Sociedade

Irreverência no pastoreio
de fiéis na Matriz de Mauá

ELIANE DE SOUZA - 12/04/2006

Comicidade é a marca registrada do Cônego Belisário Elias de Souza. O padre mais veterano nomeado pela Diocese de Santo André – 47 anos de sacerdócio e 72 de idade – é o líder cheio de graça da Igreja Matriz de Mauá. A característica de quem perde o amigo mas não perde a piada não o levou a colecionar desafetos. Pelo contrário: Cônego Belisário reza cinco missas dominicais com Igreja lotada, administra a paróquia central e se desdobra em atendimentos individuais a fiéis. “A Igreja é como um grande mercado religioso. As pessoas vêm apenas quando precisam restaurar a alma, sem qualquer compromisso” – define o operário da fé.


O sacerdote por vocação não poderia ter nascido em outro lugar. O cearense de Pacuti, cidade incrustada na Serra do Baturité, recebeu influência de familiares católicos fervorosos. Além de se espelhar em ícones católicos como Padre Cícero, Frei Damião, Irmã Dulce e Dom Helder Câmara, provenientes da região mais católica do Brasil. Na infância estudou em colégio de freiras e se tornou coroinha. Aprendeu preceitos que seguiria pelo resto da vida. Em 1944 ingressou no seminário e continuou os estudos em Jundiaí, Interior de São Paulo.


A saga do sertão do Ceará até São Paulo em plena Segunda Guerra Mundial durou 20 dias. Com o navio inoperante por causa da guerra, Cônego Belisário foi obrigado a percorrer diversas cidades em ônibus, barco, caminhão, balsa e trem para concluir estudos na Congregação dos Padres Salvatorianos, em Jundiaí, onde estudou filosofia e teologia. Em 1958 foi ordenado padre pela Diocese de Santo André, responsável pelas paróquias do Grande ABC. Em 1961 foi entitulado cônego. O mérito é concedido a padres que auxiliam bispos em celebrações e na administração da Diocese. Depois de estudar em Roma iniciou trabalho de evangelização na Vila Vitória, em Mauá, onde ficou por nove anos. Há 31 anos lidera a Igreja Matriz de Mauá.


Além da Igreja central, é responsável por seis grupos de estudos no Jardim Oratório, um dos bairros mais precários de Mauá. As missas eram realizadas em barracão no alto do morro. Para ter acesso às celebrações, os fiéis eram obrigados a pagar pedágio aos traficantes. Assustado, Cônego Belisário atendeu à exigência. “Paguei apenas a primeira vez, depois disseram que eu era do pedaço” – recorda-se o humilde pecador, como costuma autodenominar, familiarizado com gírias locais. O trabalho foi estendido aos bairros Paranavaí, Vila Magine e Nova Mauá. Cônego Belisário quer formar uma Igreja para atender os párocos dessas três localidades.


As cerimônias religiosas são realizadas diariamente às 7h e 19h. Aos domingos a maratona paroquial é intensificada com cinco missas, às 5h, às 8h30, às 10h, às 17h e 19h. Todas transmitidas pela Rádio Imaculada Conceição de Mauá, 1490 AM. Às sexta-feiras, às 16h, é transmitida a novena de Nossa Senhora do Perpétuo Socorro. Durante o dia Cônego Belisário abre as portas da casa paroquial a católicos para confissões, palavra de conforto, conselhos para filhos desajustados, ajuda financeira, cursos para noivos, preparação para batismos, entre outros. Nem de longe a atividade parece extenuá-lo. O mote do religioso é acolher quem quer que seja. “O papel da Igreja é valorizar a pessoa como fisionomia de Deus” – filosofa.


Sob as bênçãos de Cônego Belisário funciona também o colégio da paróquia, com cursos de enfermagem, Ensino Infantil, Fundamental e Médio. A Igreja também participa do Centro de Assistência Social da Imaculada Conceição com os programas Berço da Amizade e Bazar da Caridade. O primeiro arrecada peças de roupas para bebês de mães carentes e o bazar comercializa roupas, sapatos e utensílios domésticos.


A pesquisa Retratos das Religiões no Brasil divulgada pela Fundação Getúlio Vargas aponta que a maior nação católica – com 126 milhões de adeptos – vem perdendo fiéis nas últimas décadas. Em 1980, 89% da população era católica contra 73% no ano passado. No mesmo período os sem-religião cresceram de 1,6% para 7,3%. O estudo calcula que a cada década a possibilidade de brasileiros se tornarem católicos cai 28%. O cenário não passou despercebido. A Igreja desenvolveu estratégia para não fazer do cristianismo rótulo de quem não tem religião.


Para isso foi preciso levar a Igreja para mais perto dos seguidores. Cônego Belisário coordena a Pastoral de Rua, formada por grupos de católicos leigos que evangelizam em espaços públicos e se reúnem em lares para estudar a Bíblia. A mudança atende à nova realidade da região. Horários fixos de missas e celebrações não se ajustam a um Grande ABC que deixou de ser industrial e se adaptou à elasticidade de expedientes comerciais. “Não posso realizar um curso para noivos no sábado à noite porque muitos casais trabalham nesse horário” – explica o religioso.


A liturgia contemporânea passa longe de teologias da prosperidade, utilizadas por religiões que substituem o alívio espiritual por promessas de estabilidade financeira. Cônego Belisário explica que muitos se iludem por essas doutrinas porque procuram satisfação pessoal em vez de preceitos do cristianismo. Líderes midiáticos como Padre Marcelo Rossi e Padre Antônio Maria não assustam. Para o cônego, é necessário que a Igreja Católica se adapte aos novos tempos utilizando todos os métodos possíveis, inclusive os meios de comunicação. “Eles receberam esse dom de Deus e o estão usando para trazer a juventude à Igreja” – enfatiza.


Como nem só de ministério espiritual vive um sacerdote, as noites de domingo Cônego Belisário reserva para praticar costume profano. Sem perder a santidade, deixa a batina de lado, se cerca de amigos em volta de fogueira e solta a voz com canções de Nelson Gonçalves. Nesses momentos de descontração, relembra a infância e a prematura vocação sacerdotal. Desde pequeno brincava de padre. Uma toalha de banho nos ombros representava a batina, enquanto repetia à família os sermões que ouvia na capela. “Cochilava na missa, mas nunca deixei de rezar o terço em casa” – brinca, ao contar sobre o percurso de 30 quilômetros que fazia até chegar à Igreja.


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