Sociedade

São Caetano lidera letalidade
do Coronavírus no Grande ABC

DANIEL LIMA - 09/04/2020

A taxa de letalidade do Coronavírus é tão óbvia que não se entende como todo o mundo, de especialistas a marqueteiros, passando por editores de jornais e revistas, ainda não a utiliza com a frequência indispensável e a compreensão pedagógica providencial. Espere pela resposta à manchetíssima aí de cima. Vou revelá-la na sequência.

A métrica mais utilizada, ou unanimemente utilizada por fontes diversas, é muito mais frágil do que a pretensamente ideal, porque o ideal mesmo se desfaz diante de especificidades rastreadoras do vírus chinês.

Explicando de imediato o que pretendo alinhavar, para que os leitores compreendam o erro que chamo de crasso, não tem acabamento sustentável a divisão dos casos de morte pelo número de infectados.

O Instituto ABC Dados publica hoje uma pesquisa que virou manchetíssima do Diário do Grande ABC. A regionalização de informações é a função essencial do jornalismo nos sete municípios, e também dos pesquisadores no caso, mas a conta está errada, ou não está precisamente adequada aos parâmetros tradicionais de tantos outros indicadores. Repete-se a unanimidade que não é apenas burra. É também acomodatícia.

Como recomenda a ONU

Simplificando o sofisticado (que explico na sequência), a contabilidade escandalosamente desprezada deveria ser articulada com o pragmatismo de quem não gosta de enrolação e muito menos de uso político de dados.

Quer saber o índice de letalidade do Coronavírus? Divida o total de óbitos de cada Município pela população, não pelo número de infectados.

É assim que funciona, por exemplo, o Ranking Brasileiro de Homicídios.  Pega-se o total de assassinatos e divide-se por grupos de 100 mil habitantes. Pode-se usar também o referencial de 10 mil habitantes, recomendado pela ONU. Tanto faz. Chamar a ONU como parceira de avaliação é sempre interessante porque o Complexo de Gata Borralheira assim o exige. Complexo de Gata Borralheira é um dos livros que escrevi sobre o que somos nesta Província.

Foi dessa forma apontada pela ONU que, por exemplo, se chegou à conclusão de que o Estado da Federação que mais reduziu o universo de mortes nos últimos 20 anos é São Paulo.  Em números absolutos São Paulo seguiria na liderança negativa. O Ranking de Crimes no Estado de São Paulo também segue essa regra. Claríssimo?

Crime estatístico

Quem utilizar algo diferente vai cometer o mesmo crime da mala estatística de agora com o vírus: o potencial dos municípios mais populosos ocuparem as primeiras colocações é muito maior. Quarenta e uma vezes maior que Salto, onde estou, o Grande ABC registra mais de duas dezenas de óbitos por Coronavírus. Aqui, nenhum. Preveem os estatísticos que serão 588 no Grande ABC e 24 aqui. Quando a contabilidade avançar nesta cidade interiorana garanto que vou me preocupar em levar a mão exatamente onde você está imaginando que alguém leve quando está com medo. Na calvície, claro.  

Todos os rankings razoavelmente sérios produzidos no mundo inteiro e em todas as atividades leva em conta fundamentos da proporcionalidade. O PIB (Produto Interno Bruto) mais indicado pra qualquer tipo de investigação mais detalhada sobre o comportamento econômico de qualquer endereço geográfico é o que leva em conta a divisão dos valores de um determinado período pelo número de habitantes. Daí o consagrado PIB per capita.

É assim que funciona quando se pretende fazer com seriedade essa espécie de balanceamento envolvendo tamanhos diferentes de municípios, Estados e Países.

Tentativas de homicídios

A reportagem publicada hoje pelo Diário do Grande ABC com base no estudo do Instituto ABC Dados afirma que a taxa de letalidade do Grande ABC é a maior do País, com 7,4% de mortes em relação aos infectados. A taxa de São Bernardo é de 15,8%, portanto o dobro da média regional. Até agora morreram na região 24 pessoas vítimas do covid-19. No total foram 325 casos confirmados.

Mal comparando, já imaginaram se a taxa de homicídio fosse vinculada às tentativas de assassinato? O que quero dizer com isso e que a princípio parece estupidez é que notificações dos casos de covid-19 são insustentáveis como as tentativas de homicídios. Sobram subnotificações. O registro de casos está particularmente vinculado à infraestrutura de atendimento, entre outros fatores. Em mesmo se tudo corresse às mil maravilhas, a equação não resiste.

Vamos fazer experimento numérico com base nos dados do Instituto ABCD. São Bernardo, segundo o boletim, registrou até ontem 16 óbitos de um total regional de 24 casos letais. Procuro na matéria do jornal os números de São Caetano. Na versão digital, não há nada sobre São Caetano, exceto números municipais de infectados. Nesse caso, são 101 em São Bernardo e 56 em São Caetano. 

São Bernardo melhor

Repito para que haja entendimento, agora sobre o número de infectados registrados até agora (enquanto isso, vou buscar o número de casos letais): São Bernardo aponta 101 casos e São Caetano 56. Quem lidera a corrida de infectados na região? Claro que São Caetano, cuja população é de 150 mil habitantes, contra 800 mil de São Bernardo. Ou seja: São Bernardo contabiliza 1,8 vez mais casos positivos da doença, mas conta com população 5,3 vezes maior. Perceberam a diferença?

Mexi, fucei e encontrei no jornal Repórter Diário o total de mortos por covid-19 no Grande ABC. Estão lá registrados quatro casos em São Caetano. De novo faço o confronto com São Bernardo. E São Bernardo é superado mais uma vez nesse ranking macabro. Com quatro mortes, São Caetano conta com 25% do total de óbitos de São Bernardo. Quatro contra 16. Como a população de São Bernardo é 5,3 vezes maior, então quem perde em incidência de casos fatais é São Caetano.

Repito que é assim nos homicídios, no PIB per capita e em tantas outras métricas. Por que seria diferente no Coronavírus?

Mais risco em São Caetano

Trocando em miúdos: correm-se muito mais riscos de morrer de Coronavírus em São Caetano (não esqueçam que a população de idosos é proporcionalmente altíssima ante a média nacional) do que em São Bernardo. Mesmo com as imensas diferenças sociais entre os dois municípios.

Um exemplo está na população com mais de 60 anos de idade. Enquanto São Bernardo registra apenas 13,51%, São Caetano aponta 24,31%. As famílias de classe rica de São Caetano são 7,5% da população geral, enquanto em São Bernardo não passam de 3,9%. O consumo por habitante de São Bernardo, anual, é de R$ 29.788,21, enquanto em São Caetano a marca é de R$ R$ 37.348,85, ou seja, 20% maior.

Espero francamente que eventuais novas contas dos estragos do Coronavírus no Grande ABC não sejam interceptadas pela ignorância culposa ou pelo mandraquismos doloso com finalidades politico-eleitorais.

Saiam do quadradinho

Não estou formulando nada que possa ser encaminhado como acusação, até porque até agora não se chegou ao ponto de converter uma coisa (taxa de infectados) à outra (índice de mortalidade) tendo como interesse explícito algo que trafegaria pelo terreno nas urnas eleitorais.  Com o adendo de que, no caso do cioso Instituto ABCD, estranha-se apenas que o modelo mais apropriado de informações não tenha sido observado.

Mas fica essa sugestão, que, de fato, é apenas um apêndice específico do que virou espécie de jurisprudência internacional para medir universos diferentes em busca de algo que os interlace estatisticamente como se fossem iguais.

É tão clamorosamente óbvio uma Salto de casos letais de Coronavírus muito menos numerosos que o conjunto do Grande ABC (como projetei esta semana, levando-se em conta estudiosos britânicos) que a melhor abordagem é o enquadramento nos princípios estatísticos de assassinatos, entre tantos.

João Doria, marqueteiro de primeira, não se deu conta de que São Paulo lidera a contagem convencional de mortos por Coronavírus não necessariamente porque é menos competente na gestão sanitária, mas porque reúne mais de 20% da população brasileira.

Acho que o prefeito José Auricchio deve estar preocupadíssimo com a situação de São Caetano. Estaria mais ainda se as manchetes atribuíssem a São Caetano o que lhe é de direito – ou de ônus.



Leia mais matérias desta seção: Sociedade

Total de 1125 matérias | Página 1

12/02/2026 REDES SOCIAIS BEM AO GOSTO DOS PODEROSOS
05/02/2026 GILVAN E ACISA NUM JOGO DE IMPRECISÕES
01/02/2026 E A CARÓTIDA RESISTE AO PROJÉTIL INVASIVO
08/01/2026 REGIÃO PRODUZ MENOS CRIANÇAS QUE O BRASIL
18/12/2025 NOVA PERDA DO NOSSO SÉCULO
17/12/2025 VAMOS MEDIR A CRIMINALIDADE?
25/11/2025 UMA OBVIEDADE ASSISTENCIALISTA
04/11/2025 OTIMISTA REGIONAL É OTÁRIO REGIONAL
21/10/2025 MENOS ESTADO, MAIS EMPREENDEDORISMO
20/10/2025 SOCIEDADE SERVIL E DESORGANIZADA
18/09/2025 CARTA PARA NOSSOS NÓS DO FUTURO DE 10 ANOS
04/09/2025 INCHAÇO POPULACIONAL EMBRUTECE METRÓPOLE
02/09/2025 OTIMISTA INDIVIDUAL E OTIMISTA COLETIVO
22/08/2025 PAULINHO SERRA E DIÁRIO INTERROMPEM LUA DE MEL
20/08/2025 LULA HERÓI, TRAIDOR E VILÃO DE SÃO BERNARDO
24/06/2025 CONTRADITÓRIO INCOMODA, MAS É O MELHOR REMÉDIO
11/06/2025 PÁGINAS VIRADAS DE UMA MUDANÇA DESASTROSA
05/06/2025 VIVA DRAUZIO VARELLA, VIVA A REGIONALIDADE
30/05/2025 RANKING DE QUALIDADE DE VIDA: SANTO ANDRÉ SOFRE