Dissertação de mestrado recentemente defendida pelo professor universitário e executivo do setor educacional Vitor Bittencourt traz dados que permitem construir a seguinte constatação: o Grande ABC carece, sim, de uma universidade pública gratuita de grande porte, mas é preciso que a UFABC ofereça cursos diferenciados, inovadores, moldados de acordo com as necessidades produtivas específicas da região. Caso contrário, a colisão frontal com a vasta gama de instituições de ensino já existentes será inevitável.
Adicionalmente, é possível extrair mais uma lição valiosa do trabalho do pesquisador: parte expressiva das 33 escolas de terceiro grau em atividade no Grande ABC necessita urgentemente de novas fórmulas para baratear o custo das mensalidades e adensar o fluxo de alunos. Afinal, a demanda reprimida é enorme, ao mesmo tempo em que as escolas pagas convivem com nível alarmante de ociosidade. Uma equação paradoxal cuja solução demandará muita criatividade. Ainda mais se a UFABC sair do papel.
O que, afinal, Vitor Bittencourt descobriu em dissertação de mestrado recentemente defendida e aprovada com nota 9,8 no Imes (Universidade Municipal de São Caetano)? Que das 49.888 vagas de graduação disponíveis em 33 instituições públicas e privadas do Grande ABC no vestibular 2005, apenas 24.062 foram efetivamente preenchidas. Isso mesmo: menos da metade.
A leitura imediata dos números poderia sugerir que a oferta de vagas já é muito superior à demanda e que a implantação da UFABC soaria contra-senso. Mas a contextualização dos dados à realidade de que milhares de jovens e adultos não se matriculam em faculdades e universidades porque não dispõem de recursos financeiros para as mensalidades permite extrair interpretação diferente e mais precisa: a UFABC é importante porque tem tudo para dar conta do imenso contingente dos que não estudam porque não podem.
E a maior prova disso é o fato de o grupo de elite das escolas que obtiveram preenchimento total de vagas no vestibular 2005 é formado pelas poucas instituições que oferecem cursos subsidiados: casos da Fatec, de Mauá, da Faculdade de Direito de São Bernardo e da Fundação Termomecânica, também de São Bernardo.
Se a UFABC aterrissar com 20 mil vagas gratuitas em cinco anos, conforme alardeado, o entusiasmo de potenciais universitários de bolsos rasos será diametralmente oposto ao desespero das escolas que já digladiam na arena do ensino privado e do ensino público pago. Da mesma forma que estabelecimentos comerciais de pequeno porte sucumbiram à chegada de grandes redes supermercadistas e shoppings centers, muitas faculdades não aguentariam o assédio da gigante financiada com recursos federais. “A UFABC pode representar o caos para as instituições já existentes, pois a ociosidade elevada tenderia a subir ainda mais. Para se proteger, as instituições terão de reduzir ainda mais os custos por meio de cortes de funcionários e redução de salários e, na ponta final, a qualidade do ensino seria comprometida” — observa Vitor Bittencourt.
A única forma de evitar a colisão desenhada no horizonte seria transformar a UFABC em centro de formação profissional com cursos inéditos, formatados de acordo com as demandas produtivas não satisfeitas pelo parque educacional estabelecido. Assim, a UFABC trafegaria em estrada alternativa e, de quebra, a região ganharia instrumento valioso para o desenvolvimento econômico sustentado. “Que sejam cursos não conflitantes com os existentes, voltados à realidade local, específicos para o setor plástico e petroquímico, por exemplo” — recomenda Vitor Bittencourt, perfilando-se ao posicionamento editorial de LivreMercado e da newsletter Capital Social. “Se, em vez disso, forem criados cursos de licenciatura como letras e pedagogia, o mercado vai ficar ainda mais congestionado” — complementa.
O problema que precisa ser contornado é que algumas autoridades públicas envolvidas na criação da UFABC demonstram pouca ou nenhuma sensibilidade sobre a necessidade de conectar a grade curricular à realidade dos chãos-de-fábrica geradores de empregos, impostos e, em última análise, bem-estar social.
Dão a impressão de que preferem materializar obra vultosa a toque de caixa, recorrendo a módulos prontos e obsoletos, em vez de gastar mais tempo e energia no planejamento de estrutura personalizada que dê suporte ao desenvolvimento econômico sustentado.
Se a causa do açodamento for engessamento ideológico por acreditarem que recursos públicos não devem ser usados a serviço do capital privado — bobagem cativada por dinossauros intelectuais — que se verguem à necessidade de oferecer algo diferente do que está aí, para usar chavão com que os avessos ao liberalismo costumam atacar o modelo macroeconômico. Afinal, prejuízos públicos e privados da sobreposição com recursos dos contribuintes não interessam a ninguém.
É claro que, paralelamente à necessária formatação da UFABC em moldes pragmáticos, e não meramente acadêmicos, o segmento educacional superior terá de promover algo próximo da reinvenção. Afinal, a ociosidade conjunta de 52% que seria dramática em cenário de mercado saturado, torna-se simplesmente inaceitável quando se constata a imensidão de jovens deserdados ávidos por oportunidades de estudo como corrimão de empregabilidade e ascensão social.
Além de adequar grades curriculares às necessidades do mercado de trabalho e escapar da comoditização, terão de considerar seriamente estratégias de fusões e aquisições que contribuam para compactar custos e permitam baratear mensalidades sem prejuízo da qualidade de ensino. O raciocínio vale inclusive para as escolas públicas obrigadas a cobrar mensalidades próximas das de mercado porque não contam com subvenções municipais suficientes.
Ociosidade maior
Os dados da dissertação de mestrado mostram ainda que a cidade mais cotada para acolher o campus da UFABC é justamente a que apresenta a maior quantidade de vagas perdidas. Das 20.350 vagas de graduação oferecidas pelas 12 escolas de Santo André no vestibular 2005, 11.735 não foram preenchidas — ou 52% do total. Em São Caetano, foram registradas apenas 3.488 matrículas entre as 11.775 vagas oferecidas pelo conjunto de seis instituições. As 10 escolas de São Bernardo ofereceram 14.898 vagas e aproveitaram 10.915 — a melhor taxa de conversão por Município. Em Mauá, três instituições ofereceram 715 vagas e preencheram 300. Em Ribeirão Pires, a Faculdade Firp teve 324 matrículas do total de 600 vagas. A Faculdade Diadema, única da cidade, ofereceu 1.550 vagas mas se inscreveram apenas 420. Rio Grande da Serra não dispõe de faculdade.
A constatação de que o conjunto das instituições de Ensino Superior do Grande ABC convive com ociosidade alarmante deu-se por acaso. O foco inicial da dissertação de mestrado era simplesmente levantar, descrever e analisar as ações de propaganda e promoção utilizadas pelo setor. “Mirei alvo modesto e acabei atingindo outro bem mais profundo, relacionado à sustentabilidade” — reconhece Vitor Bittencourt que, além de professor em três instituições, é coordenador do Departamento de Marketing do IESA (Instituto de Ensino Superior de Santo André).
No trabalho intitulado “Ações de comunicação para a prática do marketing educacional: um estudo nas instituições de Ensino Superior do Grande ABC”, o autor não constrói conexão entre o flagrante excesso de vagas e a perspectiva ainda mais sombria com a implantação da UFABC. Mas, incitado a analisar o cenário do futuro próximo com base nos dados que ele mesmo compilou, demonstra pragmatismo e transparência típicos dos analistas independentes.
O fato de ter enveredado por caminhos não imaginados não significa que a meta inicial tenha ficado para trás. Pelo contrário. Além de expor a situação complicada e as prováveis consequências do acirramento da concorrência, Vitor produziu verdadeira radiografia de marketing das escolas de terceiro grau. Para tanto, entrevistou pessoalmente gestores de comunicação das 33 faculdades e universidades da região, munido de questionário com 26 questões e 140 variáveis codificadas para facilitar a tabulação.
Muitos entrevistados demonstravam receio de revelar informações que julgavam estratégicas, mas a insistência do pesquisador de 34 anos e a ressalva de que os dados seriam apresentados de forma consolidada e não individualmente, quebraram resistências. “Só não falei com o gestor de uma das instituições, cujo porte e importância são relativamente pequenos. Mesmo assim, consegui as informações por meio de outros interlocutores” — esclarece.
Descobriu, por exemplo, que 91% das escolas de nível superior direcionam a artilharia de propaganda e promoção a alunos do Ensino Médio, enquanto apenas 41% têm ações voltadas ao supletivo. “Alunos do supletivo são semelhantes aos do Ensino Médio na medida em que também estão na ante-sala do Ensino Superior. Não há razão que explique a diferença de atenção” — conclui.
Quanto ao posicionamento de marketing, ou seja, à característica de atuação que as escolas procuram sedimentar em peças publicitárias, Vitor constatou muito conservadorismo e pouca disposição para inovar. Mostra que 22 instituições priorizam mensagens que ressaltam o corpo docente qualificado, enquanto nenhuma citou atividades esportivas ou procurou vender a imagem institucional como forma de sair do lugar-comum. “Corpo docente qualificado é chavão ineficiente porque está massificado e ressalta condição supostamente obrigatória, em vez de elemento extraordinário. É o mesmo que uma empresa de transporte de cargas dizer que só trabalha com motoristas habilitados” — compara Bittencourt.
O professor diz não compreender a ausência de posicionamento sustentado em atividades esportivas e corporativas. “Esporte é galera, juventude, tem tudo a ver com o setor. Embora haja escolas com o perfil, ninguém na região quer aceitar o rótulo de elitizado, mas a Faap, de São Paulo, não só convive bem com a imagem como oferece curso superior de gestão do luxo, voltado a empreendimentos como a Daslu” — comenta.
Em outros pontos da dissertação há tomadas valiosas para empreendedores do meio educacional: tabelas que demonstram o retorno relativo das diversas ferramentas de propaganda e promoção, ou seja, quais estratégias de comunicação são mais apetitosas à luz da relação custo/benefício — se anúncios em revistas, jornais, outdoors, folders ou Internet.
Com todos esses insumos, Vitor inspirou-se no IEME (Instituto de Estudos Metropolitanos) e criou indicadores de performance das instituições de ensino no front do marketing. Basicamente, quem investe com mais eficiência, atrai mais alunos para o vestibular e preenche a maior quantidade de vagas chega mais próximo da perfeição representada pelo número um.
Deu trabalho, mas o esforço foi recompensado. Vitor Bittencourt foi aprovado com nota 9,8. Passou pelo crivo do orientador Silvio Minciotti, ex-presidente do IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística), da Fepasa (Ferrovia Paulista SA) e diretor-executivo da Agência de Desenvolvimento do Grande ABC.
A UFABC não é a única ameaça para escolas de nível superior às voltas com demanda insuficiente. O assédio de instituições que exploram o mercado educacional da região pela via do ensino a distância é ingrediente adicional que complica a vida dos empreendedores educacionais. “Faculdades do Interior de São Paulo e até do Paraná têm centenas de alunos aqui na região em cursos de graduação e pós-graduação via Internet. E mais: alugam salas das instituições daqui para cumprir o percentual de aulas obrigatoriamente presenciais. Algumas dessas escolas virtuais têm mais alunos do que determinadas faculdades reais” — explica Vitor.
A invasão virtual é prejudicial ao Grande ABC porque não cria empregos nem impostos, já que o ISS (Imposto Sobre Serviços) é colhido no município-sede e o corpo docente das aulas presenciais vem de fora. “Os professores chegam em ônibus lotados” — completa Vitor Bittencourt.
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12/02/2026 REDES SOCIAIS BEM AO GOSTO DOS PODEROSOS