Sociedade

Amor e paixão à primeira volta

LUCIA ANDREOZZI - 10/03/2006

Bastaram 10 minutos de carona no jipe de um amigo para que a vida de Fernandes Pereira desse guinada de 180 graus. A história ocorreu há 31 anos e o então especialista em cerâmica eletroeletrônica foi contaminado por vírus que se alastrou pela corrente sanguínea e ficou definitivamente alojado no DNA. Um caso indiscutível de amor à primeira vista. Ou melhor, à primeira volta e que revelou habilidades só perceptíveis em situações que fogem aos hábitos de rotina. Assim, como num passe de mágica, Fernandes Pereira se tornou jipeiro inveterado, colecionador apaixonado e exímio restaurador de veículos off-road.


“O primeiro jipe a gente nunca esquece” — parafraseia Fernando Pereira, com ares de Indiana Jones e adrenalina suficiente para contaminar gerações a fio. A memória subsidia com perfeição o relato das aventuras e já que não faltam casos, a opção de iniciar o relato por ordem cronológica só endossa aquilo que todo apaixonado considera tão imprescindível quanto a própria vida. Afinal, se é impossível esquecer o primeiro jipe, também é improvável deletar da memória sacrifícios para impulsionar quase três décadas de aventuras.


Os olhos do jipeiro brilham quando lembra que pelos idos de 1975 teve de gastar perto de R$ 6 mil para adquirir o primeiro modelo Willys CJ5 1964. Era funcionário da Philips e raspou o tacho — na liturgia dos veteranos — para dar início ao sonho. Hoje são quatro jipes, acondicionados na ampla lavanderia de sua residência em Ribeirão Pires, no Bairro de Ouro Fino Paulista. O local foi cedido pela esposa Maria das Graças. Ela desconfiou da intenção do marido de transformar a área de serviço da casa em oficina de recuperação de off-roads.


Os jipes Willys foram produzidos durante a Segunda Guerra Mundial como instrumento de batalha. Aportaram no Brasil na década de 40 e se tornaram tradicionais na prática desse esporte. O primeiro veículo de Fernandes Pereira precisou de ajustes mecânicos para potencializar a robustez característica dos 4 X 4 antes de tomar o lugar do velho fusca da família. “Aprendi a reformar os veículos para unir o útil ao agradável” — comenta. Ele trabalha ao lado do ex-instrutor e também jipeiro Osvaldo Roncon. Uma restauração leva em média seis meses. O valor do veículo reformado pode girar em torno de R$ 20 mil.


Fernandes Pereira utilizava inicialmente o jipe apenas para pescar e circular por Ribeirão Pires, onde vive desde 1957. Conhecida por incontáveis trilhas, principalmente no trecho da Serra do Mar entre São Bernardo e Paranapiacaba, Ribeirão Pires está inserida em área totalmente protegida pela Lei de Mananciais. Boa parte do território é composta por ramificações da Mata Atlântica, gigantesco playground natural para adeptos de aventura.


Também é reduto de uma das unidades do Jeep Clube do Brasil. Fernandes não poderia estar fora do grupo. “Fui o membro número seis e faço parte da diretoria desde a fundação. Importamos a idéia da Capital, onde íamos com frequência para trocar informações e participar de passeios, eventos e competições” — lembra Fernandes Pereira. Ele garante que perdeu a conta de quantas trilhas percorreu.


O sinal verde ficou mais forte após aposentar-se há 16 anos. Passou a se dedicar em tempo integral à velha paixão. Ou 25 horas por dia, como gosta de brincar. Um dos melhores amigos e antigo chefe na Philips, Augusto Liochi, partilha do mesmo entusiasmo pelo esporte. Augusto Liochi assume este mês a presidência do Jeep Clube de Ribeirão Pires e escolheu Fernandes Pereira para compor a diretoria técnica.


Na direção de um dos quatro jipes — dois militares e dois civis séries 1964, 1973, 1976 e 1983 — ou como mecânico de plantão durante as provas no Grande ABC ou em outros Estados do Brasil, Fernandes Pereira respira e transpira o esporte. As viagens exigem doses extras de adrenalina, boa forma física e proporcionam paisagens de surpresas e emoções. A companheira Maria das Graças sempre marca presença nos passeios e os filhos Tânia e Márcio também integram o clube. “O Márcio praticamente nasceu dentro de um jipe. Cinco horas antes da minha mulher dar à luz estávamos em um percurso” — recorda empolgado. O acontecimento foi há 27 anos.


Um dos principais ingredientes das trilhas off-road são os obstáculos naturais. Nas provas conhecidas como raids os participantes buscam transpor dificuldades impostas pela natureza, como pistas estreitas, estradas íngremes e lamacentas, além de muito mato. A vitória não dá direito a prêmios em dinheiro. O que se ganha geralmente são acessórios. “Os carros quebram, tombam e atolam, mas raramente ocorrem acidentes. Apenas capotagem com alguns arranhões ou pequenas fraturas. Damos muito valor à segurança” — frisa.


Uma das muitas emoções do jipeiro foi a participação no raid de Campos do Jordão em 1987, quando sua equipe venceu a prova na categoria Willys e deixou 55 concorrentes a comer poeira. Fernandes Pereira desempenhou a função de Zequinha, o faz-tudo na competição, desde abrir e fechar porteiras a esticar cabos, engatar e orientar os navegadores, como são chamados os participantes. Com bom humor, lembra do tombo homérico numa ribanceira, sem consequências sérias.


Em outra ocasião, acompanhou grupo de turistas franceses a uma trilha em Paranapiacaba. “Os jovens queriam conhecer o off-road em Ribeirão Pires. Entramos na mata às 10h da manhã de um domingo e só conseguimos sair 24 horas depois. Dos 10 participantes, oito quebraram. Passamos muito frio, até o pedido de socorro ser atendido pelo rádio comunicador” — conta. Outro fato cômico envolveu quatro amigos empresários da cidade, que resolveram passear com as esposas na Serra do Mar. Depois de exagerar na cerveja, se perderam e atolaram na lama. Foram resgatados 26 horas mais tarde. “Eram pilotos de grau mínimo em grau máximo de dificuldade. Só podia dar no que deu” — brinca Fernandes.


Algumas histórias igualmente carregadas de emoção e que pouco têm a ver com raids também pontuam o álbum de boas recordações. No ano passado, crianças portadoras de necessidades especiais assistidas por entidade de Ribeirão Pires participaram de excursão no meio da mata com 80 jipeiros. Os pilotos narravam detalhes do circuito àqueles que não enxergavam. A receptividade foi tão grande que a ação passou a integrar a programação anual do clube.


Em 2005, o Jeep Clube de Ribeirão Pires promoveu 22 eventos, entre os quais a inauguração da Praça do Jipe no centro da cidade, além de campanhas sociais como do agasalho, do desarmamento e de Natal. Em todas, Fernandes Pereira marcou presença. Ele também pretende estar nas comemorações do 52º aniversário de Ribeirão Pires neste mês de março, nas exposições em shopping centers, no 19º Raid do Batom em homenagem ao mês das mulheres e na competição de Rock Crawling, modalidade mais radical do off-road. “Também auxiliamos a Defesa Civil a entrar em trilhas de difícil acesso, levamos vacina e remédios a pontos mais isolados e somos parceiros da Prefeitura em projetos como o Adote uma Praça e Ribeirão das Trilhas, e da ONG Earth para preservação do meio ambiente” — lista Fernandes Pereira, com vitalidade pouco comum a quem já rompeu a barreira dos 60 anos. “Quero ser jipeiro até o dia em que tiver forças para subir no carro, nem que seja nos braços dos amigos”.


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