos e negativos da economia da região.
Ora, sem conhecer o terreno regional, é excesso de confiança acreditar que aqui se plantando tudo dá. A concepção pedagógica da UFABC deveria suprir-se de série de debates dos quais participassem agentes privados de áreas vitais da economia regional, como autopeças, montadoras, cosméticos, química e petroquímica, e, por que não, titulares de universidades privadas e públicas municipais que colocam a mão na massa diariamente.
Os primeiros poderiam dar encaminhamentos mais pragmáticos à operacionalização curricular da UFABC, voltados para aperfeiçoamento, complementaridade e ineditismos na associação de interesses entre capital e academia. Os segundos impediriam sobreposições curriculares que tornariam os investimentos federais mais produtivos.
Dissociar a implementação da UFABC das necessidades de reestruturação econômica do Grande ABC, cujas dores dos efeitos da globalização ainda não terminaram, é um risco que se comete ao se alinhavar as áreas em que a escola superior em fase de aprovação pelo Senado se apresenta como salvação da lavoura regional.
Sem entrar em detalhes sobre as grades anunciadas pelo Ministério da Educação, saltam à vista movimentos sincronizados na mesma direção, o primeiro ao enfatizar o caráter tecnológico da iniciativa e o segundo ao transparecer que se formatou um pacote padrão supostamente encaixado às prioridades do Grande ABC. O problema é que o cruzamento desses dois vetores não oferece garantida de que os formandos atenderão às demandas do mercado regional e, pior dos mundos, que terão demanda para preencher.
A linha de montagem do processo de criação da Universidade Federal do Grande ABC foi um samba do crioulo doido. Vá lá que os trâmites políticos para chegar à consumação da proposta com a assinatura do presidente da República tenha sido competente, até porque seria atestado de dispersão desprezar a presença histórica de um representante regional no posto máximo em Brasília.
O drama que alguns ainda tentam disfarçar foi a inútil e descartada operação curricular entregue à então presidente do Consórcio de Prefeitos do Grande ABC, Maria Inês Soares, à época chefe do Executivo de Ribeirão Pires. Professora que não sabe diferenciar entre produção e produtividade, Maria Inês fez do encaminhamento técnico da UFABC festival político, com assembléias populares e inconsequentes durante o período eleitoral. Chegou ao cúmulo de anunciar um grupo de trabalho do qual não constava sequer um representante das cadeias produtivas mais importantes da economia regional.
É verdade também que os representantes da livre-iniciativa do Grande ABC — entidades de classe, principalmente — mais uma vez deram provas de que não conseguem sair dos respectivos casulos corporativos. Durante todo o período de ensaio geral para a UFABC os dirigentes empresariais se mantiveram na situação do motorista que, sinal vermelho, observa passivamente o condutor do veículo ao lado ser assaltado por trombadinhas do trânsito. A paralisia no infortúnio criminal desses dias tempestuosos até se justifica, porque ninguém está a salvo de elevar as estatísticas.
Já no caso institucional é diferente. Trata-se, de fato, de quase incontornável vocação à omissão entre outras razões para não ferir melindres ou em muitos casos também porque produz inibição e constrangimento a intimidade entre parte dessas instituições e o Poder Público.
Gostaria de estar imensamente enganado. Afinal, não se trata de competição o ato de escrever favoravelmente ou contrário à iniciativa de dirigentes petistas do Grande ABC. A impressão é que se projeta o teto de uma casa ainda sem alicerces definidos.
Precisamos reestruturar a base econômica da região conforme as sacolejadas macroeconômicas que agitam a embarcação automotiva, principal fonte de nossa riqueza produtiva. Estamos perdendo posições a cada nova rodada de investimentos internacionais globalizados que privilegiam China, outros países asiáticos e também o Leste Europeu.
Desconfio de que vamos diplomar tecnólogos para empresas que estarão em outra geografia econômica, porque empregos aqui não teremos disponíveis para atendê-los. Ainda não se descobriu a fórmula mágica para dar empregos numa região em que escasseiam empreendimentos. Vai nos custar muito caro cada diplomado da UFABC. Nossa capacidade de absorção, já extremamente escassa, provavelmente será ainda mais estreita no futuro próximo.
Não temos um plano de vôo de dinamismo econômico regional que contemple especificidades municipais. O suprimento de mão-de-obra qualificada, que adviria da UFABC, seria um desperdício. Aliás, já é um desperdício mesmo sem a UFABC mas com o mercado de ofertas das universidades já instaladas. Nossos universitários viraram pau para toda obra num mercado de trabalho tão exigente em qualificações acadêmicas como retraído em remuneração exatamente porque abundam desempregados e contraem-se vagas.
A Universidade Federal do Grande ABC infla nosso ego gataborralheiresco, mas continuaremos de bolsos vazios porque Educação e Economia são irmãos siameses do desenvolvimento sustentado. Estamos ensaiando passos unilaterais. A lógica é do tropeço.
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12/02/2026 REDES SOCIAIS BEM AO GOSTO DOS PODEROSOS