Li outro dia um pífio artigo sobre a criação da UFABC (Universidade Federal do Grande ABC) que me sobressaltou ainda mais nas ponderações que tenho repassado já há muito tempo aos leitores. Assinado pelo deputado federal petista Luizinho Carlos da Silva, que avoca a paternidade de sensibilizar o governo Lula da Silva, o texto parecia saído da cabeça de algum assessor pouco versado em Grande ABC, mas habilitado a chavões pré-eleitorais.
Nada, absolutamente nada de substancioso foi possível captar naquele artigo publicado pelo Diário do Grande ABC. Aliás, desafio a quem se diz interessado na UFABC: coloco à mesa os textos que já redigi e asseguro que dediquei-me mais ao temário do que a soma de trabalhos já eventualmente produzidos. A aposta se estende aos jornalistas.
Se pelo menos os supostos articuladores da UFABC tivessem seguido o exemplo do governo federal, mais propriamente do então ministro Tarso Genro, a instituição prevista para a região não correria riscos adicionais de virar grande armadilha, para não dizer bumerangue.
Tarso Genro, certamente o melhor quadro intelectual do PT e um dos melhores que a política partidária nos oferece no balcão de insanidades e demagogias que saltam dos noticiários e das telinhas, teve a sensatez de ouvir quem deveria para formular a Reforma do Ensino Superior.
Segundo relatos, houve amplo processo de debates em aproximadamente 400 eventos. De seminários a painéis e mesas-redondas, que reuniram centenas de instituições representativas de comunidades acadêmicas e científicas, entidades empresariais e de trabalhadores. Enfim, pelo menos do ponto de vista teórico, todas as portas foram abertas para que a Reforma Universitária não se esgotasse em dogmas que não se sustentam nem onde tiveram o romantismo de brotar e se expandir.
Os eventos que definiram uma malsucedida tentativa de planejar técnica e curricularmente a Universidade Federal do Grande ABC foram conduzidos desastradamente pela então prefeita de Ribeirão Pires, professora Maria Inês Soares, presidente do Consórcio de Prefeitos do Grande ABC. Uma barbaridade de escolha para comandar os trabalhos.
Maria Inês Soares foi o maior desastre regional em matéria de desenvolvimento econômico durante os oito anos a partir de janeiro de 1997. Sua aversão ao capitalismo, porque carrega um socialismo obsoleto no ventre intelectual, chegou ao ponto de lavar as mãos diante de sucessivas perdas industriais daquele Município.
Segundo dados do IEME (Instituto de Estudos Metropolitanos), cala-boca que criamos contra malversadores estatísticos, Ribeirão Pires alcançou o recorde de desindustrialização no Estado de São Paulo naquele período — por volta de 60% de esfarelamento do PIB industrial, como poderia ser chamado o Valor Adicionado, base de distribuição do ICMS (Imposto sobre Circulação de Mercadorias e Serviços), com funda repercussão no orçamento municipal e gigantescas perdas de empregos formais.
Pois foi exatamente essa professora impiedosamente derrotada nas últimas eleições municipais, numa réplica regional do governo de Fernando Henrique Cardoso, a quem se entregou o figurino da UFABC. Maria Inês Soares foi ponta-de-lança do deputado e mais recentemente vice-líder do governo petista na Câmara Federal, Luizinho Carlos da Silva.
O que se observou como preparação à UFABC foi um festival demagógico que obedeceu a mais deslavada manipulação eleitoral: Maria Inês levou para as sedes dos legislativos locais o que seria a decisão de entregar aos convidados de bases populares o desenho da UFABC que se pretendia. É claro que os representantes do empresariado, estranhos à pregação da então prefeita de Ribeirão Pires, ficaram fora do jogo.
Mais que isso: quando se definiu o conjunto que atuaria diretamente para idealizar o alcance pedagógico da instituição, representantes do capital foram simplesmente alijados dos debates. Pior que isso só a omissão da maioria da mídia em não apontar o desvario e, convenhamos, o próprio desinteresse dos homens do capital em se preocuparem com o futuro da região.
Estava me esquecendo que outro deputado federal, também petista, andou metido no assunto tratado por muitos como panacéia dos problemas do Grande ABC. Ivan Valente, da ala dos esquerdistas mais renitentes do PT, chegou a exibir em página na Internet (confesso preguiça de observar se o desvario continua lá ou se, arrependido, o parlamentar resolveu desativar a bobagem) um legado típico do regime soviético que desmoronou em 1989 com a queda do Muro de Berlim.
Ivan Valente abomina qualquer resquício de empresariado no sistema de ensino. Como se a realidade prática deste País, onde 88,9% das escolas superiores são parte do conglomerado da livre-iniciativa, não se devesse ao Estado que deixou de cumprir com uma de suas obrigações elementares porque se meteu em atividades tipicamente privadas.
O quadro que concebeu a UFABC só não é pior que o que pode vir ainda, porque não há na sociedade regional qualquer sintoma de que eventuais desarranjos estejam incomodando.
O que já se publicou sobre a grade de cursos da UFABC seria suficiente para uma comunidade alerta manifestar-se e organizar-se para influir no rumo do planejamento, mas, como se sabe, o Grande ABC é laboratório social em que os agentes especializaram-se na melhor maneira de fugir de responsabilidades.
Quem duvidar dessa avaliação não vai perder por esperar, com o balanço do “Nostratamos de Resolver”, um bloco de 40 profecias que formulei em maio de 1996 num acesso de otimismo programado para embalar um organismo em metástase, como é o caso da institucionalidade regional.
A previsão, na toada de renitente desinteresse coletivo em que o Grande ABC viceja, é que a Universidade Federal do Grande ABC gerará milhares de novos diplomandos no País. Engrossará, portanto, as estatísticas indecorosamente inúteis do governo FHC, mas pouco contribuirá para retirar os municípios locais do estado de depauperação.
Quem ainda tem dúvidas sobre isso basta ler com um mínimo de cuidado o balanço dos seis primeiros meses das administrações locais que o Diário do Grande ABC publicou ainda recentemente. De municípios orçamentariamente ricos, o que sobrou ao Grande ABC foi um desejo coletivo de suporte financeiro dos governos do Estado e Federal, porque os cofres mínguam.
A Universidade Federal do Grande ABC pode se tornar um conto do vigário se não for concebida com viés institucionalmente integracionista, economicamente combinada com uma nova diagramação de vocações locais e socialmente adaptada a fazer dos canudos ferramenta de emprego qualificado e gerador de novas ocupações, não peça de decoração. Fora isso, vai lustrar o ego político-eleitoral de quem só pensa naquilo.
Total de 1125 matérias | Página 1
12/02/2026 REDES SOCIAIS BEM AO GOSTO DOS PODEROSOS