Sociedade

Diadema ganha sem mutreta
de São Caetano no jogo da vida

DANIEL LIMA - 23/04/2020

Diadema (com o Água Santa) deu um drible da vaca no São Caetano e, com a parceria da Federação Paulista de Futebol, tomou na mão grande a vaga do rival na Série A1 do Campeonato Paulista desta temporada. Já no jogo da vida, Diadema está melhor que São Caetano sem precisar da ajuda de terceiros, de mutretagem.

No placar de mortalidade por Coronavírus, Diadema ganha fácil da vizinha mais rica. O placar de nove mortes em São Caetano e oito em Diadema é ilusão de ótica de quase igualdade. Tudo porque a população de Diadema, de 423.363 habitantes, é 2,6 vezes maior. O placar real desse jogo é uma goleada que vamos tentar explicar.

Há vários aspectos que sustentam os dados que dão a Diadema a condição de que é melhor endereço de vida segura ante o ataque do vírus chinês quando comparada ao que se convencionou chamar de paraíso urbanístico e social da Grande São Paulo, caso de São Caetano.

Resultado parcial

O placar de letalidade do Coronavírus envolvendo os dois municípios ainda é parcial, porque a pandemia vai demorar um bocado para ir embora. Entretanto, pelo andar da carruagem as raias numéricas convencionais não se distanciarão nesse quase-empate, mas vão esconder contrastes que colocam Diadema em situação mais vantajosa no enfrentamento.

Uma morte a mais em São Caetano torna o jogo praticamente empatado numericamente, mas a diferença demográfica é esclarecedora.

Por que afinal Diadema mais pobre que São Caetano (ou menos rica segundo os triunfalistas) contabiliza proporcionalmente um número expressivo menor de mortes pela covid-19?

Dirão que tudo é decorrente da população mais idosa de São Caetano. Um argumento e tanto, que também uso. Os moradores de São Caetano com mais de 60 anos são 37.075, ou exatamente 23,07% do conjunto da população. Não é pouca coisa. O quociente está empatado com os dados de países europeus que mais sofreram com a pandemia, casos de Espanha e Itália, e quase o dobro da média brasileira, com população de idosos de 29.037.825 milhões – 13,8% do total.

Idosos pesam no resultado

Diadema, que é o que que interessa no confronto com São Caetano, conta com 44.126 moradores com mais de 60 anos – 10,42% da população. Menos da metade de São Caetano, portanto.

A distância que separa a participação relativa da população de idosos de São Caetano e de Diadema sugere ou encaminha à conclusão de que está aí a raiz da explicação. Faltam dados no Grande ABC sobre o mapa da mortalidade por faixa etária, mas a seguir a tendência nacional e internacional, não há outra explicação mais consistente porque os idosos vão embora em proporções muito maiores. Italianos e espanhóis que o digam.

Os mais velhos estão mais próximos do obituário do que os mais jovens no mundo inteiro. E olhem que os especialistas não fazem as contas direito sobre a gravidade do problema etário. Vou tentar explicar mais adiante que o bicho é pior do que parece.

Jovens também pesam

Como os jovens estão mais confortáveis nos balanços de mortalidade da covid-19, Diadema acumula mais um ponto de vantagem considerável. A soma dos moradores de São Caetano até 39 anos de idade é de 74.491 (46,35% do total), enquanto em Diadema são 273.845 (64,68% da população total). Convenhamos que é uma diferença e tanto. De 10 pontos percentuais. Ou de 28,33%.

E então, pergunto, como ficam os vetores econômicos? Qual o peso no balanço geral? Será que a qualidade de vida em São Caetano não teria força suficiente para contrabalançar o resultado final? Enquanto o melhor medidor de riqueza acumulada (o PIB do Consumo, especialidade da Consultoria IPC, do pesquisador Marcos Pazzini) aponta que São Caetano conta com consumo per capita anual de R$ 37.348,85, Diadema registra R$ 23.617,95. É uma baita diferença. Precisamente o seguinte: cada morador de São Caetano é 36,76% mais endinheirado que o morador de Diadema.

Vantagens socioeconômicas

O resultado se explica porque as condições socioeconômicas dos moradores de São Caetano estão num patamar elevadíssimo no confronto com Diadema. São Caetano conta com quase sete vezes mais famílias de classe rica relativamente a Diadema. São 7,5% ante 1,1% de Diadema. Com quase três vezes mais moradores que São Caetano, Diadema agrega em números absolutos apenas 1.623 famílias de classe rica, contra 4.482 de São Caetano.

No extremo socioeconômico oposto, enquanto a soma de pobres e miseráveis em São Caetano não passa de 38,3% da população (é verdade, há deserdados no Município mais rico da região), em Diadema a participação relativa desses segmentos chega a 49,5%. Ou seja: praticamente a metade da população.

Diferentemente do que se poderia imaginar, na medição da classe média tradicional há empate técnico entre os dois endereços municipais. São Caetano conta com 23,7% de moradores de classe média convencional, enquanto Diadema chega a 23,2%.

Letalidade menos simples

Prometi explicar o erro generalizado cometido por agentes de saúde em geral. Eles contabilizam a letalidade do vírus exclusivamente por faixa etária. Vou optar por um conceito específico em vez de números para traduzir o equívoco de forma objetiva.

Para se aferir o índice de gravidade dos óbitos por faixa etária (gravidade é mais que relatividade, ou uma combinação disso) não basta pegar a soma das mortes nas respectivas faixas etárias e dividir pelo total de baixas. Essa participação relativa não diz tudo. A correção informativa coloca em situação mais delicada e por que não atemorizadora os idosos em geral. Afinal, se eles representam determinada participação relativa da população (23% em São Caetano, por exemplo), mas no placar geral ultrapassam essa linha-âncora, o que temos é um fator agravante.

Se são 23% de participação e 60% dos óbitos (resultado aleatório que coloco à falta de dados oficiais), o potencial de impactação do vírus é muito maior ainda. E proporcionalmente muito menor na medida em que em faixas etárias mais jovens a participação relativa de mortos desaba ante o confronto com a participação relativa maior de determinadas faixas de idade no conjunto da população.

Letalidade mais grave

O resumo desse apêndice conceitual é que o placar da letalidade da covid-19 por faixas etárias é uma operação menos simples do que a apresentação do ranking percentual de mortos com base no total que não resistiu ao vírus.

Pode parecer uma bobagem, mas não é. Não pode ser considerado bobagem o grau de letalidade exponencialmente maior quando se leva a equação sugerida ao campo estatístico mais bem-elaborado. E tampouco muito menos potencialmente grave nas camadas mais jovens da população.

Conclusão: a juventude média da população de Diadema pesa potencialmente tão forte quanto a velhice de São Caetano como explicações para a distância do grau de letalidade da covid-19 nos dois endereços economicamente mais contrastantes do Grande ABC.

Talvez se não fosse tão pronunciadamente mais endinheirada que Diadema, São Caetano estaria em situação comparativa ainda mais dramática. Outros fatores são intangíveis ou exigiriam muita pesquisa, caso da infraestrutura sanitária dos dois municípios.  No aspecto de densidade demográfica, temos endereços siameses, com Diadema de 13 mil moradores por quilômetro quadrado ante 10 mil de São Caetano. São dois municípios brasileiros com maiores índices de ocupação de espaço. Perdem para a favela de Paraisópolis, com 40 mil. Mas aí é outra história.



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