Parece que o Diário do Grande ABC decidiu fazer com o vírus chinês o que não fez ao longo da história (com interrupções pontuais por conta de circunstâncias) com a contabilidade da desindustrialização. Pelo segundo dia consecutivo o jornal mais tradicional da região levou à manchetíssima (manchete das manchetes de primeira página) a gravidade do Coronavírus. Aplausos, muitos aplausos!
Quem demoniza ou politiza a clareza e a transparência dos dados e das informações (e nesse ponto estou com o Jornal Nacional e não abro) pretende posar de politicamente correto ou de avestruz, quando não em autodefesa, no caso de gestores públicos.
Na edição de hoje o Diário do Grande ABC acertou duplamente. Primeiro ao dar ao vírus a importância que se exige de um veículo de comunicação. Segundo porque deu enfoque ao confronto de dados emblematicamente pedagógicos na luta – e agora a opinião é minha -- por políticas sanitárias rígidas que, não necessariamente, impliquem em paralisar a economia.
Vejam a manchetíssima de hoje do Diário do Grande ABC e a chamada de primeira página:
“Covid19 mata mais em 50 dias que homicídio em um ano todo”. Nos 50 dias que se passaram desde a primeira morte por Covid-19 no Grande ABC, em 25 de março, 277 pessoas perderam a vida em razão da doença. Nesse sentido, a pandemia foi mais letal que todos os crimes de homicídio doloso (com intenção de matar) e latrocínio (roubo seguido de morte) registrados na região em 2019. A soma de delitos nos 12 meses resultou em 178 vítimas fatais. O infectologista Fábio Leal afirma que os dados atestam a mortalidade do novo Coronavírus. “Esses números fazem cair por terra a ideia de que não é relevante o impacto que essa doença tem quanto a mortes e casos graves”. O especialista em segurança pública Jorge Lordello avalia que a Covid-19 influenciará também nos índices criminais. Com as medidas de isolamento, há menos indivíduos nas ruas. Entretanto, ele prevê migração de criminosos para outras modalidades também à margem da lei”. – escreveu o jornal na primeira página.
Saiu do armário
A guinada do Diário do Grande ABC em direção à montanha de mortos que não pode ser tratada discretamente é um ponto positivo da cobertura do jornal tem dado sobre os efeitos do Coronavírus.
Até a edição de ontem, quando saiu do armário da discrição, o Diário do Grande ABD enfiava num cantinho de página, o mais escondidinho possível, o balanço mal-ajambrado do dia anterior dos danos do Coronavírus.
Não exagero ao afirmar que enfiava num cantinho de página o tratamento a uma situação que exige o máximo de destaque, mesmo que leitores conservadores e interessados menos nobres oponham-se à medida.
Os números da região geralmente entravam como complemento de matéria que dava igual tratamento (ou seja, o escondidinho de página) aos números do Estado e do País.
Agora se insinua uma situação editorial diferente. Creio que o diretor de Redação Evaldo Novelini terá importância histórica para o jornal assim como o antecessor, Sérgio Vieira que, em 2015, quando fui convidado a assumir de novo a função de ombudsman do jornal, além de consultor editorial, fez questão de destacar o equívoco do jornal em subestimar, quando não se omitir completamente no processo de desindustrialização.
Reviravolta incompleta
Sem dizer exatamente o que acabo de afirmar, porque tem outro estilo, Sérgio Vieira corroborou, mesmo que de forma discreta, com a narrativa sempre fundamentada deste jornalista durante quase duas décadas à frente da revista LivreMercado e desde 2001 nesta publicação digital.
Pena que a reviravolta do jornal no caso da desindustrialização tenha sido abandonada, além de outros pontos também destacados num documento que reproduzirei abaixo.
A desindustrialização do Grande ABC, vertiginosa e constante durante décadas em que o empresário Ronan Maria Pinto não imaginava assumir o comando do jornal, deveria ser enfatizada como no caso que aparentemente surge na cobertura do vírus chinês.
O Diário do Grande ABC segue em dívida com a sociedade e seus leitores nesse ponto. Entre outras razões porque há ainda quem confunda informação realística com desincentivo a investimentos e, sobretudo, quem maliciosamente mistura as bolas de insumos editoriais e receitas publicitárias.
Carta do Grande ABC
Na sequência, reproduzo o texto que preparei para esta revista digital, publicado na edição de 11 de maio de 2015, quando, repito, estava consultor especial e ombudsman do Diário do Grande ABC. Tomara que o novo tratamento ao Coronavírus desencadeie no jornal uma política editorial anunciada no texto que se segue sob o título “Carta do Grande ABC é documento histórico. Agora ou vai ou racha”.
A Carta do Grande ABC que o Diário do Grande ABC publica na primeira página da edição desta segunda-feira, quando completa 57 anos de atividades, é um documento histórico que dispensa completa materialidade dos pressupostos, embora esses mesmos pressupostos sejam de extraordinária importância. O que quero dizer de cara e sem meias palavras é que a Carta do Grande ABC tem um significado especial para o próprio jornal e para a sociedade regional. O significado de que agora ou vai ou racha a regionalidade jamais alcançada no nível necessário, embora seja muito mais expressiva do que em outros territórios metropolitanos que jamais contaram com pelo menos um veículo de comunicação a conectá-los – ou se contaram não chegou aos pés da principal publicação desta região.
Mais Carta do Diário
Está na agenda do Diário do Grande ABC, cujos pontos foram listados na Carta do Grande ABC, algo que provavelmente resume a guinada editorial da publicação. Trata-se do fato de que a direção editorial e a direção corporativa da publicação assumiram mea-culpa específica sobre um dos fantasmas que sempre rondaram a redação do jornal -- a verdade, a verdade da desindustrialização. Quem diria que o Diário do Grande ABC, um dos membros da orquestra de dissimulação da quebra industrial da região a partir dos anos 1990, principalmente, partiria para a impressão de uma sentença de arrependimento ao lamentar os artifícios em que se deixou levar por especialista em traquinagens semânticas?
Mais Carta do Diário
Pois esse Diário do Grande ABC que emoldura em azul uma Carta do Grande ABC que lhe vai servir de bússola temática de comprometimento com a sociedade regional não se recusou a expor um revisionismo que antecessores no comando diretivo e editorial jamais aceitariam em nome de uma teimosia idiota. Só por isso, se não fosse a agenda do Diário do Grande ABC um facho de luminosidade a apontar o caminho do futuro, a Carta do Grande ABC já seria suficiente para estabelecer juízo de valor sobre as reais pretensões da publicação. O Diário do Grande ABC do diretor de redação Sérgio Vieira e do presidente Ronan Maria Pinto está fazendo história, repito, só no apontamento das novas diretrizes conceituais e temáticas que a primeira página de hoje explicita. Só por isso já vale a pena ter o jornal como companheiro de leitura a cada dia. Agora, se essa que será uma maratona de transformações, alcançar os pontos viscerais desta Província, terá valido a pena acreditar para valer.
Mais Carta do Diário
O recado às instituições inúteis e aos protagonistas improdutivos da Província do Grande ABC foi contundente na Carta do Grande ABC. Eles não terão sossego. Vão ser questionados e pressionados a mostrar trabalho. Eles vão descobrir – e os demais cidadãos e organizações da região também – que aqueles 10 pontos listados vão virar um mantra que não será um peso a ser sustentado exclusivamente pela publicação. Afinal, o reformismo daquelas linhas e daquela mensagem é uma obra coletiva que tem o jornal como general da banda. Seria uma burrice sem tamanho se o mesmo jornal que assume com destaque em primeira página o erro cometido ao longo da história -- quando não considerou o quadro econômico da região inquietante ante as transformações ditadas pelo recuo permanente do setor industrial -- não contasse em contrapartida a essa confissão pública com o empenho da sociedade a qual abastece com informações ao longo de quase 60 anos. Até porque, convenhamos, o saldo positivo do Diário do Grande ABC nessa longa trajetória se projeta como maior do que parece, embora seja muito, porque do outro lado estão instituições e individualidades de destaque que, salvo raras exceções, construíram um imenso déficit de comprometimento social.
Mais Carta do Diário
Mudar a realidade desta Província é, portanto, uma tarefa extraordinariamente complexa. O ponto de partida, se já foi dado no passado com apontamentos de perdas e desequilíbrios insistentemente por este jornalista, somente agora com a força institucional do Diário do Grande ABC poderá ter a alavancagem indispensável. Tomara que a iniciativa do jornal se propague às demais mídias da região. Não há nada mais corrosivo ao conjunto da população do que a continuidade mesmo que em menor proporção do enaltecimento estúpido de figurinhas carimbadas que, em contrapartida à vaidade pessoal natural dos humanos, não oferecem absolutamente nada de substantivo às causas regionais.
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A Carta do Grande ABC configura-se, portanto, com importante largada numa prova de resistência que tem o principal jornal da região como incentivador e, mais que isso, como gestor de um trajeto que não pode sofrer desvios de rota porque já perdemos tempos demais durante pelo menos durante as últimas três décadas. A humildade pública exposta pelo Diário do Grande ABC na primeira página de hoje jamais poderá ser observada como gesto unilateral e isolado. É uma iniciativa que tem dupla face: de um lado um passado pouco esclarecido que ganhou a oficialidade do erro de avaliação da realidade econômica regional; de outro, o engajamento geral e irrestrito daqueles que têm todo o direito de cobrar mais e mais eficiência do jornal, mas que, também, têm de fazer a sua parte. Responsabilidade recíproca, eis o nome da nova ordem regional. É assim que se constrói cidadania.
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13/11/2024 Diário: Plano Real que durou nove meses (33)